Deportação é "pena de morte" para adotados que passaram uma vida nos EUA

Choe Sang-Hun

Em Seul (Coreia do Sul)

  • Song Pil-heung via The New York Times

    Da direita para a esquerda, Philip Clay, uma assistente social, outro adotado deportado e Song Pil-heung, que trabalhava numa residência onde Clay viveu em 2014

    Da direita para a esquerda, Philip Clay, uma assistente social, outro adotado deportado e Song Pil-heung, que trabalhava numa residência onde Clay viveu em 2014

Poucas adoções internacionais poderiam ter sido tão desastrosas quanto a de Phillip Clay.

Em 1983, ele foi adotado aos 8 anos por uma família americana na Filadélfia. Vinte e nove anos depois, em 2012, após numerosas prisões e uma luta contra o vício em drogas, ele foi deportado para seu país de origem, a Coreia do Sul, onde não sabia falar a língua local, não conhecia ninguém e não recebeu atendimento apropriado para problemas de saúde mental, incluindo transtorno bipolar e dependência de álcool e drogas.

Em 21 de maio, Clay pôs fim à sua vida, pulando do 14º andar de um prédio de apartamentos no norte de Seul. Ele tinha 42 anos.

Para defensores dos direitos dos adotados internacionais, o suicídio foi um lembrete doloroso de um problema que os Estados Unidos precisam tratar de forma urgente: adotados do exterior cujos pais não lhes providenciaram cidadania americana. A Campanha de Direitos dos Adotados, um grupo de defesa, estima que 35 mil adotados adultos nos Estados Unidos podem carecer de cidadania.

Acredita-se que Clay seja apenas uma dentre dezenas de pessoas adotadas quando crianças por famílias americanas, que foram deportadas para os países de origem que deixaram décadas atrás ou enfrentam deportação após serem condenadas por crimes na idade adulta. Algumas nem mesmo sabiam que não tinham cidadania americana até receberem a ordem de deportação.

Adotados de outros países, como Vietnã, Tailândia e Brasil, enfrentam deportação. Mas o simples número de crianças adotadas da Coreia do Sul, antes uma das principais fontes de crianças colocadas para adoção por estrangeiros, a torna o exemplo mais visível da questão, e dos enormes desafios enfrentados quando tentam se adaptar a uma cultura estranha, dessa vez com pouca ou nenhuma ajuda.

Muitos não têm para onde ir, com frequência vivendo nas ruas. Na Coreia do Sul, um deportado cumpriu pena de prisão por roubar um banco com uma arma de brinquedo. Outro, que como Clay tinha problemas psiquiátricos, foi indiciado duas vezes por agressão.

Simone Huits via The New York Times
Funeral de Philip Clay na Coreia do Sul


"A deportação é como uma pena de morte para eles", disse Hellen Ko, conselheira-chefe dos Serviços de Adoção da Coreia, uma agência do governo, que monitorou o caso de Clay. "Eles tiveram dificuldade para se ajustar à vida na América. Mas fica ainda pior quando voltam para cá."

O governo sul-coreano não sabe quantas das 110 mil crianças sul-coreanas adotadas por famílias americanas desde os anos 50 foram deportadas. Ele documentou apenas seis nos últimos anos, mas as autoridades reconhecem que o número pode ser muito maior. Estima-se que o status de cidadania nos Estados Unidos de 18 mil coreanos adotados seja desconhecido.

Quando os Estados Unidos deportam coreanos, o país não informa ao governo em Seul se foram adotados, segundo as autoridades sul-coreanas. Assim que voltam ao seu país de origem, eles estão por conta própria e com frequência permanecem não documentados.

"Eu tinha apenas US$ 20 comigo. Eu não sabia onde estava", disse Monte Haines, lembrando o dia em que chegou ao aeroporto de Seul após ser deportado em 2009, mais de 30 anos após ter sido adotado por uma família americana. "Não havia ninguém ali com quem conversar."

Os americanos adotaram mais de 350 mil crianças do exterior desde os anos 40, segundo a Campanha de Direitos dos Adotados, e os Estados Unidos deixaram aos cuidados dos pais a obtenção da cidadania para seus filhos.

Mas alguns não sabiam que seus filhos não se tornavam automaticamente cidadãos com a conclusão da adoção. Outros adiaram lidar com a burocracia complicada e cara, ou simplesmente abusaram e abandonaram seus filhos.

Jean Chung/The New York Times
Monte Haines, que foi deportado dos EUA em 2009, mais de 30 anos após sua adoção, no restaurante onde trabalha em Seul, na Coreia do Sul


Em 2000, o Congresso aprovou a Lei de Cidadania da Criança, que concede cidadania automática a crianças adotadas por cidadãos americanos. Mas a lei não beneficiava retroativamente os adotados que já eram legalmente adultos.

Essa omissão deixou os adotados adultos com fichas criminais, mas não com cidadania, como Clay e Haines, vulneráveis a deportação à medida que os Estados Unidos se tornam cada vez mais agressivos na caça a imigrantes ilegais nos últimos anos.

A lei de imigração permite ao governo federal deportar imigrantes que não são cidadãos caso sejam considerados culpados de "delitos graves", que incluem agressão, falsificação de cheques e venda de drogas.

O Serviço de Fiscalização de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), não foi capaz de dizer quantos adotados sem cidadania já deportou. A "New York Times Magazine" relatou em 2015 que pelo menos três dúzias de adotados estrangeiros enfrentavam processos de deportação ou já tinham sido deportados.

