Escândalo de abuso sexual do Vaticano revela ponto cego do papa Francisco

Jason Horowitz e Laurie Goodstein

Na Cidade do Vaticano

  • Alberto Pizzoli/ AFP

    29.jun.2017 - O cardeal australiano Geroge Pell faz pronunciamento no Vaticano

    29.jun.2017 - O cardeal australiano Geroge Pell faz pronunciamento no Vaticano

O papa Francisco chegou ao poder prometendo não apenas criar uma Igreja mais inclusiva e limpar a burocracia ossificada do Vaticano, mas também remover a mancha do abuso sexual de menores.

Um escândalo global de pedofilia atormentou seus dois antecessores imediatos. Com a eleição de Francisco em 2013, muitos esperavam progresso. Francisco falou sobre comitês poderosos para proteger as crianças, tribunais para julgar os bispos e uma política de "tolerância zero" para os padres infratores.

Mas não funcionou exatamente dessa forma.

Na quinta-feira, o Vaticano anunciou que Francisco concedeu uma licença ao cardeal George Pell, atualmente o mais alto prelado católico romano a ser formalmente acusado de crimes sexuais, e um que o papa trouxe ao seu círculo interno mesmo enquanto pairavam alegações sobre o cardeal da Austrália.

"Nós conversamos sobre minha necessidade de uma licença para que pudesse limpar meu nome", disse Pell, 76 anos, com expressão impassível e trajando roupa preta de clérigo, sentado ao lado do porta-voz do Vaticano e reiterando sua inocência. "Assim, sou grato ao Santo Padre por me conceder esta licença para retornar à Austrália."

Foi uma notícia ruim incomum e chocante para um sumo pontífice, que tem desfrutado em grande parte de adoração global e feito maravilhas para melhorar a imagem pública da igreja.

Mas apesar de todas as boas obras, boa vontade e popularidade de Francisco, críticos decepcionados viram o afastamento de Pell como apenas a mais recente evidência de que um papa que tem voltado a atenção do mundo a questões que vão da paz à mudança climática, tem seu próprio ponto cego quando se trata de abuso sexual em suas fileiras.

"O que aconteceu hoje demonstra claramente que a revolução de Francisco na igreja, quando se trata da questão do abuso sexual, fica apenas nas palavras, não em atos", disse Emiliano Fittipaldi, um jornalista italiano e autor de "Lussuria" ("Luxúria", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil), um livro publicado neste ano sobre abuso sexual no Vaticano, que começa com um capítulo sobre Pell.

Ele disse que apesar da conversa do papa, "a luta contra a pedofilia não é uma prioridade para Francisco".

Alguns há muito questionam por que Francisco trouxe Pell para Roma em 2014, acusando que foi oferecido ao prelado uma saída enquanto a Comissão Real Australiana que examina respostas institucionais a abusos de menores dava início a seus trabalhos.

No mínimo, a escolha parecia demonstrar que a determinação do papa em desmontar as hierarquias de poder da Cúria Romana, que ele esperava que Pell pudesse ajudá-lo, era uma prioridade maior e o levou a não dar a devida atenção aos sinais de alerta.

Apesar de sérias diferenças ideológicas, Francisco escolheu a dedo o arquiconservador Pell para liderar seu Secretariado para a Economia, o trazendo para Roma para usar sua respeitada perspicácia financeira para limpar as finanças turvas da igreja. Imediatamente, Pell reconheceu que "centenas de milhões de euros" foram "escondidos" dos livros contábeis do Vaticano.

Francisco então trouxe Pell para seu poderoso Conselho dos Cardeais, um grupo de nove pessoas que conta com enorme poder na Cúria. A impetuosidade do australiano lhe rendeu inimigos entre autoridades entrincheiradas do Vaticano, que entenderam seus pedidos por transparência financeira como uma ameaça ao seu poder.

Mas enquanto Pell lutava para melhorar um aspecto da imagem da igreja, ele veio acompanhado de uma nuvem separada de escândalo. A Comissão Real Australiana encontrou mais de 4.000 pessoas que alegavam ter sofrido abuso sexual na igreja quando eram crianças.

Pell testemunhou que cometeu "erros enormes" ao não afastar os padres acusados de abuso quando serviu como arcebispo de Melbourne, e depois de Sydney.

Mas se o papa estava descontente com Pell, isso não ficou evidente de forma pública.

Quando alegações de que o próprio Pell cometeu abusos começaram a vazar na imprensa australiana, e quando ele testemunhou por horas à Comissão Real em fevereiro de 2016 por um link de vídeo a partir de um hotel em Roma, o cardeal insistiu que contava com "pleno apoio do papa".

