Símbolo do ódio racial, forcas continuam a disseminar intolerância nos EUA

Sheryl Gay Stolberg e Caitlin Dickerson

Em Washington

  • GABRIELLA DEMCZUK/NYT

    Taylor Dumpson é a primeira mulher negra a se tornar presidente do conselho estudantil da Universidade Americana

    Taylor Dumpson é a primeira mulher negra a se tornar presidente do conselho estudantil da Universidade Americana

Era o começo do turno da noite na última quarta-feira, na Casa da Moeda dos Estados Unidos na Filadélfia, quando um funcionário branco atravessou a fábrica até a estação de trabalho de um colega afroamericano. Ele carregava um pedaço de corda.

A corda tinha um propósito oficial: lacrar sacos de moedas uma vez que eles estivessem cheios. Mas o funcionário, que opera o maquinário usado para fazer moedas, a amarrou no formato de uma forca, de acordo com Rhonda Sapp, presidente do sindicato dos funcionários da Casa da Moeda.

Ela logo foi inundada por telefonemas e mensagens de texto de funcionários indignados.

O episódio, que não havia sido relatado anteriormente, foi confirmado por uma porta-voz do Departamento do Tesouro com uma declaração de que a agência tinha "tolerância zero" com demonstrações de ódio como essas e que as autoridades estavam investigando.

Essa foi só a mais recente de uma série de denúncias este ano envolvendo forcas—especialmente na capital do país—que apontam para o retorno da forca como uma expressão contundente de animosidade racial.

Foram encontradas forcas, que durante muito tempo foram um símbolo forte de intolerância e ódio dirigidos a afroamericanos, penduradas de uma árvore do lado de fora do Museu Hirshhorn no National Mall, em uma galeria no Museu Nacional de História e Cultura Afroamericana, do lado de fora de uma escola primária e no campus da Universidade Americana, onde bananas com mensagens de ódio foram encontradas penduradas em forcas no mesmo dia em que uma mulher negra tomaria posse como presidente do conselho estudantil da universidade.

"Para mim, nó de forca é linchamento", disse Taylor Dumpson, que é a primeira mulher negra a se tornar presidente do conselho estudantil da Universidade Americana. "Isso é o que me vem à mente na hora, que alguém vai enforcar você, que alguém vai morrer. É algo muito assustador".

Também foram encontradas forcas nos últimos meses em uma escola de ensino fundamental na Flórida, em uma escola secundária na Carolina do Norte e em uma fraternidade na Universidade de Maryland.

Também em Maryland, dois jovens de 19 anos estão sendo processados por terem pendurado uma forca na estrutura de iluminação do lado de fora de uma escola de ensino fundamental.

GABRIELLA DEMCZUK/NYT
Taylor Dumpson em capus da Universidade Americana em Washington

Ao mesmo tempo, membros da Ku Klux Klan—uma organização cuja história está emaranhada com o uso de forcas em linchamentos—parecem estar acelerando suas atividades públicas. Membros da KKK vestidos de túnica apareceram em uma parada gay em Florence, no Alabama, no mês passado, e os Cavaleiros Brancos Leais da Ku Klux Klan estão planejando um encontro em Charlottesville, na Virgínia, para o sábado.

A forca na Casa da Moeda foi especialmente chocante, segundo Sapp, porque a fábrica tem um sistema forte de vigilância devido às suas exigências de segurança—os funcionários sabem que estão sendo gravados enquanto trabalham.

Após uma investigação de um dia inteiro, durante a qual o criador da forca foi mantido fora da fábrica para protegê-lo de retaliações físicas, Sapp disse que ele foi colocado sob licença administrativa na quinta-feira e escoltado para fora do prédio.

Mas ela disse que autoridades do Tesouro não haviam feito o suficiente para abordar as raízes da persistente discórdia racial dentro da fábrica, dizendo ainda: "Eles varreram muita coisa para debaixo do tapete".

A porta-voz do Tesouro disse somente que o secretário do Tesouro Steven Mnuchin havia "orientado para que essa questão fosse tratada com rapidez e seriedade".

Grupos de ativistas que monitoram crimes de ódio dizem que a onda de casos envolvendo forcas é parte de um aumento no número de crimes de ódio, alimentados pelo endurecimento do debate público que começou durante a campanha presidencial do ano passado, e continuou em meio a polarizações sobre o resultado da eleição.

