Coleção de obras de Monet e Rodin, que ficou nas mãos dos nazistas, ganha exposição

Melissa Eddy

Em Bonn (Alemanha)

  • Albrecht Fuchs/The New York Times

    Obra de Rodin, de aproximadamente 1882

    Obra de Rodin, de aproximadamente 1882

Uma representação da fuligem industrial da Londres do início do século 20, em tons etéreos de azul e cinza-esverdeado, por Claude Monet. Uma mulher agachada esculpida em mármore por Rodin. E dois esboços de nu por Aristide Maillol. Essas são algumas das centenas de obras encontradas nas casas de Cornelius Gurlitt, muitas delas suspeitas de terem sido saqueadas pelos nazistas.

Quase quatro anos depois de a notícia da descoberta da coleção ter atordoado o mundo da arte e provocado revolta pelo fato de as autoridades alemãs terem escondido sua existência durante meses, o público finalmente poderá ver cerca de 250 obras selecionadas dentre as mais de 1.200 como parte de uma exposição que será inaugurada no dia 3 de novembro na Bundeskunsthalle.

A exposição "Dossier Gurlitt: Nazi Art Theft and Its Consequences" ("Dossiê Gurlitt: Roubo de Arte por Nazistas e suas Consequências") focará em obras que supostamente teriam sido roubadas por ou vendidas para nazistas a preços abaixo do mercado, de coleções particulares pertencentes em sua maior parte a judeus.

Ainda se têm dúvidas a respeito do histórico de propriedade da maioria das obras que serão expostas aqui na ex-capital da Alemanha Ocidental, disseram organizadores na terça-feira, na primeira exibição pública de algumas das peças na Bundeskunsthalle. Elas incluíam o Monet, o Rodin e os Maillols. Membros de uma equipe que inclui curadores, um especialista em conservação e um historiador da arte disseram esperar que, ao trazer as obras a público—o que antes era impossível devido a uma antiga disputa legal sobre o testamento de Gurlitt—alguns dos mistérios remanescentes possam ser solucionados.

"Com essa atenção renovada poderão surgir novas reivindicações", disse Rein Wolfs, diretor da Bundeskunsthalle. "Ao mesmo tempo, não esperamos que alguém venha à exposição e de repente tenha uma revelação de que uma das obras estava pendurada na casa de algum parente".

Albrecht Fuchs/The New York Times
Esboços de nu da artista Aristide Maillol, aparentemente saqueada por nazistas

Até agora, somente quatro obras restituídas foram vistas publicamente. As obras remanescentes, do apartamento de Gurlitt em Munique e de sua casa de verão em Salzburgo, na Áustria, foram exibidas somente em fotografias ou através de um banco de dados de artes perdidas.

Uma exposição paralela, "Dossier Gurlitt: 'Degenerate Art', Confiscated and Sold" ("Dossiê Gurlitt: 'Arte Degenerada' Confiscada e Vendida"), estreará em novembro na Kunsthalle de Berna, na Suíça, focando em obras confiscadas de museus alemães a partir de 1938.

Até semana passada, havia pesquisas concluídas para 63 das 1.039 peças de propriedade de Gurlitt, que tinham um histórico questionável de proveniência. Quatro dessas obras, incluindo um Max Liebermann, um Matisse e um Pissarro, foram devolvidas para os descendentes de seus donos pré-guerra, assim como um desenho de Adolph von Menzel.

Wolfs disse na terça-feira que o museu estava em negociações com membros da família para quem o desenho foi devolvido, na esperança de poder inclui-lo na exposição.

Mas os pesquisadores só conseguiram estabelecer um histórico parcial para a maioria das obras. As pesquisas continuam, com o uso de arquivos e tecnologia para tentar determinar quando uma pintura pode ter trocado de mãos e sob quais condições.

Quando pesquisadores em Bonn removeram os esboços de Maillol de suas molduras—todos nus femininos de costas feitos a lápis vermelho—eles descobriram uma marca azul apagada atrás de um dos desenhos, uma possível pista.