Grupos de direitos das vítimas em geral veem o pontificado de João Paulo 2º como um desastre em respeito a abuso sexual na igreja, por ele ter presidido durante vastos acobertamentos e um período de pouca prestação de contas.

Seu sucessor, Bento 16, que leu muitos dos horríveis relatórios durante seu período como vigilante da doutrina do Vaticano, promoveu mudanças importantes nas políticas visando proteger as crianças e fazer os padres responderem pelo abuso. Mas deixou em grande parte os bispos intocados.

Inicialmente Francisco elevou as expectativas de que seria mais sério do que seus antecessores na remoção dos infratores e na exigência de que respondessem por seus crimes.

Nove meses após se tornar papa, ele criou uma comissão de especialistas externos para orientar a igreja sobre como proteger as crianças e prevenir abuso.

Os céticos apontaram que a comissão foi anunciada em meio a audiências por um painel das Nações Unidas em Genebra, que submeteu o Vaticano a fortes críticas pela forma como lidou com os casos de abuso sexual.

A comissão inicialmente incluía duas vítimas de abuso sexual que eram abertamente críticas da igreja. De lá para cá, uma foi forçada a sair e a outra a deixou, com ambas dizendo que o Vaticano fracassou em cumprir suas promessas.

Francisco adotou a proposta da comissão de criação de um tribunal para disciplinar os bispos que encobriram abusos, mas então dispensou o tribunal quando ele enfrentou resistência dentro do Vaticano.

O papa posteriormente emitiu uma carta apostólica intitulada "Como uma mãe amorosa", dizendo que o Vaticano já contava com todos os escritórios necessários para investigar e disciplinar os bispos negligentes e assim o faria. Mas nenhum disciplinamento ou sanção foi anunciado.

"O papa Francisco tem muita explicação a dar", disse o reverendo James E. Connell, um padre de Milwaukee e advogado canônico, membro fundador da Denunciadores Católicos, um grupo de padres, freiras e outros que defende as vítimas. "Ele cria essas coisas e então as elimina e não dá continuidade. E todas essas coisas são questões de justiça."

Connell disse que o grupo enviou documentos para Francisco e ao Vaticano sobre três bispos americanos que o grupo acusa de acobertamentos particularmente escandalosos de abuso de menores, mas não teve nenhum retorno.

O foco de Francisco na misericórdia como ensinamento central também pode ser um ponto cego, disse Connell. "Nós ouvimos o papa falar muito sobre misericórdia e tudo bem, esperamos que o Senhor seja misericordioso. Mas ao mesmo tempo, a justiça precisa ser feita", ele disse.

Marie Collins, uma das duas vítimas que serviram na comissão criada por Francisco, disse em uma postagem de blog na quinta-feira que ficou claro que Pell é culpado de "tratamento impróprio aterrador" aos padres que abusaram de menores enquanto ele servia como bispo.

Ela disse que Pell deveria ter renunciado de sua posição no Vaticano há muito tempo, antes mesmo de enfrentar as acusações de abuso sexual.

"Nunca deveria ter sido permitido que ele se escondesse no Vaticano para evitar ter que enfrentar aqueles em seu país natal que precisavam de respostas", ela escreveu, adicionando que o caso de Pell mostrou "quão pouca confiança podemos dar às garantias da Igreja Católica de que os bispos e superiores religiosos enfrentarão sanções caso não tratem devidamente dos casos de abuso".

Francisco também provocou ultraje quando nomeou como bispo Juan Barros, o assistente do mais infame abusador em série do Chile ligado à igreja, o reverendo Fernando Karadima. Barros permaneceu ao lado de Karadima, que foi julgado e considerado culpado pelo Vaticano, e foi forçado a se aposentar.

Então Francisco apoiou firmemente Barros quando padres e fiéis interromperam sua cerimônia de posse e escreveram cartas pedindo ao papa que rescindisse sua nomeação. Francisco foi posteriormente registrado em vídeo em Roma chamando os chilenos que fizeram objeção ao bispo de "estúpidos" e "esquerdistas".

Os defensores das vítimas de abuso sexual se sentiram afrontados de novo quando, em fevereiro, mantendo sua visão de uma igreja mais misericordiosa, ele reduziu as sanções contra alguns padres condenados por pedofilia. O Vaticano também é criticado por recuar para uma mentalidade de bunker quando acusações são feitas contra os seus membros.

"É importante lembrar que o cardeal Pell condenou aberta e repetidamente como sendo imorais e intoleráveis os atos de abuso cometidos contra menores", disse o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, na quinta-feira após Pell ter lido sua declaração.

Ele acrescentou: "O Santo Padre, que apreciou a honestidade do cardeal Pell durante seus três anos de trabalho na Cúria Romana, é grato por sua colaboração".

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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