Com crematórios lotados, Japão oferece hotéis para os mortos

Motoko Rich

Em Osaka (Japão)

  • KAWASAKI CITY/NYT

    Funeral realizado dentro de hotel em Tóquio

    Funeral realizado dentro de hotel em Tóquio

Os quartos minimalistas do Hotel Relation, aqui na terceira maior cidade do Japão, são mobiliados com duas camas de solteiro simples e televisões de tela plana nas paredes, além de disponibilizarem copos e escovas de dente embrulhados em plástico dentro dos banheiros. Do outro lado do corredor, estão os quartos onde jazem os cadáveres.

O horário de check-out para os vivos e os mortos normalmente não passa das 15h.

O Hotel Relation é aquilo que os japoneses chamam de "itai hoteru", ou hotel de defuntos. Cerca de metade dos quartos são equipados com pequenos altares e plataformas estreitas projetadas para segurar caixões. Alguns também têm caixões refrigerados com tampas transparentes para que os parentes e amigos possam olhar.

Esses hotéis, que são meio necrotérios, meio hospedarias, atendem a um mercado crescente de japoneses que procuram uma alternativa a funerais grandes e tradicionais em um país onde a população está envelhecendo rapidamente, os laços comunitários estão desaparecendo e os crematórios estão tendo dificuldades para acompanhar o número de pessoas que morrem.

Por tradição, as famílias japonesas levam os corpos de seus entes queridos do hospital para casa e realizam um velório de uma noite seguido por uma cerimônia na manhã seguinte em companhia de vizinhos, colegas e amigos. Depois, à tarde, o corpo é enviado para um crematório.

BEN C. SOLOMON/NYT
Caixão sendo levado para dentro de hotel que 'hospeda' os mortos

Mas com o enfraquecimento dos laços comunitários, os funerais que antes envolviam comunidades inteiras estão cada vez mais se restringindo aos membros mais próximos da família. Ao mesmo tempo, a sociedade japonesa está envelhecendo tão rápido e o número de mortes por ano está crescendo tão velozmente que às vezes as famílias precisam esperar vários dias até que um corpo possa ser cremado.

Os hotéis de cadáveres oferecem uma solução prática, um lugar onde um corpo pode ser armazenado a um custo baixo até que o crematório esteja disponível, e onde velórios simples e baratos podem ser realizados fora de casa.

"Podemos dizer que a oferta não atende a demanda", principalmente em áreas urbanas, diz Hiroshi Ota, um funcionário da Sociedade Japonesa de Crematórios Ambientais. Enquanto o Japão tem cerca de 5.100 crematórios, Tóquio, com uma população de mais de 13 milhões de habitantes, tem somente 26.

"A demanda por cremações aumentará até que morra toda a geração de baby boomers", diz Ota.

O Japão também tem casas de funerais, uma indústria que se desenvolveu à medida que as pessoas foram se mudando do campo para as cidades e se tornou difícil—muitas vezes impossível—levar cadáveres para dentro de prédios. Mas elas atendem a grupos mais amplos e cerimônias mais elaboradas, e ultimamente isso pode parecer um pouco exagerado.

Na bolha econômica dos anos 1980, "os funerais japoneses se baseavam em se exibir para outras pessoas, e as pessoas se importavam com como eram vistas pelos outros", diz Midori Kotani, pesquisadora-executiva no Dai-ichi Life Research Institute, um braço de uma das maiores seguradoras do Japão. "Mas as pessoas têm conversado cada vez menos com seus vizinhos, então elas não precisam se mostrar ou pensar em como estão sendo vistas por eles".

Os hotéis de defuntos são usados por famílias que querem algo mais simples, ou que querem simplesmente pular a parte do funeral. De acordo com Kotani, cerca de 30% das mortes na região de Tóquio não são marcadas por uma cerimônia fúnebre, um aumento em relação aos 10% de uma década atrás.

Após a cremação, as famílias geralmente guardam as cinzas em casa por 49 dias antes de levá-las para serem enterradas no cemitério. No 49º dia, de acordo com a tradição budista, acredita-se que os mortos chegam ao próximo mundo.

Quando Hajime Iguchi morreu aos 83 anos de idade no outono passado, sua irmã e seu cunhado realizaram seu velório e cerimônia fúnebre no Sousou, um hotel de cadáveres em Kawasaki City, subúrbio do Japão. Iguchi, que nunca chegou a se casar, morreu em uma casa de repouso após um longo período de enfermidade, e não tinha muitos amigos vivos.

BEN C. SOLOMON/NYT
Cemitério em Tóquio

"Antigamente, costumávamos fazer os velórios em casa, mas os tempos mudaram", diz sua irmã Kunie Abe, 73. "Os vizinhos todos se conheciam e ajudavam uns aos outros. Mas hoje você não conhece nem mesmo seu vizinho de porta".

