Está em busca de riqueza? Itália tem uma nova corrida por ouro

Elisabetta Povoledo

Em Vermogno di Zubiena (Itália)

  • Gianni Cipriano/The New York Times

    Marlise Luedi e seu marido, Willi, procuram ouro no rio Elvo, na Itália

    Marlise Luedi e seu marido, Willi, procuram ouro no rio Elvo, na Itália

A Itália pode não ser o primeiro lugar que vem à cabeça das pessoas quando se fala em corrida do ouro.

Mas por milhares de anos esse pedaço da região do Piemonte, ao norte, que alguns chamam de Klondike italiano, atraiu garimpeiros em busca do ouro que descia o rio Elvo, de depósitos deixados há uma eternidade por geleiras alpinas em retração.

As corridas do ouro na região tiveram altos e baixos ao longo do século, mas houve um ressurgimento recente nesses últimos anos devido à recessão. Há um número cada vez maior de pessoas entrando em contato com associações locais de prospecção de ouro, na esperança de enriquecerem rapidamente.

No final de semana passado, garimpeiros do mundo inteiro desceram até uma clareira para o Campeonato Italiano de Garimpagem de Ouro. Sob um sol escaldante, eles entraram na água lamacenta até os joelhos, revolvendo areia e cascalho com uma bateia em busca de pepitas de ouro.

"Algumas pessoas acham que você vai lá e encontra ouro como se fosse um caixa eletrônico", diz Arturo Ramella, um dos fundadores da Associação de Garimpagem de Ouro de Biella, com 30 anos de existência, que organizou a competição. Mas na Itália a maioria das pepitas encontradas são mais ou menos do tamanho de migalhas de pão.

Gianni Cipriano/The New York Times
Os americanos Richard e Joyce Mason mostram ouro encontrado na Itália

"Sabemos que você não consegue viver disto, então tentamos desencorajar as pessoas", diz Ramella. "Alguns aposentados vão lá todos os dias, e se encontram uma lasca ou duas já é lucro, mas isso não vai substituir um salário, não na Itália".

Dito isso, a área tem mais do que um sinal de febre do ouro "porque sempre existe a possibilidade de encontrar ouro aqui --é um córrego muito atraente", ele diz.

O Elvo corre junto à Reserva Natural de Bessa, uma antiga mina de ouro a céu aberto que durante cerca de 100 anos entre o segundo e o primeiro século antes de Cristo foi "o maior depósito de ouro do mundo antigo", diz Aldo Rocchetti, diretor de um museu sobre a mina de ouro de Bessa em Vermogno.

Se os romanos conseguiram conquistar tanto do império e tão rápido como o fizeram em tempos republicanos, foi em grande parte graças a esse ouro "que pagou por armas e mercenários", segundo Rocchetti.

A arena onde o campeonato italiano foi realizado se chama Victimula, em homenagem à população da antiguidade que foi conquistada pelos romanos e que provavelmente foi usada como mão de obra na antiga mina de ouro.

Gianni Cipriano/The New York Times
Grupo participa de campeonato de garimpagem na Reserva Natural Bessa

As primeiras competições começaram na Finlândia, em 1978, e os campeonatos mundiais serão realizados na Escócia em agosto (o fotógrafo do "NYT" Gianni Cipriano e eu nos voluntariamos a ir), que tendem a ser competições intensas, ainda que divertidas.

As competições não somente permitem que as pessoas se avaliem em relação às outras, como também são um bom indicativo de quanto ouro não se encontra quando se garimpa em um riacho.

"Tudo é uma questão de prática", diz Ramella, que também é presidente da Associação Mundial de Garimpagem de Ouro.

Os competidores trazem suas próprias bateias, que podem variar em tamanho, profundidade e número de sulcos, mas precisam se enquadrar nas especificações da associação. As bateias de madeira e metal foram quase todas substituídas por modelos de plástico, e uma bateia reta leve e rápida coloquialmente conhecida como a "Ferrari das bateias" se tornou popular.

