Nova arma russa na Síria são empresas que combatem EI para obter lucro

Andrew E. Kramer

Em Moscou

  • GORAN TOMASEVIC/REUTERS

    Soldado da Unidade de Proteção das Pessoas observa fumaça na cidade de Raqqa na Síria

    Soldado da Unidade de Proteção das Pessoas observa fumaça na cidade de Raqqa na Síria

O Kremlin está introduzindo uma nova arma na luta contra o grupo militante Estado Islâmico na Síria, usando incentivos de mercado, associados a direitos de exploração de petróleo e mineração, para recompensar empresas terceirizadas de segurança que fazem a proteção do território contra os extremistas, segundo a mídia russa.

Até o momento, sabe-se que duas empresas russas conseguiram contratos sob a nova política, de acordo com as notícias: a Evro Polis, que deve receber lucros de poços de petróleo e gás que ela tomar do Estado Islâmico usando soldados terceirizados, e a Stroytransgaz, que assinou um contrato de mineração de fosfato para uma área que estava sob controle dos militantes na época.

Os acordos, feitos com o governo sírio, são vistos como incentivos para companhias afiliadas a empresas terceirizadas de segurança russas, que supostamente empregam cerca de 2.500 soldados no país, para expulsar o Estado Islâmico do território perto de Palmira, no centro da Síria.

É claro, a maior parte das guerras no Oriente Médio são suspeitas de terem alguma variação desse acordo, mas raramente isso ficou tão explícito quanto nos contratos russos.

"É tudo muito simples", disse por telefone Ivan P. Konovalov, diretor do Centro de Estudos de Tendências Estratégicas, sobre os acordos, ambos fechados em dezembro mas que só recentemente foram divulgados. "Se uma empresa fornece segurança, então o país que recebe esse serviço deve pagar. Não importa como o pagamento é feito".

No acordo para o petróleo, a Evro Polis, uma corporação formada no verão passado, receberá 25% do petróleo e do gás natural produzido no território que ela capturar do Estado Islâmico, divulgou o site de notícias Fontanka.ru.

O site tem um histórico de reportagens precisas sobre as empresas privadas de segurança na Rússia, e só no mês passado o governo americano pareceu corroborar uma de suas notícias anteriores ao impor sanções contra um russo cujas atividades foram reveladas pela primeira vez na publicação.

O mais recente artigo do Fontanka sobre o tema, publicado na semana passada, detalhava como a Evro Polis estava cooperando com um obscuro grupo privado de segurança russo chamado Wagner que também teria fornecido soldados terceirizados para a guerra na Ucrânia, como sugerem as sanções americanas.

O acordo é diferente da prática corrente das grandes petroleiras e outras corporações de segurança terceirizada em pontos de conflitos do Oriente Médio e outros lugares. Pelo contrato, os poços não devem ser somente protegidos, mas também capturados primeiro, segundo o artigo.

"O acordo retorna aos tempos de Francis Drake e Cecil Rhodes", ele observou, referindo-se a dois nomes da história britânica cujas carreiras misturaram guerra e lucros privados.

A Evro Polis, de acordo com o Fontanka e registros empresariais públicos na Rússia, é parte de uma rede de empresas de propriedade de Yevgeny Prigozhin, um empresário de São Petersburgo próximo do presidente Vladimir Putin e conhecido como "o chef do Kremlin", por seus contratos exclusivos de fornecimento de alimentação com o governo Putin. Sua empresa, a Concord Catering, também fornece refeições a muitas escolas públicas de Moscou, de acordo com a mídia russa.

Jornalistas relataram que Prigozhin se envolveu em mais uma das tentativas recentes da Rússia de recuperar sua influência no exterior, ao mesmo tempo em que mantinha custos baixos: ele criou uma fábrica dos chamados trolls de internet em São Petersburgo, um escritório lotado de pessoas mal remuneradas postando na internet com identidades falsas para influenciar a opinião pública em outros países, inclusive nos Estados Unidos.

No começo deste mês, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções contra Dmitry Utkin, fundador da Wagner, a empresa de segurança privada que capturaria os poços de petróleo e gás sírios para a Evro Polis, segundo a reportagem. O Fontanka fez a associação entre Utkin e a Wagner pela primeira vez em um artigo em 2015.

No outro acordo, a empresa de energia russa Stroytransgaz ganhou o direito de minerar fosfato no centro da Síria sob a condição de fazer a proteção da área da mina, noticiou a RBC, outro veículo da mídia russa.

A Stroytransgaz, cujo acionista majoritário é outro russo sancionado pelos Estados Unidos, Gennady Timchenko, assinou um contrato com o governo sírio para retomar a mineração do depósito de fosfato de Sharqiyah, que estava sob controle do Estado Islâmico na época, segundo a RBC. Segundo o acordo, uma empresa militar privada russa terceirizada protegeria o local.

Nesse caso, porém, foram soldados russos, iranianos e sírios, e não empresas terceirizadas privadas, que conduziram as operações em maio que expulsaram militantes do Estado Islâmico da área de mineração, segundo a RBC.

No entanto, antecipando o acerto comercial, segundo a reportagem, um navio russo repleto de equipamentos de mineração ancorou na cidade portuária síria de Tartus, onde a Rússia tem uma base naval, mesmo antes do início da operação militar.

Autoridades russas não comentaram publicamente nenhum dos acordos.

O Ministério de Energias russo não respondeu a perguntas por escrito sobre o acordo para o petróleo e o gás. O dono da Evro Polis não respondeu a um e-mail enviado a um endereço listado nos registros da empresa.

Questionado em uma teleconferência com jornalistas sobre o acordo sírio para o petróleo, o porta-voz de Putin, Dmitry S. Peskov, disse: "Nós não monitoramos nenhuma atividade empresarial" de companhias russas no exterior.

Konovalov, o analista militar, disse que o governo sírio estava mais do que disposto a conseguir acordos como esses, trocando recursos naturais por segurança.

"Eles ficam com a melhor parte desse contrato", ele disse. "Eles obtêm nossa participação no setor de segurança na Síria, que é muito valiosa".

A reportagem do Fontanka sugeria que empresas terceirizadas de segurança russas já estavam colocando o acordo em prática, lutando para expulsar o Estado Islâmico de campos de gás natural perto de Palmira.

Os russos estão treinando e combatendo juntamente com uma unidade do Exército sírio chamada ISIS Hunters (caçadores do Estado Islâmico), cujas proezas são promovidas amplamente pela mídia estatal russa. A reportagem do Fontanka incluía um link para um vídeo gravado com uma câmera corporal vestida por um soldado falando russo junto com os ISIS Hunters, durante um tiroteio no deserto.

"Somos amigos, não atirem!", gritou o soldado em russo, aparentemente para outros soldados russos que estavam por perto.

Tradutor: UOL

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