Por que o fim do controle do Estado Islâmico não significa paz em Mossul?

Tim Arango e Michael R. Gordon*

Em Mossul (Iraque)

  • Michael R. Gordon/The New York Times

    Soldados iraquianos caminham próximo ao que restou do minarete da Grande Mesquita Al Nuri, destruído pelo Estado Islâmico, em Mossul

    Soldados iraquianos caminham próximo ao que restou do minarete da Grande Mesquita Al Nuri, destruído pelo Estado Islâmico, em Mossul

Vestido com uniforme militar, o primeiro-ministro Haider al-Abadi chegou a Mossul no domingo para parabenizar as forças armadas iraquianas por terem retomado a cidade das mãos do Estado Islâmico. A vitória marcou o fim oficial de uma campanha sangrenta que durou quase nove meses, deixou boa parte da segunda maior cidade do Iraque em ruínas, matou milhares de pessoas e deslocou quase 1 milhão delas.

Enquanto as tropas iraquianas ainda liberavam os últimos bolsões de resistência, podendo enfrentar ataques de guerrilha durante semanas, os militares já começaram a saborear a vitória nas ruelas destroçadas da cidade antiga, onde o Estado Islâmico (EI) efetuou seu violento ato final de resistência.

Pairando sobre a declaração de vitória está a realidade do difícil caminho que há pela frente. As forças de segurança em Mossul ainda enfrentam perigos, inclusive células dormentes do Estado Islâmico e homens-bomba. E elas precisam liberar casas que estão repletas de armadilhas explosivas para que os civis possam voltar e os serviços possam ser retomados.

Mossul era a maior cidade tanto no Iraque quanto na Síria nas mãos do Estado Islâmico, e sua perda significa que estão minguando as reivindicações territoriais de um grupo terrorista que surgiu após a invasão do Iraque pelos americanos em 2003. O grupo também é ameaçado pela perda do que seria sua capital, a cidade síria de Raqqa, que está cercada por combatentes árabes e curdos com o apoio dos Estados Unidos.

Mas o fim do controle do Estado Islâmico sobre Mossul não significa que a paz esteja próxima. Outras cidades e vilarejos do Iraque permanecem sob controle dos militantes, e os iraquianos esperam um aumento de ataques terroristas em centros urbanos, especialmente na capital Bagdá, uma vez que o grupo volte para suas raízes insurgentes.

"Continuará sendo difícil todos os dias", disse o coronel Pat Work, comandante da 2ª Brigada da 82ª Divisão Aérea, que está executando a missão de assessoria americana aqui.

"As forças de segurança iraquianas precisam dar o melhor de si, e precisamos acompanhá-las, ajudando-as a passarem por essa transição para consolidar as conquistas e realmente fincar seu controle no lado ocidental", disse Work enquanto rodava pelas ruas do oeste de Mossul recentemente, dentro de um veículo blindado. "O Estado Islâmico resistirá a isso".

A vitória poderia ter sido mais satisfatória se não tivesse sido negado aos iraquianos o simbolismo de pendurar a bandeira nacional na Grande Mesquita Al-Nuri e seu minarete inclinado, que foi varrido do horizonte nas últimas semanas como um ato final de barbárie por militantes do Estado Islâmico, que a lotaram de explosivos e a destruíram com a aproximação das tropas do governo.

Foi nessa mesquita, em junho de 2014, que Abu Bakr al-Baghdadi subiu ao púlpito e se autodeclarou o líder de um califado que englobava as fronteiras do Iraque e da Síria, um vasto território onde durante três anos extremistas islâmicos governaram com uma forma rígida de lei islâmica, mantiveram mulheres como escravas sexuais, executaram decapitações públicas e tramaram ataques terroristas contra o Ocidente.

Nessa última semana, com o acirramento dos combates, soldados iraquianos tiraram selfies na frente do que restou do minarete e posaram no lugar onde Al-Baghdadi fez seu discurso. Ao seu redor havia só destruição, além do fedor dos corpos em decomposição de combatentes do Estado Islâmico, que apodreciam sob o Sol escaldante.

A batalha por Mossul teve início em outubro, após meses de planejamento entre iraquianos e consultores americanos, e alguns membros do governo Obama esperavam que ela fosse terminar antes do final de seu mandato, impulsionando os esforços do presidente para derrotar o Estado Islâmico.

Mas afinal ela durou até agora, e foi bem mais brutal do que muitos esperavam. Com densos combates de porta em porta e uma torrente interminável de snipers e homens-bomba, o combate por Mossul foi uma das guerras urbanas mais difíceis desde a Segunda Guerra Mundial, segundo comandantes americanos. Oficiais iraquianos, cujas vidas foram definidas por uma guerra sem fim, disseram que o combate foi um dos piores já vistos.

"Fiz parte do Exército iraquiano durante 40 anos", disse o major-general Sami al-Aradi, um comandante das forças especiais iraquianas. "Participei de todas as batalhas do Iraque, mas nunca vi nada como a batalha pela cidade antiga". E continuou: "Lutamos por cada metro. E quando digo que lutamos por cada metro, quero dizer literalmente".

Quando Al-Abadi chegou aqui vestido com o uniforme preto do Serviço de Contraterrorismo de elite do Iraque, as forças iraquianas ainda estavam pressionando para eliminar um bolsão de resistência do Estado Islâmico à margem do Rio Tigre. Falando a partir de sua base na cidade antiga, o tenente-general Abdul Wahab al-Saadi, um comandante de alto escalão desse serviço, disse que o enclave dos militantes tinha cerca de 200 m de comprimento por 50 metros de largura e que as expectativas eram de que ele seria tomado no mesmo dia ou na segunda-feira.

Depois de chegar, Al-Abadi se encontrou com a Polícia Federal, que sofreu perdas significativas na batalha, e foi visitar o comando conjunto que supervisionava a operação. Mas, reconhecendo que a vitória que ele viera proclamar ainda não estava completamente certa, oficiais iraquianos disseram que o primeiro-ministro não daria uma declaração pública até que o último pedaço de território do Estado Islâmico em Mossul fosse liberado.

Mais cedo naquele dia, uma postagem no perfil oficial de Al-Abadi no Twitter afirmava que ele havia vindo a Mossul para "anunciar sua libertação e parabenizar as forças armadas e o povo iraquiano por essa vitória".

Alguns militantes tentaram escapar atravessando o rio a nado, mas Al-Saadi disse que seus soldados haviam atirado neles. O general disse que havia fincado a bandeira iraquiana nas margens do Tigre na manhã de sábado, um ato que ele descreveu como um "momento especial" durante o qual pensou sobre os muitos soldados que havia perdido na longa batalha.

Estado Islâmico existe há mais de 10 anos e foi rejeitado pela Al Qaeda

A retomada da cidade, pelo que todos dizem, teve um custo alto. O governo iraquiano, sensível ao número cada vez maior de vítimas, não revela quantos de seus soldados foram mortos. Mas as mortes entre as forças de segurança iraquianas na batalha por Mossul haviam chegado a 774 até o final de março, de acordo com oficiais americanos, o que sugere que o número tenha superado 1.000 agora. O número estimado de civis mortos é ainda maior, muitos deles nas mãos do Estado Islâmico e alguns acidentalmente por ataques aéreos dos Estados Unidos. Pelo menos sete jornalistas foram mortos, inclusive dois correspondentes franceses e seu intermediário, um jornalista curdo iraquiano, na explosão de uma mina nas últimas semanas.

Os iraquianos e seus parceiros internacionais terão de enfrentar o imenso desafio de restaurar serviços essenciais como a eletricidade e de reconstruir hospitais, escolas, casas e pontes destruídos, que foram arruinados nos combates em solo ou por ataques aéreos, fogo de artilharia e ataques de foguete Himars executados pela coalizão liderada pelos Estados Unidos para ajudar no avanço das tropas iraquianas.

"Quando os combates param, a crise humanitária continua", disse Lise Grande, vice-representante especial para o Iraque para o secretário-geral da ONU.

O oeste de Mossul, especialmente sua cidade antiga, onde o Estado Islâmico fez seu último ato de resistência, foi atingido de forma especialmente violenta, tornando-se um cenário cinza e dizimado. À medida que o combate foi se encaminhando para um desfecho, milhares de civis começaram a retornar. Mas 676 mil dos que deixaram a parte oeste da cidade ainda não voltaram, de acordo com dados da ONU.

Não é difícil ver por quê. Dos 54 bairros do oeste de Mossul, 15 bairros que incluem 32 mil casas sofreram danos profundos, de acordo com dados fornecidos por Grande. Outros 23 bairros foram considerados moderadamente danificados. O custo dos reparos de curto prazo e a reconstrução mais substancial necessária em Mossul foi estimado por especialistas da ONU em mais de US$700 milhões (R$2,3 bilhões), segundo ela.

No coração da cidade antiga, crateras recobrem cruzamentos e estradas, marcando os pontos onde bombas jogadas de aviões de guerra da coalizão atingiram o chão. As ruas estão tomadas por pilhas de entulho, com vergalhões aparecendo para fora da alvenaria destroçada.

Em uma igreja usada como fábrica de armas pelo Estado Islâmico, havia morteiros largados no chão ao lado de uma mochila cor-de-rosa com o desenho de um gatinho. Quando soldados abriram a mochila, encontraram sachês de plástico contendo um pó branco explosivo, identificado como o C4 usado nas bombas dos militantes.

A vitória militar em Mossul veio sem um acordo político entre as duas maiores comunidades do Iraque, os árabes sunitas e xiitas, cujas divisões sectárias levaram à ascensão do Estado Islâmico. Para muitos membros da minoria de sunitas do Iraque, o Estado Islâmico era visto como um protetor contra os abusos sofridos por eles sob o governo do Iraque liderado por sunitas, especialmente no mandato do ex-primeiro-ministro Nuri Kamal al-Maliki.

Depois que o Estado Islâmico se apoderou de Mossul em 2014, muitos sunitas o receberam bem. Al-Maliki foi então destituído do cargo e substituído por Al-Abadi, um líder mais moderado e menos sectário, mas visto como fraco por muitos. Sob Al-Abadi, não houve nenhuma reconciliação significativa.

"Vou embora de Mossul porque ela se tornou uma cidade destruída", disse Aisha Abdullah, uma professora que teve de viver sob domínio do Estado Islâmico. "Em cada esquina há lembranças e sangue".

E embora o Estado Islâmico, com seu governo inclemente, tenha alienado muitos dos habitantes sunitas que ele procurava representar, alguns habitantes dizem que sua ideologia encontrou seguidores entre parte da população, especialmente homens jovens.

"Não adianta reconstruir a cidade se o povo de Mossul não mudar", disse Abdullah. "Ainda há muita gente ajudando o Estado Islâmico, e os atos de violência nunca vão ter fim".

Marwan Saeed, outro residente de Mossul, que vive na parte leste da cidade, que foi libertada em janeiro e onde a vida praticamente voltou ao normal, com a reabertura de escolas e de lojas, e a maior parte dos civis de volta para casa, disse que mais do que nunca ele temia pelo futuro.

"Sinceramente, estou desesperado pensando no futuro", ele disse. "O Estado Islâmico destruiu a mentalidade das pessoas, e as guerras destruíram a infraestrutura, e nós pagamos o preço. Não existe algo como a fase 'pós-Estado Islâmico'. O EI é uma mentalidade, e essa mentalidade não terminará só com armas".

As forças iraquianas terão de retomar vários bastiões do Estado Islâmico: Hawija e Tal Afar, no norte do Iraque, e uma série de vilarejos no vale do rio Eufrates no Iraque, que vão desde Anah até Al-Qaim.

Enquanto isso não acontece, combatentes sírios, com o apoio do poder de fogo americano devem completar a retomada de Raqqa antes de cercar e matar os militantes nos vilarejos do rio Eufrates no lado sírio da fronteira.

"Mossul e Raqqa não são o fim, de forma alguma", disse o brigadeiro-general Andrew A. Croft, um oficial de alto escalão da Força Aérea junto à força-tarefa liderada pelos Estados Unidos que está combatendo o Estado Islâmico.

E existe o medo de que muitos combatentes do Estado Islâmico que não foram capturados ou mortos simplesmente tenham largado as armas e se misturado com a população civil, por questões de sobrevivência.

As mulheres de combatentes do Estado Islâmico também representam um risco. Na última semana, uma mulher que segurava um bebê e usava uma túnica de manga comprida que escondia um detonador tentou explodir uma bomba enquanto se aproximava de um soldado iraquiano, disse o segundo-tenente Muntather Laft, um assessor de comunicação do Serviço de Contraterrorismo.

"Sabia que a maioria dos combatentes do Estado Islâmic rasparam a barba e tiraram suas roupas, e agora estão livres?", disse Zuhair Hazim al-Jibouri, membro do conselho local de Mossul.

* Com reportagem de Rukmini Callimachi e Falih Hassan (Mossul, Iraque), Omar al-Jawoshy (Bagdá) e um funcionário do "The New York Times" (Irbil, Iraque).
 

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos