Alemanha ataca aumento de crimes da extrema-direita

David Shimer

Em Berlim (Alemanha)

  • Jens Meyer/ AP

    1.mai.2017 - Integrante de grupo de extrema-direita participa de manifestação em Erfurt, Alemanha, durante ato para marcar o Dia do Trabalho

    1.mai.2017 - Integrante de grupo de extrema-direita participa de manifestação em Erfurt, Alemanha, durante ato para marcar o Dia do Trabalho

As páginas de antigos mandados de busca e detenção cobrem um amplo leque de crimes: assalto, chantagem, fraude e até assassinato. A polícia alemã classifica algumas infrações como tendo motivação política, outras como violentas. Mas todas têm uma coisa em comum: os infratores são extremistas de direita.

A lista, emitida pelo Ministério do Interior da Alemanha no mês passado a pedido do partido de extrema-esquerda Die Linke [A Esquerda], incluía 596 mandados de prisão para 462 agressores de direita, mostrando um claro surto no extremismo de direita desde 2015, quando a Alemanha aceitou quase 1 milhão de migrantes e refugiados.

"Tivemos uma discussão divisora sobre os refugiados que vêm para a Europa e especialmente a Alemanha, e com isso também houve um pico real, mas menos reconhecido, de atividades violentas de direita", disse Gerd Wiegel, um especialista em extremismo de direita e assessor do Die Linke.

Dos 462 agressores de direita com mandados de prisão pendentes, 104 são procurados por crimes classificados como violentos e 106, por crimes classificados como de motivação política.

A atenção se concentrou nos crimes cometidos por migrantes ou na ameaça do extremismo islâmico, devido sobretudo aos atentados terroristas na Europa, mas o aumento da atividade radical de direita ocorreu de muitas maneiras abaixo da superfície.

A divulgação silenciosa de estatísticas, somente depois de um pedido parlamentar, salientou a natureza difusa da polícia e de outros órgãos de segurança na Alemanha e as deficiências permanentes do sistema descentralizado montado depois da Segunda Guerra Mundial.

Cada um dos 16 Estados alemães controla sua própria força policial, e as autoridades federais não têm o hábito de divulgar estatísticas nacionais. Elas são compiladas em cada Estado e muitas vezes divulgadas só a pedido de legisladores, o que significa que a imagem dos desafios de segurança do país não é necessariamente completa.

Por exemplo, as estatísticas fornecidas pelo Ministério do Interior em junho, em reação a pedidos do Partido Verde, de oposição, mostraram um número ainda maior de mandados de prisão para extremistas classificados como religiosos --1.155--, com 804 dos emitidos em conexão com buscas da Interpol por pessoas que teriam lutado na jihad no Oriente Médio.

Mas como o relatório para os verdes não solicitou estatísticas de anos anteriores, não ficou claro o quanto o número aumentou, apesar de a agência de segurança interna e de inteligência alemã dizer que os extremistas islâmicos se multiplicaram nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, o número de ataques violentos de extremistas de esquerda diminuiu no ano passado, com 167 mandados pendentes, depois de um aumento acentuado em 2015, segundo o relatório do Partido Verde.

O número de mandados pendentes para extremistas de direita renovou a preocupação entre especialistas, segundo os quais os órgãos judiciais não combatem a ameaça com vigor constante, o que é uma contínua fonte de tensão.

O Ministério do Interior registrou 1.698 crimes violentos com motivações políticas de extrema-direita em 2016, comparados com 1.029 em 2014, um surto impelido pelo que Hajo Funke, um professor emérito na Universidade Livre de Berlim, chamou de "clima de ódio" em relação aos refugiados.

"Eu diria a grosso modo que a ascensão de mandados se deve à inconsistência da polícia em procurar os extremistas de direita", disse Funke. "Esse é o motivo decisivo."
Michael Roth, o ministro alemão para a Europa, disse: "É claro que estou preocupado", quando perguntado sobre o número crescente de extremistas de direita sob mandado de prisão.

"A polícia alemã é obrigada a fazer o que for necessário para proteger a população", disse ele. "Vamos defender nossa sociedade aberta e inclusiva. É uma obrigação de todas as instituições da Alemanha, não apenas em nível federal, mas também no estadual, porque os Estados são responsáveis pela polícia."

Elisabeth Schnell, uma porta-voz do Sindicato de Polícia da Alemanha, defendeu o desempenho das forças de segurança, enfatizando que, dos mais de 140 mil mandados de prisão em aberto no país, os de extremistas de direita representam menos de 1%.

O número de mandados de prisão para extremistas de direita aumentou por diversas razões, incluindo que a polícia estadual vem documentando o histórico político de todos os suspeitos de forma mais minuciosa desde 2014, segundo Sonja Kock, uma porta-voz do Ministério do Interior.

A polícia estadual recebe apoio federal, disse ela, e examina de maneira mais intensa infratores com local de residência desconhecido ou um mandado com mais de seis meses.

Alguns mandados na lista são protetórios, comentou ela, citando um para um radical de direita estrangeiro procurado por tentativa de assassinato que foi deportado. A polícia poderá prender imediatamente o suspeito se ele entrar na Alemanha.

Rainer Wendt, o presidente nacional do Sindicato da Polícia alemã, disse que os 140 mil mandados em aberto são alarmantes.

"Existe um enorme deficit de execução da lei", disse ele. "Isso é devastador para o senso de segurança subjetivo dos cidadãos."

A relutância das autoridades alemãs em perseguir grupos de extrema-direita saltou para o primeiro plano em novembro de 2011, depois que se soube que um grupo terrorista de extrema-direita foi responsável por uma década de violência que tirou a vida de oito homens de origem turca, um grego e uma policial.

O julgamento por assassinato da única sobrevivente da célula, Beate Zschape, começou em 2013 e ainda continua, e as agências de notícias relataram na semana passada que as famílias das vítimas estão processando o governo alemão por erros e atrasos na investigação.

O caso levantou perguntas sobre a polícia e os serviços de segurança da Alemanha, que tinham enfocado a investigação no crime organizado turco, e não na extrema-direita alemã.

Em março de 2012 e sob o escrutínio público, a polícia alemã tinha prendido 46 dos 160 extremistas de direita com mandados de prisão, incluindo 14 dos 37 procurados na Baviera, segundo o semanário "Der Spiegel".

Desde então, disse Schnell, a polícia alemã mantém uma lista oficial de mandados de prisão em aberto para extremistas de direita.

Prender esses extremistas na Alemanha pode ser particularmente difícil, segundo vários especialistas, por causa das estritas leis antinazistas que os empurram para as sombras.

"Hoje, quando você também vê um maior número de indivíduos que cometem esses crimes e não são encontrados, surgem preocupações de que os mais radicais estejam indo para o submundo", disse Jonathan Birdwell, chefe de políticas e pesquisa no Instituto para o Diálogo Estratégico, em Londres.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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