Famílias de atiradores lutam para esquecer passado traumático nos EUA

Julie Turkewitz

Em Belleville (Illinois)

  • AL DRAGO/NYT

    Equipe do FBI investiga campo de basebol onde James Thomas Hodgkinson efetuou disparos contra membros republicanos do Congresso

    Equipe do FBI investiga campo de basebol onde James Thomas Hodgkinson efetuou disparos contra membros republicanos do Congresso

Ele atirava pratos contra sua mulher, gritava com a televisão, teve um surto durante uma excursão em uma cervejaria local. Suzanne Hodgkinson estava tão preocupada com a raiva crescente de seu marido, que escreveu para o médico dele pedindo por ajuda.

Hoje, a mulher do homem que atirou contra uma equipe de beisebol de membros do Congresso em junho se pergunta o que mais ela poderia ter feito.

"Eu me levanto todas as manhãs me sentindo culpada por não ter impedido aquilo", disse Hodgkinson na quarta-feira em sua casa em Belleville, onde as persianas permanecem bem fechadas e fotografias de seu marido decoram uma das paredes da sala de estar.

Essa foi sua primeira entrevista a um repórter desde que seu marido, James Thomas Hodgkinson, atacou uma equipe de beisebol de membros republicanos do Congresso em Alexandria, na Virgínia, ferindo o deputado Steve Scalise e três outras pessoas antes que as autoridades o matassem. (Scalise continua internado em condição estável.)

Suzanne Hodgkinson continuou: "Eu acordo suando, pensando: 'Você devia ter desconfiado. Você devia ter desconfiado."

Ser cônjuge, pai ou filho de alguém que cometa um tiroteio em massa é entrar para um estranho clube cujos membros não são invejados por ninguém e são insultados por muitos. Ritos de passagem incluem mensagens de ódio, ameaças de morte e os pensamentos brutais que os atormentam à noite. Que eles deveriam ter imaginado. Que eles poderiam ter feito alguma coisa. Que eles estão sozinhos.

AL DRAGO/NYT
Policiais isolam área próxima ao estádio Eugene Simpson, local onde um atirador efetuou disparos contra membros republicanos do Congresso

E tem ainda a questão de como viver o luto. Como livrar-se de um corpo do qual todos os outros querem se esquecer.

Na terça-feira, Suzanne Hodgkinson, 65, recebeu um e-mail no seu trabalho em um escritório de contabilidade na Main Street, pedindo para que ela identificasse o corpo. Uma formalidade. Quando ela abriu o anexo, viu o rosto inchado de seu marido. "Esse é o Tom", ela disse ter respondido, antes de deletar a foto.

Ela disse que queria lidar com os restos mortais de James Hodgkinson o mais rápido e mais discretamente possível. Ela acredita que ele não era um homem ruim em sua essência. Eles se casaram em 1984.  Quando eles se conheceram, ele era feliz, e costumava cantar em seu ouvido no supermercado. Mais tarde, eles deram lar temporário a 35 crianças e adotaram duas.

Mas, no final dos anos 1990, após um longo período de enfermidade, ela conta que ele mudou. Sua raiva chegava mais repentinamente.

Agora ela quer se esquecer de tudo isso.

Ela pediu para que uma casa de funerais de um amigo cremasse o corpo de Hodgkinson. Depois disso, pode ser que ela as espalhe em casa ou as enterre na vizinha Saint Louis. Ela não divulgará ao público. Não haverá cerimônia.

"Pode parecer frio, mas para mim já chega", disse Suzanne Hodgkinson. "Ele não era um homem religioso, e para mim chega. Quero acabar logo com isso. Quero que minhas netas possam ir à escola em setembro sem que tragam isso à tona".

Ela fez uma pausa, e então falou como se James Hodgkinson estivesse sentado no sofá ao seu lado. "Você me abandonou".

O número de tiroteios em massa nos Estados Unidos aumentou bruscamente nos últimos anos, para uma média de 16,4 por ano entre 2007 e 2013, dos 6,4 por ano entre 2000 e 2006. (Esses números são do FBI e excluem episódios associados a violência doméstica e gangues.)

Cada um desses ataques deixou as famílias de vítimas inocentes arrasadas pela dor, com um número crescente de americanos tragados para dentro do trauma indelével de um ataque violento, repentino e absurdo.

E, cada vez mais, as comunidades e os indivíduos estão tendo que lidar com como tratar os corpos desses perpetradores.

Os parentes de pessoas que cometem tiroteios em massa muitas vezes optam por enterros secretos em túmulos sem identificação com cerimônias pequenas ou inexistentes, com o intuito de evitar críticos e vândalos. Isso não impediu o bombardeio de atenção e condenações.

Os corpos detêm um poder simbólico, diz Ann Neumann, uma pesquisadora visitante da Universidade de Nova York que estuda a morte, e os locais de sepultamento muitas vezes são vistos como reflexos de como a sociedade avaliava uma pessoa.

E é por isso que as pessoas ficam tão incomodadas quando um criminoso famoso é enterrado em seu quintal.

