Riscos potenciais de encontro de Trump com Putin preocupam assessores de americano

Julie Hirschfeld Davis e Glenn Thrush

Em Washington (EUA)

  • Czarek Sokolowski/AP

    5.jul.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama, Melania Trump, desembarcam do Air Force One em Varsóvia, na Polônia

    5.jul.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama, Melania Trump, desembarcam do Air Force One em Varsóvia, na Polônia

O presidente Donald Trump tem sido informado repetidas vezes. Seus conselheiros o alertaram para a teia de riscos potenciais, para as questões complexas e obstáculos diplomáticos.

Mas nem mesmo seus principais assessores sabem precisamente o que Trump decidirá dizer ou fazer quando se encontrar frente a frente com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, nesta semana durante a cúpula econômica do G20 em Hamburgo, Alemanha. E isso é o que mais preocupa seus conselheiros e os funcionários de todo o governo enquanto ele embarcava na quarta-feira para sua segunda viagem ao exterior, primeiro a Varsóvia, Polônia, e depois para Hamburgo.

A conversa altamente antecipada com Putin, na sexta-feira (7), é de muitas formas uma necessidade, diante das disputas sérias que separam os Estados Unidos e a Rússia. Mas também é um risco diplomático e político para Trump, que enfrenta uma série de investigações sobre os possíveis elos de sua campanha com a Rússia, assim como dúvidas sobre sua disposição de enfrentar Moscou a respeito de suas ações militares indevidas e interferência na eleição a seu favor. O ar de incerteza em torno do encontro apenas acentua a tendência do presidente de falas imprevisíveis e situações desajeitadas.

Se a primeira viagem de Trump ao exterior, em maio, foi uma chance dele escapar da turbulência em casa (disputas internas no governo, uma agenda emperrada e as investigações relacionadas com a Rússia), sua segunda o coloca no meio de um turbilhão. E Putin o aguarda no centro dele.

"Há uma boa quantidade de nervosismo na Casa Branca e no Departamento de Estado a respeito desse encontro e como administrá-lo, pois eles veem muitos riscos potenciais", disse Steven Pifer, um ex-embaixador na Ucrânia que trabalhou para o Conselho de Segurança Nacional e no Departamento de Estado. "Há uma nuvem cinzenta pairando sobre o presidente pelas investigações de conluio, de modo que qualquer tipo de acordo será microanalisado: 'Será isso uma concessão aos russos?'"

O próprio Trump não está perturbado com o encontro. Ele disse a assessores que está mais incomodado com a perspectiva de ser repreendido pela chanceler alemã, Angela Merkel, e outros líderes por ter se retirado do acordo do clima de Paris e por sua linha dura em imigração.

A equipe de Trump disse que ele pode tratar da interferência documentada da Rússia na eleição de 2016, mas dificilmente insistirá nisso: fazê-lo poderia enfatizar as dúvidas a respeito da legitimidade de sua eleição. Assessores esperam que ele se concentre na Síria, incluindo a criação de zonas de segurança, o combate ao grupo Estado Islâmico e confrontar a não disposição de Putin de impedir o governo do presidente Bashar al-Assad de usar armas químicas contra civis.

Um dia antes de Trump partir de Washington, a Casa Branca anunciou que o encontro com Putin seria uma discussão bilateral formal, em vez de uma conversa rápida de lado durante a cúpula econômica, como alguns esperavam.

O formato beneficia a ambos. Putin, um sagaz operador em conversas individuais, que já levou um labrador retriever a um encontro com Merkel, pois sabia ela tinha medo de cachorros, poderá avaliar Trump.

Os assessores de Trump buscam estrutura e previsibilidade. Eles esperam que o encontro formal, com a presença de assessores e uma agenda, deixará menos espaço para improviso e relegará a interferência da Rússia na eleição a um tema secundário, atrás das preocupações mais urgentes que o presidente está disposto a tratar.

"Ninguém encontrou a menor evidência de conluio, qualquer evidência de que houve manipulação dos votos, de modo que agora voltar sua obsessão à 'interferência' russa'", disse Kellyanne Conway, a conselheira sênior do presidente e ex-diretora de campanha. "Não acho que seja nisso que o povo americano esteja interessado."

