Com ajuda de ex-soldados do Taleban, Estado Islâmico avança no Afeganistão

Jawad Sukhanyar e Rod Nordland

Em Cabul (Afeganistão)

  • Getty Images/iStockphoto

    Soldados em missão no Afeganistão

    Soldados em missão no Afeganistão

Dois grupos do Taleban que passaram recentemente para o lado do Estado Islâmico dominaram um distrito no norte do Afeganistão, matando pelo menos 10 combatentes do governo e um grande número de civis, segundo autoridades afegãs na área.

Além disso, autoridades do governo acusam combatentes do Estado Islâmico (EI) de serem responsáveis pelas mortes de 15 pacientes médicos, mas não ficou imediatamente claro se eles morreram devido a seus ferimentos ou se foram executados pelo Estado Islâmico. Os eventos representam uma nova frente para o grupo extremista, que enfrenta oposição do Taleban assim como do governo e antes não tinha tido sucessos significativos no norte do Afeganistão.

O ataque ocorreu no distrito de Darzab, no sudeste da província de Jowzjan, uma área remota cujo controle há muito é alternado entre o governo e o Taleban, com os senhores da guerra locais frequentemente trocando sua fidelidade. Combatentes leais ao senhor da guerra e vice-presidente exilado do país, o general Abdul Rashid Dostum, também tiveram um papel.

Na semana passada, combatentes do Estado Islâmico tomaram todo Darzab, segundo o governador em exercício do distrito, Baz Mohammad Dawar. O governo conseguiu retomar o controle do centro do distrito, mas não de grande parte do restante do território; 10 policiais ou soldados foram mortos nos combates, ele disse.

Com a clínica do distrito sob controle do Estado Islâmico, 15 pacientes foram evacuados para a capital da província de Jowzjan, Sheberghan, mas morreram em trânsito, disseram autoridades afegãs. Mohammad Reza Ghafori, o porta-voz do governador da província, disse que os combatentes do Estado Islâmico destruíram a clínica de 50 leitos, forçando os pacientes a fugir.

Dawar disse achar que os pacientes morreram de seus ferimentos na jornada por terreno acidentado, por falta de pessoal médico na área. Outras autoridades disseram que provavelmente foram mortos pelos combatentes, que controlavam a área pela qual os pacientes viajavam.

Na aldeia de Betaw, em Darzab, militantes do Estado Islâmico mataram sete policiais locais e 15 civis, segundo um ancião local, e ameaçaram matar qualquer um que realizasse cerimônias fúnebres para eles. Alguns as realizaram mesmo assim.

"Vivemos em um estado de medo", disse o ancião por telefone. "Todos nós que participamos do funeral agora tememos que o EI ataque e nos mate." O ancião falou sob a condição de anonimato, por temer retaliação dos militantes. Não ficou claro se os sete policiais faziam parte dos 10 combatentes do governo citados pelo governador ou se foram baixas adicionais.

"O EI é mais poderoso que o Taleban em Darzab porque seus combatentes são corajosos", disse Hajji Obaidullah, o ex-chefe de polícia do distrito. Ele e outras autoridades locais disseram que os dois ex-comandantes do Taleban, Qari Hikmat e Mufti Nemat, combinaram forças e passaram a servir o Estado Islâmico nos últimos meses. Ele disse que o governo enviou às pressas centenas de reforços, na forma de policiais e soldados de outras áreas, para impedir que o centro do distrito fosse tomado pelos insurgentes.

"Agora não há mais Taleban em Darzab, apenas o EI", disse Halima Sadaf, uma integrante do Conselho Provincial de Jowzjan, que é de Darzab.

"Eles tomaram o distrito antes do Eid al-Fitr", ela disse, referindo-se ao feriado no domingo que marcou o fim do Ramadã.

"Mas as forças de segurança nacional afegãs os expulsaram da capital do distrito; o restante do distrito está todo com eles", ela acrescentou. "Eles são fortes e estão se reagrupando para lançar outra ofensiva."

Um dos comandantes do Estado Islâmico, Nemat, foi persuadido no ano passado a abandonar o Taleban e se juntar ao lado do governo, após uma intervenção altamente noticiada de Dostum, o primeiro vice-presidente. Nemat era um professor religioso na aldeia natal de Dostum. Ele posteriormente acusou o governo e Dostum de renegarem as promessas feitas a ele, anunciando que uniria suas forças às de Qari Hikmat e passaria a apoiar o Estado Islâmico.

Tanto porta-vozes de Dostum quanto do Taleban confirmaram que Nemat deixou o Taleban e se juntou a Dostum, mas depois passou para o campo do Estado Islâmico. "Nemat é uma ameaça ao governo. Ele conhece o distrito de Darzab e a área muito bem; ele é um sujeito muito perigoso", disse Enayatullah Babur Farahmand, o chefe de gabinete de Dostum. Ele culpou a inação do governo por alienar Nemat.

Zabihullah Mujahid, um porta-voz do Taleban que foi contatado via WhatsApp, disse que ambos os líderes locais que se uniram ao EI foram rejeitados pelo Taleban. Qari Hikmat, disse Mujahid, foi sentenciado a prisão pelo Taleban por corrupção, mas escapou e se juntou ao Estado Islâmico.

O Estado Islâmico em Khorasan, como o grupo é conhecido no Afeganistão, em geral está ativo apenas na província de Nangarhar, no leste, onde seus combatentes estão enfrentando tanto o governo quanto as forças locais do Taleban. A tomada de outro distrito no país seria um avanço significativo para o grupo.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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