Após o atentado da Maratona de Boston em 2013, manifestantes se enfileiraram do lado de fora de uma casa de velórios que havia aceitado o corpo de um dos agressores, Tamerlan Tsarnaev, segurando placas que diziam à sua família: "Enterre o Lixo no Lixão".

Depois do ataque de San Bernardino, na Califórnia, em 2015, parentes dos assassinos, Syed Rizwan Farook e Tashfeen Malik, enterraram seus corpos em um cemitério longe de sua casa na Califórnia depois que um cemitério mais próximo os rejeitou.

Uma cidade perto do cemitério logo decretou uma lei proibindo o enterro de terroristas conhecidos na região. Alguém levou uma serra até a placa que identificava o Instituto Islâmico Americano de Antelope Valley, que administra os jazigos, e a destruiu.

"Jogaram pedra em mim. Cuspiram em mim. As pessoas atiravam em mim com carabinas de pressão", disse Peter Stefan, agente funerário que organizou o enterro de Tsarnaev. Demorou uma semana até encontrarem um cemitério que aceitasse o corpo. Por fim, a família do terrorista lavou seu corpo seguindo a tradição muçulmana e o enterrou em um jazigo no Estado da Virgínia escondidos pela noite.

Stefan disse que ele ajudou a enterrar o terrorista "para mostrar à sociedade que realmente estamos em um patamar acima de pessoas como esse cara".

E acrescentou, "Fizemos por ele o que ele provavelmente nunca teria feito por ninguém".

Em 1999, depois que Dylan Klebold e Eric Harris mataram 13 pessoas na escola secundária de Columbine em um subúrbio de Denver, algumas pessoas compareceram a uma cerimônia para Klebold. Ele jazia em um caixão de papelão cercado por animais de pelúcia.

Na época, o reverendo Don Marxhausen, que falou na cerimônia, disse que os Klebolds eram "as pessoas mais solitárias do planeta". Um ano após o funeral, ele foi expulso de sua igreja, em meio a tensões a respeito de seu envolvimento com o caso.

Ele disse posteriormente que havia feito isso por uma questão de consciência e que o faria novamente. "Quando seu telefone toca, você vai", ele contou ao "The Denver Post".

A mãe de Klebold, Sue Klebold, disse em uma entrevista recentemente que um colega a havia incentivado a realizar o funeral, argumentando que isso ajudaria no processo de luto. E ajudou.

"Quando você perde um ente querido que feriu outras pessoas, um dos desafios que você enfrenta é conseguir focar em sua própria dor, porque ela é complicada por todas essas outras coisas", ela diz.

Aos poucos ela foi deixando de se esconder e escreveu um livro de memórias. Hoje, quando ela sai em público e alguém menciona que seu sobrenome é familiar, ela consegue se abrir. "Acho que você deve estar pensando em meu filho Dylan", ela diz, "que foi um dos atiradores na tragédia de Columbine".

No caso de Suzanne Hodgkinson, ela está lidando com o legado de um homem que ela amava. Ela nega que ele tenha agredido qualquer um de seus filhos, algo que foi alegado em processos há mais de uma década.

Alguns de seus vizinhos pediram para que ela não cortasse sua grama, por temerem que ela fosse ser atacada em seu quintal. Um amigo leva seu lixo para fora, e o espalha por toda a cidade para evitar bisbilhoteiros. Quando ela se aventurou a fazer compras sozinha no Shop 'N' Save recentemente, uma mulher de cabelos brancos desconhecida se aproximou dela no estacionamento e a estapeou no rosto.

"Aquilo foi aceitável", disse Hodgkinson. "Desabafe, senhora. Só não pegue uma arma e não atire em ninguém".

Ela chorou durante todo o caminho de volta para casa.

Foi durante a campanha presidencial de 2016 que a militância democrata de James Hodgkinson ficou violenta, ela disse. Ele apoiava o senador Bernie Sanders. Quando Donald Trump venceu, Suzanne Hodgkinson disse, seu marido "perdeu as estribeiras".

Ela implorou para que ele fizesse algo localmente. Ele disse que queria falar direto com o topo da cadeia de comando.

Em março, ele partiu em direção a Washington, dizendo que iria ajudar na reforma tributária. Ela imaginou que ele fosse voltar, ela se aposentaria e eles comprariam uma moto "e sairiam por aí por dias a fio". Ele enviou um e-mail para a família e expressou frustração com a intransigência de Washington.

No dia 14 de junho, ela acordou com o barulho de seu neto de 2 anos. Da mesma forma que ela faz todas as manhãs, ela ligou a televisão e deu biscoitos com leite para seu neto comer. Os âncoras já estavam falando sobre o tiroteio, e lhe ocorreu por um momento que seu marido poderia ter feito aquilo. Ele andava muito revoltado.

Então os repórteres mencionaram que o agressor estava com um rifle. Ela concluiu que não poderia ser o Tom, já que ele havia ido para Washington levando somente sua pistola.

Tradutor: UOL

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