No Irã, evento promove competição para ridicularizar Trump em caricaturas

Thomas Erdbrink

Em Teerã (Irã)

  • Reprodução/ Twitter @OneNewsSource

    O presidente dos EUA, Donald Trump, foi ridicularizado em competição de caricaturas no Irã

    O presidente dos EUA, Donald Trump, foi ridicularizado em competição de caricaturas no Irã

Zombar de presidentes do Grande Satã, os Estados Unidos, foi por muito tempo uma prática comum durante comícios promovidos pelo Estado, onde o antiamericanismo está arraigado na ideologia estatal.

Durante décadas, famílias revolucionárias iranianas trabalharam até tarde da noite para fazer fantoches, caricaturas e bonecos de cada um dos presidentes americanos desde Jimmy Carter, para depois exibi-los durante alguma manifestação contra os Estados Unidos e queimá-los em uma fogueira.

Alguns se fantasiavam com cartolas do Tio Sam, imitadores de Bill Clinton sempre traziam um grande charuto pendurado na boca, e George W. Bush vinha decorado com estrelas de Davi, para enfatizar a relação especial que tinham com Israel.

Mas como mesmo os mais firmes linhas-duras admitiriam, o número de manifestantes fervorosos diminuiu ao longo dos anos. Ultimamente, as pessoas têm se contentado em aceitar pôsteres que as autoridades distribuem.

O gesto de abertura de Barack Obama para com o Irã, mediando um acordo nuclear e abrindo mão da mudança de regime, não foi bom para a indústria local de fantoches e bonecos.

Mas agora com Donald Trump, os Estados Unidos têm um presidente novo e excêntrico que detesta o Irã, e grupos linhas-duras iranianos estão comemorando sua sorte. Na última segunda-feira, em uma competição de charges e caricaturas onde o único objetivo era caçoar de Trump, os fanáticos voltaram com tudo.

Vários vencedores receberam prêmios em dinheiro, em dólares, por mostrar o presidente na túnica branca da Ku Klux Klan e dividindo uma capa da revista "Time" com Adolf Hitler, ou como Capitão América empunhando a Estátua da Liberdade como um porrete.

Algumas das charges também foram expostas por toda a Teerã. Um dos pôsteres, colocado com destaque em um cruzamento bem movimentado, mostrava Trump fazendo algo com o traseiro de um elefante, símbolo do Partido Republicano, ao mesmo tempo em que usava uma braçadeira com uma suástica e a cabeça cortada da Estátua da Liberdade aos seus pés.

A caricatura vencedora, que ganhou um prêmio em dinheiro no valor de US$ 1.500 (R$ 5 mil), mostrava Trump usando um terno feito de notas de cem dólares, com seu cabelo em chamas e baba escorrendo de sua boca. Os artistas vencedores também receberam uma estátua abstrata com uma onda dourada representando o penteado característico de Trump.

A data da exposição, 3 de julho, marca o aniversário do abate de um avião civil iraniano por parte da Marinha americana em 1988, que matou todas as 290 pessoas a bordo. Embora o Pentágono tenha sempre insistido que o incidente foi um engano trágico, muitos iranianos têm certeza de que o avião foi abatido para pressionar o Irã a encerrar sua guerra de oito anos com o Iraque.

"Estamos realmente felizes com Trump", disse Resalat Bouzari, um dos palestrantes do evento. "Ele mostra a face real da suposta democracia americana". Todos aplaudiram, e quando entrou o hino nacional do Irã, as pessoas se levantaram de suas cadeiras para ver um vídeo de iranianos felizes torcendo por seu país. Visitantes receberam livros com o logo da exposição, um "T" dentro de um círculo preto sobre um fundo branco e vermelho, lembrando a suástica que esteve presente em várias das charges.

"O Trump é símbolo do fascismo e do nazismo, muitos investigaram suas declarações e concluíram que elas são similares às de Adolf Hitler", disse o organizador do evento, Masoud Shojaei-Tabataei. Ele já organiza—ou recebe a ordem de organizar—concursos de caricaturas há vários anos.

Ele começou depois que jornais europeus começaram a publicar charges representando o profeta do islã, Maomé. Em retaliação, o Irã organizou um concurso de charges sobre o Holocausto.

Depois de ver que as pessoas no Ocidente haviam ficado bastante transtornadas com as charges que mostravam judeus de nariz grande desenhando o contorno de corpos inexistentes no chão como em uma cena de homicídio, usando cartazes escrito "Holocausto", eles decidiram transformar o concurso em um evento anual, com diferentes temas.

"A importância está em testar os limites da liberdade de expressão no Ocidente", disse Shojaei-Tabataei em uma entrevista recentemente.

No ano passado, a competição focou no grupo terrorista Estado Islâmico, mais especificamente em como o grupo é um instrumento do Ocidente, como costumam dizer autoridades iranianas. Houve vários desenhos de terroristas com bandeiras americanas no peito.

O foco no "trumpismo" este ano veio depois que o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, disse em um discurso recentemente que Trump era a verdadeira face dos Estados Unidos. Antes disso, a liderança iraniana em sua maior parte não havia reagido abertamente a Trump, ganhando tempo enquanto tentavam descobrir o que o motivava.

"Agora sabemos que ele é insignificante e fica bravo facilmente", disse Payman Babaei, um voluntário de 26 anos na competição.

Babaei reconheceu que ficaria irritado se uma competição similar nos Estados Unidos zombasse de Khamenei, mas ele disse que tinha bons motivos. "Nosso líder é o pináculo da justiça e uma luz para o mundo; Trump é só um ostentador".

Ainda assim, Babaei disse que não levaria seu protesto para as ruas. "Hoje em dia, fazemos tudo pelas mídias sociais. É muito mais eficaz".

Tradutor: UOL

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