Opinião: Solução para Coreia do Norte é convencer China a tirar Kim Jong-un do poder

Bret Stephens

  • AFP/KCNA VIA KNS

    O líder norte-coreano Kim Jong-un

    O líder norte-coreano Kim Jong-un

Certa vez, Henry Kissinger deu uma boa descrição da forma como as escolhas políticas vêm antes de um presidente. "Se for obrigado a apresentar opções, um departamento típico apresentará duas alternativas absurdas ao lado de sua opção preferida, que normalmente aparece na posição do meio", ele escreveu em seu livro de memórias.

"Um tomador de decisões totalmente ignorante", acrescentou, "consegue facilmente satisfazer seus departamentos escolhendo às cegas a Opção 2".

Quais são as opções de Donald Trump no que diz respeito ao programa nuclear e de mísseis da Coreia do Norte? Costumam-se sugerir as três de sempre: mais sanções contra Pyongyang, diplomacia ou ataques militares. A primeira opção pode atrapalhar o regime, mas não impediu sua ambição nuclear. A última opção só se justifica como último recurso.

Resta a diplomacia, que tem a suposta virtude de ganhar tempo contra um regime em decadência enquanto permite que a dissuasão comece a agir.

Mas isso provavelmente também não dará certo, e não somente porque o Norte sempre trapaceia. A economia da Coreia do Norte está longe de estar tão decrépita quanto se acreditava e—considerando seu bem-sucedido teste esta semana de um míssil balístico intercontinental que poderia alcançar Anchorage, no Alasca—o tempo não está a nosso favor.

Quanto à dissuasão, se ela realmente funcionar, então não há necessidade de Washington negociar outro acordo. Podemos simplesmente continuar como antes, confiando que a Destruição Mútua Assegurada funcionará tão bem com Pyongyang hoje quanto funcionou com Moscou durante a Guerra Fria.

Entenda o programa de mísseis norte-coreano

O diabo é que com Kim Jong-un não podemos ter essa confiança. Ele age com uma aparente racionalidade até que deixa de ser racional, como quando ele executou seu vice-premiê por se sentar com má postura. E as capacidades cada vez maiores do Norte colocam outros interesses vitais dos Estados Unidos em risco.

Não queremos que o Norte compartilhe suas capacidades com seus amigos, como a Síria ou o Irã. Não queremos tentar a Coreia do Sul ou o Japão a desenvolverem arsenais nucleares próprios. Não queremos permitir que a Coreia do Norte use um ciclo de ameaças nucleares e negociações para ir tirando os Estados Unidos do leste da Ásia.

Mas se sanções diretas, negociações ou ataques não nos ajudam em nossas metas, o que pode ajudar?

Bem-vindos à Opção 4, que começa com repensarmos em qual deveria ser nossa meta.

A resposta costumeira, uma Península Coreana sem armas nucleares, está errada. Não existe nenhuma estratégia de incentivo ou coerção que possa persuadir Pyongyang a abrir mão de um arsenal que seja tanto sua melhor defesa contra uma coerção quanto sua melhor forma de extorquir vantagens do Ocidente.

Uma resposta mais atual, no caso, um acordo no qual o Norte concorde em congelar seu programa nuclear e de mísseis em troca de concessões americanas, tais como a suspensão de exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul, também está errada. O Norte inevitavelmente o violará, mas o acordo convencerá Pyongyang e Pequim de que eles podem causar uma divisão profunda entre Washington e Seul.

A resposta certa é que nós queremos o fim do regime Kim na Coreia do Norte. Não são as armas nucleares que deveriam nos preocupar, mas sim as mãos que as detêm.

Críticos de uma estratégia que envolva a mudança de regime observam que a única forma pela qual isso poderia acontecer—tirando uma guerra, um golpe ou uma revolução—seria com o consentimento da China. Pequim poderia interromper o fluxo de diesel e gás para Pyongyang, convidar Kim para uma conversa e abrigá-lo permanentemente na hospedaria que no passado abrigou o príncipe deposto do Camboja, Sihanouk.

Em vez disso Pequim prefere manter a Coreia do Norte como um Estado tampão, um elemento de barganha diplomática e uma ferramenta para ameaçar indiretamente os Estados Unidos.

Até recentemente, Pequim não havia sofrido as consequências por esse comportamento. Concordou com sanções ineficientes da ONU, mas as aplicava sem grande esforço, quando aplicava. Isso começou a mudar só no ano passado, quando o governo Obama acusou quatro cidadãos chineses e uma empresa chinesa de fazerem lavagem de dinheiro para a Coreia do Norte.

A boa notícia é que o governo Trump retomou o tema com uma nova rodada de sanções contra entidades chinesas. E não deve parar por aí. Como observa Anthony Ruggiero da Foundation for Defense of Democracies, o objetivo deveria ser pressionar bancos e empresas chinesas a fazerem uma escolha fundamental entre comerciar com Pyongyang e ter acesso a dólares. O mercado chegará a seu próprio veredito.

A bilionária venda de armas que os Estados Unidos fizeram a Taiwan no mês passado, juntamente com contestações da Marinha americana a reivindicações marítimas chinesas sobre o Mar do Sul da China, também devem passar a mensagem de que o governo cobrará de Pequim um preço por ter ignorado os interesses de segurança dos Estados Unidos.

Em outras palavras—uau!—o governo está no caminho certo. O que falta é a articulação de uma estratégia geral e um novo convite aos chineses para que sejam parte da solução, não do problema. Washington pode reconhecer um Estado norte-coreano, mesmo que nuclear, contanto que a dinastia Kim não o controle. Pequim deveria reconhecer que seus interesses serão mais bem-atendidos sem Kim no comando e com uma Coreia do Norte intacta, estável e sob controle.

Existe um acordo a se alcançar. O que falta é uma pressão suficiente sobre Pequim para que entendam que isso é do interesse deles também.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos