Um grupo budista está mudando a China? Ou é a China que o está mudando?

Ian Johnson

Em Yixing (China)

  • Gilles Sabrie/The New York Times

    Centenas de monjas e peregrinas participam do Dia Nacional de cerimônias no templo do Fo Guang Shan em Yixing, na China

    Centenas de monjas e peregrinas participam do Dia Nacional de cerimônias no templo do Fo Guang Shan em Yixing, na China

Durante grande parte de sua vida, Shen Ying esteve desapontada com o mundo que via ao seu redor. Ela assistiu à ascensão econômica da China nesta pequena cidade no vale do rio Yangtze, assim como conseguiu ingressar na nova classe média do país, dirigindo uma loja de conveniência em um centro comercial. Mas a prosperidade parecia vazia.

Ela temia perder sua loja se não pagasse às autoridades certas. Os escândalos recorrentes envolvendo fórmulas infantis contaminadas ou alimentos inseguros produzidos por empresas consideradas de boa reputação a perturbavam. Ela lembrou dos valores de seu pai e tentou adotá-los (honestidade, frugalidade, justiça), mas disse que parecia não haver forma de segui-los na China atual.

"Você simplesmente se sente decepcionada com parte da conduta desonesta na sociedade", ela disse.

Então, cinco anos atrás, uma organização budista de Taiwan chamada Fo Guang Shan, ou Montanha da Luz de Buda, começou a construir um templo nos arredores de sua cidade, Yixing. Ela começou a frequentar suas reuniões e a estudar seus textos e isso mudou sua vida.

Ela e seu marido, um empresário bem-sucedido, começaram a viver de modo mais simples. Eles abriram mãos de artigos de luxo e fizeram doações em apoio a crianças pobres. E antes da abertura do templo no ano passado, ela deixou sua loja de conveniência e passou a dirigir uma loja de chá perto do templo, destinando a receita para caridade.

Por toda a China, milhões de pessoas como Shen começaram a participar de organizações religiosas como a Fo Guang Shan. Elas buscam preencher o que consideram como um vácuo moral deixado pelos ataques aos valores tradicionais ao longo do último século, especialmente sob Mao, e pela adoção pelo país de uma forma de capitalismo selvagem.

Muitos querem mudar seu país, para torná-lo mais compassivo, mais civilizado e mais justo. Mas diferente dos dissidentes políticos ou outros ativistas reprimidos pelo Partido Comunista, eles esperam mudar a sociedade chinesa por meio da piedade pessoal e trabalhando com o governo, em vez de contra ele. E em grande parte as autoridades os deixam em paz.

Gilles Sabrie/The New York Times
Monjas cantam durante lições matinais em templo construído pelo Fo Guang Shan em Yixing


O Fo Guang Shan talvez seja o mais bem-sucedido desses grupos. Desde que chegou à China há mais de uma década, ele montou centros culturais e bibliotecas nas principais cidades chinesas e imprimiu e distribuiu milhões de volumes de seus livros por meio de editoras estatais. Apesar de o governo ter endurecido os controles sobre a maioria das demais organizações religiosas estrangeiras, o Fo Guang Shan floresceu disseminando uma mensagem poderosa de que atos individuais de caridade podem mudar a China.

Mas ele o fez fazendo concessões. O governo chinês desconfia de atividade espiritual que não controla e proíbe que religião e política se misturem. Isso fez com que o Fo Guang Ho minimizasse sua mensagem de mudança social e até mesmo seu conteúdo religioso, focando-se em vez disso na promoção do conhecimento da cultura e valores tradicionais.

A abordagem lhe rende apoio do alto escalão; o presidente Xi Jinping é um de seus apoiadores. Mas seu relacionamento com o partido levanta uma questão chave: ele poderia mudar a China?

Evitando a política

O Fo Guang Shan é liderado por uma das figuras religiosas mais famosas da China moderna, o venerável mestre Hsing Yun. Eu o conheci no final do ano passado no templo em Yixing, em uma sala luminosa repleta de sua caligrafia e fotos de altos líderes chineses que o receberam em Pequim.

Com 89 anos, ele está quase cego, e uma monja com frequência precisava repetir minhas perguntas para que ele pudesse ouvi-las. Mas sua mente é rápida e ele foi hábil em se esquivar de perguntas que as autoridades chinesas poderiam considerar questionáveis.

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Monja se prepara para sinalizar o início das aulas matinais em templo em Yixing

Quando lhe perguntei sobre o que esperava realizar disseminando o budismo (proselitismo é ilegal na China), suas sobrancelhas arquearam como se achasse graça de forma simulada.

"Não quero promover o budismo!" ele disse. "Só promovo a cultura chinesa para limpar a humanidade."

Quanto ao Partido Comunista, ele foi bem claro: "Nós budistas apoiamos quem quer que esteja no poder. Os budistas não se envolvem em política".

Após fugir da Revolução Comunista, Hsing levou essa mensagem para Twain e fundou o Fo Guang Shan em Kaohsiung, uma cidade portuária no sul, em 1967. Ele buscou tornar o budismo mais acessível às pessoas comuns por meio da atualização de sua imagem embolorada e adotando táticas de mercado de massa.

Suas pregações em estádio mais pareciam inspiradas nas do pregador batista Billy Graham. Ele construiu um parque temático com shows multimídia e caça-níqueis exibindo dioramas de santos budistas.

A abordagem teve um impacto profundo em Taiwan, que na época lembrava a China continental atual: uma sociedade em industrialização que temia perder seus valores tradicionais em sua corrida para se modernizar.

O Fo Guang Shan se tornou parte de um abraçar popular da vida religiosa. Muitos acadêmicos dizem que ele também ajudou a estabelecer a fundação da evolução da ilha autônoma em uma democracia vibrante, ao promover uma cultura política comprometida com a igualdade, civilidade e progresso social.

O Fo Guang Shan cresceu rapidamente, gastando mais de US$ 1 bilhão em universidades, faculdades comunitárias, pré-escolas, uma editora, um jornal e uma emissora de televisão. Em 1989, um oficial que fugiu do massacre de Tiananmen se refugiou em seu templo em Los Angeles. A China retaliou impedindo a entrada de Hsing no país.

Mais de uma década depois, entretanto, Pequim começou a ver Hsing de forma diferente. Como muitos em Twain de sua geração, nascidos no continente, ele defende a unificação da China e da ilha, uma prioridade para os líderes comunistas.


Gilles Sabrie/The New York Times
Monjas e peregrinas rezam antes do almoço em templo antes Yixing

Em 2003, eles lhe permitiram visitar sua cidade natal, Yangzhou. Ele se comprometeu a construir uma biblioteca e anos depois uma instalação de 400 mil metros quadrados que agora guarda quase 2 milhões de livros, incluindo uma coleção de 100 mil volumes de escrituras budistas.

Mas apesar de realizar serviços religiosos especiais em Taiwan durante crises nacionais e encorajar seus membros ali a participarem da vida pública, o Fo Guang Shan evita a política na China. Não há menção a ativismo cívico e ele nunca critica o partido.

"Podemos manter a religião secundária, mas introduzir ideias budistas na sociedade", disse a venerável Miaoyuan, a monja que dirige a biblioteca em Yangzhou. Ele descreve o trabalho do grupo como "intercâmbio cultural".

"O continente mantém a ideologia dos antigos imperadores, você só pode atuar ali quando estiver firmemente sob seu controle", disse Chiang Tsan-teng, um professor da Universidade Municipal de Ciência e Tecnologia de Taipé, que estuda o budismo na região. "O Fo Guang Shan nunca será dono do próprio nariz no continente."

Isso limita sua influência, mas muitos chineses são compreensivos diante da realidade do governo de partido único.

"Ele com certeza não pode promover serviços sociais e criar associações", disse Hu Jia, um proeminente dissidente que é budista. "O partido com certeza não permitiria, de modo que o Fo Guang Sho faz concessões. Mas ainda assim está promovendo o budismo."

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Monjas dirigem carro de golfe nas premissas de templo em Yixing

Um 'padrão moral'

Quando Shen assumiu a loja de chá, ela tinha dificuldade em entender o que era ser uma boa budista, ela disse. Ela reconheceu inicialmente que queria ganhar mais dinheiro para o templo usando óleo de cozinha de baixa qualidade.

Mas seu marido fez objeção. A China está repleta de escândalos de restaurantes que usam ingredientes baratos ou inseguros, e ele argumentou que bons budistas deveriam dar um exemplo melhor.

"Isso me fez perceber que a fé lhe dá um padrão moral mínimo", Shen me disse. "Isso ajuda você a tratar os outros como seus iguais."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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