A demanda por "itau hoterus" deve crescer. No ano passado, 1,3 milhão de pessoas morreram no Japão, um aumento de 35% em relação a 15 anos atrás, e o número anual deve subir até chegar a um pico de 1,7 milhão em 2040, de acordo com o Ministério do Trabalho, da Saúde e da Previdência Social.

Cerca de 37% das mulheres japonesas que morreram no ano passado tinham mais de 90 anos, com poucos amigos vivos para prestar condolências. E quase um quinto dos homens japoneses nunca se casam ou têm filhos, deixando para trás poucos parentes para planejar ou comparecer a funerais.

O número de pessoas que estão morrendo sozinhas também está aumentando. Em Tóquio, por exemplo, o número de pessoas com mais de 65 anos que morreram sozinhas em casa mais do que dobrou entre 2003 e 2015, o último ano para o qual há disponíveis números do governo.

No Hotel Relation em Osaka, cerca de um terço dos clientes abrem mão de um funeral formal. Em vez disso, eles se sentam nas salas junto com seus entes queridos falecidos durante um dia ou dois, somente com a presença de familiares próximos, e então enviam os corpos para a cremação.

"No passado, se você ouvia que alguém havia realizado um velório somente para membros da família, as pessoas da vizinhança diriam, 'Que tipo de gente faria um velório só para a família?' Mas hoje isso é aceito", diz Yoshihiro Kurisu, presidente do hotel.

Hotéis de defuntos são mais econômicos do que grandes casas especializadas em funerais. De acordo com a Associação de Consumidores do Japão, o funeral médio no Japão custa 1,95 milhão de ienes, ou cerca de R$58 mil. O pacote mais barato no Hotel Relation custa 185 mil ienes, ou cerca de R$5.800.

O pacote inclui flores, um quarto para a família passar a noite junto com o defunto, uma túnica branca tradicional para os falecidos, um caixão simples, o transporte do corpo a partir do hospital e depois até o crematório, e uma urna para guardar as cinzas. Cada noite extra custa 10.800 ienes, pouco menos que R$330. As famílias que queiram quartos separados, velórios ou cerimônias fúnebres pagam mais.

Os primeiros "itai hoteru" surgiram cerca de cinco anos atrás nas maiores cidades do Japão, e há poucos deles em todo o país. Alguns deixaram irritados moradores que não querem viver tão perto da morte e do luto.

Perto do hotel Sousou em Kawasaki City, há placas de protesto pregadas em cercas: "Armazenamento de corpos: sou totalmente contra!"

Hisao Takegishi, dono do hotel, diz entender por que os vizinhos ficam incomodados. Mas ele diz que sua equipe tenta ser o mais discreta possível quando traz os corpos.

Do lado de dentro, Takegishi pintou as paredes em cores pastel e equipou as salas com sofás verdes e banquinhos. Elas se parecem mais com salas de intervalos de startups do que um cenário para velórios e funerais. A entrada, com plantas em prateleiras e alguns livros, lembra um spa.

"Eu não queria que ficasse com um ar muito triste ou solitário", ele diz. Sousou tem relações com agentes funerários e monges, e pode ajudar os clientes a planejarem cerimônias simples.

Yuki Matsumoto, diretor-executivo da All Japan Funeral Directors Cooperation, que representa cerca de 1.340 casas funerárias tradicionais, diz que alguns proprietários desses novos negócios dão pouca importância aos padrões ou à dignidade dos mortos.

O Japão não exige licença para a abertura de casas de funerais, e há pouca regulação sobre como elas operam. "Então, nesta situação, é possível que empresas mal-intencionadas possam entrar na indústria", diz Matsumoto.

Mas Kurisu, do Hotel Relation, diz que as casas de funerais tradicionais simplesmente estão ressabiadas com essa nova concorrência. "Sou odiado por pessoas do ramo porque estou levando para baixo os preços dos serviços funerários", ele diz.

Na pequena cerimônia funerária de Iguchi no outono passado, um monge entoava os cânticos finais em sua homenagem enquanto seu corpo jazia dentro de um caixão forrado com cetim branco. Cinco convidados, todos parentes, se sentavam em cadeiras dobráveis em volta.

Após os cânticos, eles se levantaram para colocar flores e grous de origami sobre o corpo de Iguchi, formando uma guirlanda colorida em torno de sua cabeça e sobre seu peito.

Sua irmã, Kunie Abe, se aproximou do ouvido de seu irmão e sussurrou: "Até breve".

* Com reportagem de Makiko Inoue.

Tradutor: UOL

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