"Na verdade a chamamos de Aston Martin das bateias", disse James Linnett, um britânico novato na garimpagem que já conseguiu várias medalhas em competições, bem como pepitas de tamanhos diversos, que ele mostra orgulhosamente aos outros competidores. Ele pretende derreter parte do ouro para fazer uma aliança para sua noiva para seu casamento no ano que vem, uma prática popular entre garimpeiros.

Linnett reclama que os reality shows transmitidos nos Estados Unidos e no Reino Unido transformam a prospecção em algo glamouroso, "fazendo com que as pessoas pensem que elas podem extrair quilos dos rios", mas a realidade é que a garimpagem de ouro requer muito trabalho duro e paciência. "Se você consegue uma ou duas faíscas já é um bom dia", ele disse.

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O francês Pierre Guide caminha ao longo do rio Elvo

Hoje a garimpagem de ouro é mais um hobby, mas foi algo muito menos divertido para multidões de mineradores muitas vezes empregados à força que trabalhavam nos vales alpinos vizinhos, repletos de ouro, ao longo dos séculos.

Até meados do século 20, ainda havia minas subterrâneas em funcionamento no Vale de Anzasca, ao norte, que ao longo dos séculos atraiu milhares de trabalhadores de toda a Itália.

"Era mais uma corrida por trabalho do que uma corrida por ouro", diz Gloria Casella, cujo marido é proprietário da Mina de Ouro de Guia, a única aberta para visitação. Era um trabalho perigoso e árduo, uma vez que o ouro era extraído primeiro com chumbo e depois cianeto.

"Eles eram forçados a trabalhar como animais", diz Riccardo Bossone, seu marido, e muitos trabalhadores também morriam de antracose. Era conhecido como "o vale das viúvas e dos órfãos", ele conta.

"O pior é que eles vinham sabendo que poderiam morrer jovens", ele diz. "Uma tragédia".

Todas as minas de ouro da região acabaram sendo fechadas porque os custos de mão de obra superavam os lucros. "Existe mais ouro embaixo do Monte Rosa do que na África, mas por causa dos custos e das leis ambientais, ele não é mais explorado", diz Rocchetti sobre um dos principais maciços dos Alpes Peninos.

Hoje, a prospecção de ouro na Itália é feita basicamente em rios e riachos do Piemonte, da Lombardia e do Vale de Aosta. As leis regionais limitam em 5 gramas a quantidade que pode ser encontrada em um dia.

Gianni Cipriano/The New York Times
Garimpeiros se registram para participar do campeonato italiano de garimpagem

"Quem me dera! Você nunca encontra mais do que alguns gramas", diz Giuseppe Pipino, o italiano que trouxe a garimpagem de ouro competitiva para a Itália (embora ele não participe mais).

"Nossa intenção é mais ensinar às famílias sobre a procura de ouro", diz Pipino, cuja própria associação é sediada no Vale de Orba, que circunda outro córrego rico em ouro.

Assim como outros prospectores, ele não vê a necessidade de usar detectores de metais. O ouro em rios italianos muitas vezes é fino demais para ser detectado eletronicamente, "e por aqui ele dispararia continuamente por causa das tampinhas de garrafa", ele diz.

(Um italiano exibiu uma pepita de 49,7 gramas que supostamente seria a maior já encontrada na área em 1.200 anos, mas se negou a dizer onde a encontrou por medo de que a área seja invadida.)

As leis regionais regulam como o ouro pode ser garimpado. Em Piemonte, por exemplo, os meios mecânicos são proibidos e a procura deve ser feita usando bateias.

"Mas em estações de neblina, há algumas pessoas que escavam buracos enormes nos riachos. É um problema ambiental, então todos os garimpeiros acabam sendo mal vistos", diz Ramella. "Nós aprendemos com os pioneiros, que tinham um código de honra".

Giorgio Bogni, um caçador de ouro e geólogo de Sesto Calende, passa o maior tempo possível em riachos. "A garimpagem de ouro é divertida. É um passatempo, mas é também uma forma de meditação, na natureza, com os sons do rio ao seu redor", ele diz.

"Geralmente é um dia árduo de trabalho", ele acrescenta, "e você chega em casa e sua mulher olha para as duas faíscas que você encontrou e diz, 'Só isso?' Mas isso me deixa feliz".

Tradutor: UOL

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