O encontro de Trump com Putin é um dos vários encontros tensos que ele enfrentará em Hamburgo. Após o anúncio na terça-feira de que a Coreia do Norte testou com sucesso seu primeiro míssil balístico intercontinental, seu encontro planejado com o presidente da China, Xi Jinping, ganhou maior importância, devido à irritação de Trump com a China por sua recusa em fazer mais para confrontar a ameaça nuclear norte-coreana e por estar considerando suas opções limitadas para agir por conta própria.

Ele também planeja discussões privadas com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, e com o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, que certamente estarão focadas nas contínuas provocações da Coreia do Norte.

Mas os riscos políticos não poderiam ser maiores para Trump em seu encontro com Putin, à medida que legisladores de ambos os partidos o pressionam para agir de modo duro. Eles sinalizaram sua cautela no mês passado, com uma votação de 98 a 2 no Senado para codificação das sanções contra a Rússia e exigir que o Congresso analise qualquer ação por parte do presidente para suspendê-las, um passo que enfrenta resistência da Casa Branca.

"Vamos deixar bem claro: os russos interferiram em nossa eleição e ajudaram a eleger Donald Trump presidente", disse o senador Jack Reed, democrata de Rhode Island, membro do Comitê de Serviços Armados da Câmara. "Há uma séria investigação criminal em andamento sobre esse assunto. E o presidente Trump deve evitar quaisquer concessões unilaterais à Rússia."

Ciente dos riscos, a Casa Branca planejou o itinerário de Trump para evitar a percepção de ser amistoso demais com Moscou. Em Varsóvia, na quinta-feira, ele fará um importante discurso e se encontrará com aliados da Europa Central e Oriental, atividades calculadas para demonstrar seu compromisso com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) diante de uma agressão russa.

Mas ali Trump também estará sob pressão a fazer o que se recusou em Bruxelas durante sua primeira viagem: endossar explicitamente, em solo europeu, o Artigo 5º do princípio de defesa coletiva que embasa a Otan.

Seus conselheiros disseram que ele está ávido em conhecer o presidente da Polônia, Andrzej Duda, um político de centro-direita que compartilha o ceticismo de Trump com a imigração da Síria, e com o qual vê uma chance de fechar acordos lucrativos de energia, talvez em detrimento da Rússia.

Mas a substância e a linguagem corporal de seu encontro com Putin é que receberão maior escrutínio.

"Espero um nível olímpico de pose de macho entre esses dois líderes, já que ambos entendem o poder do simbolismo", disse Derek Chollet, um ex-secretário-assistente de Defesa. "Putin estará bem preparado para esse encontro. Ele é um mestre da manipulação."

Putin sinalizou que pressionará Trump a suspender as sanções impostas à Rússia devido à anexação da Crimeia, sua interferência na Ucrânia e sua interferência na eleição, e pela devolução das instalações diplomáticas russas em Long Island, Nova York e Maryland, que os Estados Unidos tomaram no ano passado.

As armadilhas potenciais são mais que teóricas. Funcionários da Casa Branca lembram com trepidação das imagens que surgiram do encontro em maio de Trump com o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e com o embaixador da Rússia, Sergei Kislyak, no Escritório Oval, que mostravam o presidente rindo e apertando as mãos das autoridades russas.

A maior preocupação, disseram pessoas que falaram recentemente com membros da equipe dele, é que Trump pareça, ao tentar estabelecer um relacionamento, involuntariamente estar do lado de Putin. Assim como Trump, Putin expressou desdém pela mídia de notícias, afirmando em uma recente entrevista que elementos secretos do governo americano estavam trabalhando contra a agenda do presidente. Duas pessoas próximas de Trump disseram que esperam que os dois formem um laço em torno de seu desdém por "notícias falsas".

"Você não deseja que saiam de lá dizendo: 'Somos amigos, e o inimigo é o Estado profundo e a mídia'", disse Michael A. McFaul, um ex-embaixador na Rússia.

"Se fosse outra pessoa que não Trump, poder-se-ia imaginar uma conversa dura a respeito da Ucrânia e da interferência na eleição, mas isso provavelmente seria otimismo demais. Acho que a política restringe os parâmetros do possível para qualquer tipo de grande avanço."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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