Para o Irã, crise no Qatar é uma boa distração

Thomas Erdbrink

Em Teerã (Irã)

  • STEPHEN CROWLEY/NYT

    Rei Salman da Arábia Saudita encontra Donald Trump em aeroporto na Arábia Saudita

    Rei Salman da Arábia Saudita encontra Donald Trump em aeroporto na Arábia Saudita

Os líderes iranianos têm estado notavelmente contidos em sua reação à crise do Qatar, e por bons motivos, segundo analistas. Não apenas Teerã a achou bem-vinda, como espera que ela se arraste tranquilamente.

Arábia Saudita, Bahrein, Egito e Emirados Árabes Unidos cortaram ligações diplomáticas e comerciais com o Qatar no mês passado porque, segundo eles, esse país financia o terrorismo e trabalha em estreita ligação com o Irã.

Depois eles apresentaram uma lista de 13 demandas --que o Qatar dispensou como uma grave infração à sua soberania-- e ameaçaram novas sanções caso não fossem cumpridas. No último domingo, eles prorrogaram o prazo em 48 horas, até o final desta terça-feira, para o cumprimento das exigências.

Para os líderes religiosos de Teerã, o confronto entre supostos aliados no golfo Pérsico surge em um momento especialmente auspicioso, quando todo o mundo árabe sunita parecia alinhar-se contra eles depois da visita do presidente Donald Trump à Arábia Saudita em maio.

"Eles queriam nos enfraquecer", disse o jornalista iraniano Mashallah Shamsolvaezin, com um sorriso, "mas agora estão se perdendo."

O Irã e o Qatar compartilham um dos maiores campos de gás do mundo e mantêm relações diplomáticas, mas o Qatar tem pouco ou nenhum valor estratégico para o Irã.

Praticamente tudo o que Teerã teve a dizer sobre a situação foi um comentário morno do presidente Hassan Rouhani ao emir do Qatar, xeque Tamim bin Hamad al-Thani, de que "o espaço aéreo do Irã, os transportes marítimos e terrestres estarão sempre abertos ao Qatar, nosso vizinho fraterno".

Depois da visita de Trump, porém, Teerã se preparava para enfrentar um bloco unido de países ricos e militarmente bem equipados do Golfo, prontos para isolar o Irã com o apoio entusiástico dos EUA. A Arábia Saudita tinha comprado US$ 100 bilhões em armas americanas e formado uma parceria estreita com Trump contra Teerã.

EUA, Arábia Saudita e Israel pintavam o Irã como a principal fonte de instabilidade na região, um país que apoiaria grupos terroristas no Iêmen, Líbano e Gaza e lutaria em nome do governo do presidente Bashar al Assad, da Síria. Parecia aberto o caminho para aumentar a pressão contra o Irã, um rival sectário odiado pelo reino saudita por sua versão política do islamismo.

Então eles começaram a lutar entre si.

Uma notícia da mídia do Qatar, mais tarde desmentida pelo governo, teria citado o emir dizendo que queria abrandar as tensões com o Irã.

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos reagiram furiosamente, iniciando um bloqueio diplomático e comercial contra o país rico em gás e entregando a lista de 13 exigências --"Exigência 13: concordar com todas as nossas exigências"-- e até proibindo seus cidadãos de usar a camisa do time de futebol Barcelona, que leva o nome de seu patrocinador, Qatar Airways.

Uma dessas demandas é que o Qatar feche uma base militar turca, o que alienaria a Turquia, membro da Otan e aliado da Arábia Saudita na Síria. "Em vez de fazer uma Otan árabe, eles só estão fazendo mais inimigos", disse Hamidreza Taraghi, um analista linha-dura no Irã. "Afinal, só os EUA estão se beneficiando com a venda de todas aquelas armas para esses países."

Mas mesmo aí o confronto no golfo Pérsico está criando alguns momentos nervosos para o Pentágono, que dirige a campanha aérea na Síria em uma grande base no Qatar.

Foi um fato familiar para os clérigos de Teerã, cuja concorrência regional com a Arábia Saudita e outros países árabes às vezes significa apenas esperar que os sauditas se deem um tiro no pé, dizem analistas.

Essa estratégia parece ainda mais adequada com a ascensão de Mohammed bin Salman, 31, o recém-nomeado príncipe herdeiro saudita, que está desenvolvendo uma reputação de medidas impulsivas de política externa que não funcionam como planejado.

Ele é o arquiteto da guerra saudita no vizinho Iêmen, que deveria ser uma "blitzkrieg" que acabaria em dois dias, mas já se arrasta pelo terceiro ano e causou uma terrível crise humanitária.

Agora, o príncipe herdeiro é considerado a força propulsora do esforço para isolar o Qatar.

Enquanto isso, canais de mídia iranianos relataram com entusiasmo que o país está recolhendo altas taxas pelo uso cada vez maior de seu espaço aéreo pela Qatar Airways.

Ao longo dos anos, o Irã geralmente preferiu fazer um jogo prolongado, trabalhando com forças substitutas locais, em vez de buscar vitórias rápidas.

Por exemplo, quando Assad foi ameaçado por forças apoiadas pela Arábia Saudita, Teerã silenciosamente enviou centenas, e agora milhares, de tropas para o conflito. Ele usou diversas fontes, especialmente os soldados tarimbados em batalhas da milícia xiita libanesa Hizbollah, milícias xiitas do Iraque e afegãos recrutados nas Forças Armadas iranianas.

O Qatar não pode esperar apoio além dos aviões carregados de alimentos que já lhe enviaram, dizem analistas. É a temporada das cerejas no Irã, por isso é muito provável que os qatarianos as estejam comendo, como sugerem algumas pessoas aqui.

"Nossos interesses são melhor atendidos se não houver guerra, conflito ou mais tensões em nossa região", disse Hossein Sheikholeslam, um assessor do ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif. "Tentamos agir racionalmente, porque os adversários na região são jovens, imaturos e irracionais na abordagem ao Qatar."

Observar dos bastidores enquanto os inimigos lutam pode ser vantajoso. "É como o Kuwait, quando Saddam Hussein o invadiu em 1990 --nosso inimigo faz um movimento e se enfraquece", disse Taraghi, o analista linha-dura.

A única coisa que o Irã fez nesse caso foi abrir seu espaço aéreo quando Saddam precisou de um abrigo para seus jatos de combate durante a invasão dos EUA. Ele enviou mais de cem aviões. Os iranianos disseram "Obrigado" e nunca os devolveram.

"Nós apenas continuamos neutros e vencemos", disse Taraghi.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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