"Estamos em um momento agora em que certamente não só intensificamos a conscientização, como também a frequência dos incidentes de ódio", disse Jonathan Greenblatt, presidente da Anti-Defamation League, que monitora crimes de ódio. Ele disse que o surto nos episódios com forcas era "realmente alarmante".

A forca foi usada por séculos para executar pessoas, mas se tornou um objeto específico de terrorismo racial nos Estados Unidos durante o final do século 19 e início do século 20, quando 4.700 pessoas—a maior parte homens, mas também mulheres e crianças—foram enforcados em árvores, postes telefônicos e pontes de todo o país, de acordo com Jack Shuler, autor de "The Thirteen Turn: A History of the Noose" (em tradução livre, "A 13ª volta: a história da forca").

Cerca de três quartos delas eram afroamericanas.

Sobre o porquê de forcas estarem aparecendo com cada vez mais frequência hoje, Shuler disse: "Essa é a grande questão. Acho que estamos em um momento histórico onde as pessoas estão se sentindo autorizadas a serem odiosas".

Contudo, é difícil obter dados atuais sobre as forcas. O FBI—que está investigando o caso da Universidade Americana como um possível crime de ódio—mantém números sobre crimes do tipo. Seu último relatório, divulgado em novembro, mostrava um aumento de 6,7% nos crimes de ódio em 2015, o ano mais recente para o qual há números disponíveis.

Um estudo com dados da polícia e agências federais em 25 áreas metropolitanas, conduzido pelo Centro de Estudos sobre Ódio e Extremismo na Universidade do Estado da Califórnia em San Bernardino, mostrou que o número de crimes de ódio saltou de 1.886 em 2015 para 1.988 em 2016, um aumento de 5,4%.

O Southern Poverty Law Center diz que documentou 1.863 episódios de preconceito desde o dia após a eleição presidencial; desses, 292 (ou quase 16%) foram dirigidos a afroamericanos. "Uma das manifestações mais dominantes desses acontecimentos é a exibição de forcas", escreveu o centro em uma postagem de blog publicada no mês passado.

Um dos exemplos mais perturbadores envolveu uma forca deixada em uma peça sobre segregação no Museu Nacional de História e Cultura Afroamericana, que se tornou um ponto turístico popular aqui desde que foi inaugurado no outono passado.

A corda foi encontrada no final de maio, em uma exposição que registrava a evolução dos Estados Unidos desde a era das leis segregacionistas de Jim Crow até o movimento dos direitos civis.

Vários dos casos recentes envolvendo forcas parecem ter sido voltados para pessoas específicas. Na escola secundária de Wakefield, no norte de Raleigh, na Carolina do Norte, alguém pendurou um ursinho de pelúcia preto no telhado, com uma mensagem dirigida ao diretor, Malik Bazzell, que é negro. Ao lado do boneco havia uma mensagem: "Devolva Wakefield a Tripp".

O "Raleigh News & Observer" informou que a mensagem se referia ao ex-diretor Tripp Crayton, que era branco, substituído por Bazzell em 2015. Bazzell disse que esse foi um "ato profundamente ofensivo". Quatro alunos do último ano foram presos posteriormente, acusados de transgressão e vandalismo contra a escola.

Na Universidade Americana aqui, as bananas penduradas em forcas pareciam ser claramente dirigidas a Dumpson, de 21 anos. Algumas das bananas foram pintadas de preto com as palavras "Isca de Harambe", uma referência ao gorila do Zoológico de Cincinnati que foi morto depois que uma criança caiu dentro de seu cercado em 2016.

Outras diziam "AKA Free", uma aparente referência à Alpha Kappa Alpha, uma irmandade negra da qual Dumpson faz parte.

Dumpson disse que ela cresceu conhecendo o poderoso simbolismo da forca. Ela foi criada no litoral leste de Maryland, uma região que se alinhou com o Sul durante a Guerra Civil e onde são profundas as tensões raciais. Ela conta que os linchamentos aconteciam perto de sua cidade natal, Salisbury, até 1933.

Ela estava no metrô, indo para a faculdade, no dia 1o de maio, quando recebeu uma mensagem pelo Facebook de um amigo lhe mostrando fotos das forcas no campus.

"Senti meu estômago apertar", ela conta. "Eu sabia o que era uma forca, eu conhecia a história, assim como eu conhecia a história da bandeira dos Confederados. Fui ensinada a reconhecer esse tipo de coisa".

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