"Pretendemos fazer uma imagem digital dela e depois realçá-la e ampliá-la para comparar com um banco de dados, para ver se pode ser um indicativo de algum ano ou um carimbo", disse Lukas Bächer, um assistente de curadoria.

Meike Hopp, um historiador da arte junto ao Instituto Central de História da Arte em Munique, que vem pesquisando as obras de Gurlitt desde pouco depois que sua existência foi divulgada em novembro de 2013, disse que mesmo que a exposição não provoque nenhum momento de revelação entre ex-proprietários, ainda assim ela poderia levar a novas revelações e conexões não percebidas pelos pesquisadores.

Como a coleção de Gurlitt era particular, os Princípios de Washington, sob os quais as nações concordaram em 1998 procurar restituir obras saqueadas pelos nazistas, não se aplicavam. Pouco antes de sua morte em 2014, ele firmou um acordo legal que permitia que uma força-tarefa de especialistas analisasse a coleção e tentasse determinar quais obras haviam sido indevidamente levadas. Em meio a uma intensa pressão internacional, ele também comprometeu seus herdeiros a devolverem quaisquer obras desse tipo a seus devidos donos.

Quando a Kunsthalle de Berna, ou Museu de Belas Artes, aceitou a coleção que Gurlitt lhe deixou em seu testamento, ela prometeu cumprir seus desejos. Mas foi só em dezembro que o museu pôde assumir a propriedade das obras de arte, após uma prolongada disputa jurídica com um primo distanciado de Gurlitt que contestou o testamento.

Embora as obras tenham sido frequentemente chamadas de coleção, Agnieszka Lulinska, uma curadora da exposição de Bonn, disse que ela evita o termo ao se referir às 250 obras que serão expostas aqui, considerando a natureza incerta e específica na qual elas foram reunidas, incluindo as peças com um histórico de aquisição possivelmente obscuro.

"Nós vemos muito claramente que não há um porquê de esse grupo de obras ter se juntado", disse Lulinska a um grupo de repórteres que foram convidados para ver uma seleção. Ela disse que a exposição seria dividida em cinco partes para refletir o arco da carreira do pai de Gurlitt, Hildebrand Gurlitt, um marchand de artes durante o domínio nazista que adquiriu peças para o Fuhrermuseum, planejado por Adolf Hitler.

Materiais de arquivo que estavam entre a coleção de livros fiscais, cartas, recibos e fotos da carreira do Gurlitt pai faziam parte do patrimônio e serão incorporados à exposição de Bonn. Os documentos, encontrados em 19 caixas divididas entre as duas residências, têm também a função de ajudar as pessoas a entenderem o minucioso quebra-cabeça que é a pesquisa de procedência, disse Hopp.

Embora a maior parte dos documentos de Gurlitt pai seja somente do período pós-guerra, eles podem incluir pistas que levem pesquisadores a informações que consigam ajudar a rastrear o histórico de propriedade de uma obra para determinar se ela foi roubada.

Eles também serão usados para colocar as obras em um contexto histórico da arte. A "Ponte de Waterloo" de Monet, que retrata o smog industrial do início do século 20 pairando sobre o Tâmisa em pinceladas sutis de azul e verde, será exposta junto com uma fotografia em preto e branco que mostra a pintura pendurada na parede acima de uma pequena prateleira de livros branca na casa de Salzburgo, ao lado de um Picasso e de uma "Danaide" em bronze de Rodin.

"Já foram escritos livros que se basearam muito nesses documentos, mas sem de fato citá-los", disse Hopp. "Inclui-los na exposição nos dá uma oportunidade de mostrar às pessoas como a pesquisa de procedência funciona e esclarecer como o material de arquivo é usado como fonte de informação."

As exposições paralelas ficarão em cartaz até março de 2018. Há negociações em andamento para que as duas exposições sejam exibidas em Berlim, no Martin-Gropius-Bau, em setembro de 2018.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos