"O pânico matou essas pessoas": Portugal enterra as vítimas de seu incêndio

Tyler Hicks

Em Pedrógão Grande (Portugal)

  • TYLER HICKS/NYT

    Famílias se despedem de vítimas de incêndio, em funeral em São Pedro, em Portugal

    Famílias se despedem de vítimas de incêndio, em funeral em São Pedro, em Portugal

O violento incêndio durou mais de três dias, desfigurando a paisagem de florestas e deixando feridas profundas nas unidas comunidades agrícolas da região central de Portugal.

Em um dos funerais que presenciei na semana passada, em Sarzedas de São Pedro, seis pessoas foram enterradas de uma vez. Moradores do pequeno vilarejo se espremeram dentro da igreja para se despedir de seus vizinhos, que estavam entre as mais de 60 pessoas que morreram quando um incêndio fora de controle devastou uma área rural antes densamente florestada.

O incêndio, o pior do país em décadas, pode ter começado com um raio ou talvez tenha sido iniciado deliberadamente. As autoridades ainda não conseguem afirmar.

O governo solicitou uma investigação, mas a incerteza a respeito da causa do incêndio tem alimentado teorias da conspiração e levantado dúvidas sobre se as autoridades responderam rápido o suficiente.

Vim para cá de Nairóbi, no Quênia, onde vivo, dois dias depois do início dos incêndios, para fotografar seus rastros e documentar como as pessoas nessa parte pobre e esquecida do país estavam seguindo em frente.

Estava escuro quando cheguei a Pedrógão Grande, no centro da área incendiada. Sob o breu do céu da noite, uma névoa espessa de fumaça ainda pairava densa sobre o campo carbonizado. Eu não tinha muita certeza do que esperar quando começassem a surgir as primeiras luzes do dia.

TYLER HICKS/NYT
Lucinda Henriques Goncalves observa os bombeiros combatendo o incêndio que atingiu a região de Pedrógão Grande

Placas de sinalização queimadas, árvores desfolhadas e carcaças derretidas de automóveis abandonados cobriam o acostamento da N236-1, uma estrada rural sinuosa. Foi ali que um carro que tentava fugir bateu. O engavetamento que se seguiu encurralou mais de 40 pessoas, que foram então envolvidas pelas chamas e pela fumaça enquanto tentavam fugir.

"Foi o pânico que matou essas pessoas", disse Caterina Araújo Silva, que veio de Lisboa, a capital portuguesa, para ver como estava a casa de seus pais no vilarejo de Souto Fundeiro. "Elas não sabiam o que fazer".

Por sorte, seus pais estavam fora quando o incêndio destruiu o vilarejo, danificando gravemente sua casa.

Outros moradores dos vilarejos e povoados espalhados pelas florestas tiveram de decidir se ficavam onde estavam e protegiam suas casas ou se fugiam das chamas. Moradores relatam que não receberam instruções claras.

Muitas das pessoas com quem conversei questionavam a decisão de evacuar alguns vilarejos, e criticaram a incapacidade [das autoridades] de fechar as estradas estreitas e sinuosas onde morreram a maior parte daqueles que ficaram presos em seus carros.

"Eles estavam sozinhos e não sabiam o que fazer", disse Diogo Quevedo, 26, cuja mãe morreu no incêndio. "Os que ficaram sobreviveram, mas os que fugiram morreram".

Regina Braz e seu marido tentaram escapar a pé quando seu vilarejo, Várzeas, foi consumido pelo fogo. Eles sofreram queimaduras antes que um fazendeiro local que passava de carro os resgatasse. "Eu simplesmente corri porque não sabia o que fazer", disse Braz. "Se ele não estivesse passando, nós teríamos morrido".

Essa parte de Portugal é cortada por desfiladeiros secos e barrancos rachados cercados de pinheiros e eucaliptos altamente inflamáveis. Embora as pessoas aqui tenham sempre vivido acostumadas com incêndios florestais, que ocorrem todo verão há décadas, o calor extremo desta primavera aumentou os riscos. E os ventos levaram as chamas e as fumaças ardentes em direções imprevisíveis.

"Juntaram-se todas as condições para dar tudo errado", disse Miguel Araújo Silva, irmão de Caterina, que veio junto com ela para ver a casa dos pais.

Muitos dos 2 mil bombeiros que foram enviados, com apoio aéreo, para combater o incêndio, também foram pegos de surpresa. Enquanto eu fotografava os esforços de uma força de voluntários que tentavam apagar um incêndio persistente ao longo de um desfiladeiro remoto cercado por árvores, o vento passou a soprar em nossa direção.

Dei alguns passos para trás e consegui sair dele, mas eu já havia inalado uma fumaça carregada que encheu meu peito. Aquilo me deixou nauseado e desorientado, com uma dor de cabeça terrível durante horas.

O fogo mais devastador perto de Pedrógão Grande era a convergência de incêndios diversos que queimavam em diferentes frentes. O incêndio parecia seletivo, como se as chamas fossem persuadidas a ir para um lado ou para outro pelos ventos inconstantes.

Passado o incêndio, era evidente a dor dos habitantes. Algumas pessoas compartilharam comigo a raiva que sentiam das autoridades, que, segundo elas, não haviam feito o suficiente para ajudar aqueles que iam em direção ao perigo.

"Algum tipo de fenômeno natural pode ter causado o incêndio", disse Antonio Ricardo, um moleiro de Outão, vilarejo a sudoeste de Ramalho. "Mas ainda assim as pessoas acham que o corpo de bombeiros cometeu erros".

A maioria dos bombeiros que combateram as chamas eram voluntários locais. Um dia depois dos lotados funerais em Sarzedas de São Pedro, estive presente no funeral, na quarta-feira passada, em Castanheira de Pêra, de Gonçalo Conceição, um bombeiro voluntário de 40 anos de idade. Ele serviu "na paz, no perigo e na dor", como diz o lema no seu uniforme e de seus colegas.

Tradutor: UOL

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