Quando o presidente Donald Trump prometeu aumentar as deportações, os defensores dos adotados temiam um aumento do número, com consequências devastadoras para os deportados.

"Quando era pequeno, não pedi para que me enviassem para os Estados Unidos. Não pedi para aprender inglês. Não pedi para ser americano", disse Adam Crapser, que foi deportado para a Coreia do Sul no ano passado, aos 41 anos, após 38 anos nos EUA. "E agora fui forçado a voltar para a Coreia e perdi minha família americana."

Crapser, que deixou para trás uma esposa e três filhas nos EUA, foi abandonado por seus primeiros pais adotivos e abusado pelo segundo casal. Ele acumulou uma ficha criminal ao longo dos anos, incluindo uma condenação por furto.

Mas nos últimos anos, ele começou a colocar sua vida em ordem e deu entrada ao pedido de green card (o visto que dá direito a viver no país). Isso provocou uma checagem de antecedentes, resultando em um processo de deportação que virou sua vida de cabeça para baixo.

"Eles esperaram até que eu tivesse uma família, até que eu tivesse filhas", ele disse. "Eles esperaram até que eu tivesse algo a perder."

Crapser, que nunca viajou para o exterior enquanto viveu nos Estados Unidos, disse que não conseguia ler nenhuma placa ao chegar ao Aeroporto de Incheon, nos arredores de Seul. Os rostos e língua coreana ao seu redor o deixaram em "completo choque", ele disse.

Sua deportação abalou seu relacionamento com sua esposa nos EUA, e ele não vê suas filhas há 15 meses. Vivendo com as roupas ainda nas malas em uma quitinete minúscula em Seul, Crapser disse estar tendo dificuldade para se manter ocupado e combater a depressão, além de suas oportunidades de emprego serem extremamente limitadas.

"A língua é a maior barreira, por causa da idade com que voltei à Coreia", ele disse.

Jean Chung/The New York Times
Adam Crapser, um dos adotados da Coreia do Sul que foram deportados dos EUA porque seus pais adotivos não lhes deram a cidadania, próximo à sua casa em Seul


Haines, outro deportado nascido na Coreia do Sul, disse que mal consegue pagar seu aluguel e comprar comida com os US$ 5 por hora que ganha como barman em Seul.

"Estou aqui há 8 anos e meio e ainda tenho dificuldades para sobreviver", ele disse.

A Coreia do Sul começou a desenvolver serviços pós-adoção nos últimos anos, devido ao aumento do retorno de adotados. Mas pessoas como Clay enfrentam um obstáculo adicional em seu país de origem, onde um estigma cultural contra doenças mentais torna ainda mais difícil receberem o tratamento apropriado.

Clay, também conhecido por seu nome coreano, Kim Sang-pil, foi encontrado abandonado em Seul em 1981, segundo a Holt Children's Services, a agência de adoção que o enviou aos Estados Unidos.

Sua primeira adoção por uma família americana em 1983 não deu certo. Ele então foi colocado com outra família na Filadélfia um ano depois. Contatado por e-mail, seu pai americano, Joseph Clay, se recusou a responder perguntas para este artigo.

O ICE disse que Phillip Clay foi deportado após "acumular uma longa ficha criminal ao longo de duas décadas, sendo as mais sérias as condenações criminais por assalto e múltiplos roubos e delitos ligados a drogas". A Holt também disse que soube pela família americana de Clay que ele entrava e saía de hospitais psiquiátricos.

Na Coreia do Sul, Clay também vivia entrando e saindo de clínicas psiquiátricas e empurrado de um lado para outro por agências sociais como a Holt e a Serviços de Adoção da Coreia.

Mas para os críticos, nenhuma delas lhe forneceu a assistência contínua e focada que precisa. Um prontuário médico de 2014 de um hospital sul-coreano mostra que ele foi diagnosticado com transtorno bipolar.

Em janeiro, Clay bebeu solvente de tinta e foi hospitalizado. Mas as clínicas psiquiátricas com frequência não o querem, porque não contam com funcionários que falam inglês.

"Ele disse que queria morrer", disse Ko, a responsável por seu caso. "Ele disse que não havia nada para ele fazer na Coreia do Sul."

AK Salling, secretária-geral do grupo de defesa Global Overseas Adoptees' Link, disse que a morte de Clay deveria ser um motivo para as sociedades prestarem mais atenção no apuro dos adotados que são deportados.

John Compton, um adotado nascido na Coreia do Sul que trabalha para a Global Overseas Adoptees' Link, disse: "O governo sul-coreano deveria suspender as adoções para todos os países até que os Estados Unidos retifiquem a questão dos adotados sem cidadania americana".

A Coreia do Sul enviou uma delegação ao Congresso americano neste ano para apelar por apoio à Lei de Cidadania aos Adotados, uma lei proposta que daria cidadania a qualquer um adotado antes de completar 18 anos, independente de há quanto tempo ocorreu a adoção.

O projeto de lei ficou parado no Congresso durante o ano passado eleitoral, mas defensores estão fazendo campanha para que seja retomado.

Após a morte de Clay, as autoridades do governo sul-coreano disseram estar discutindo uma melhor proteção aos adotados.

Mas Crapser, que acredita que deveria ter se tornado automaticamente um cidadão americano naturalizado, disse que a Coreia do Sul deveria "peitar os EUA e dizer 'não' à deportação de adotados enviados décadas atrás, com o entendimento de que se tornariam cidadãos americanos".

Em vez disso, a Coreia do Sul espera que aqueles que retornam poderão "agir, se comportar, trabalhar, falar, tudo como um coreano nativo", ele disse. "É impossível."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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