Advogada russa que se reuniu com filho de Trump é influente em Moscou

Neil MacFarquhar e Andrew E. Kramer

Em Moscou (Rússia)

  • Yury Martyanov/ Kommersant Photo/ AFP

    A advogada russa Natalia Veselnitskaya durante uma entrevista em Moscou

    A advogada russa Natalia Veselnitskaya durante uma entrevista em Moscou

Quando promotores americanos acusaram o filho de uma autoridade graduada russa de ter lavado US$ 14 milhões investindo em imóveis e outros ativos em Manhattan, ela foi chamada para defendê-lo. Quando autoridades regionais de Moscou questionaram a expansão da loja sueca Ikea, ela assumiu o caso.

Natalia Veselnitskaya, a advogada russa que se encontrou com Donald Trump Jr. no ano passado para discutir um material supostamente comprometedor sobre os democratas, é geralmente retratada como uma ativista obcecada por fazer o Congresso americano rejeitar sanções contra empresários russos.

Mas advogados e outros na comunidade jurídica de Moscou a chamaram de uma "insider" [alguém com acesso a informações privilegiadas] confiável, com quem se poderia contar para defender e vencer casos importantes na Justiça, relacionados ao governo e a uma autoridade bem conectada em particular.

Veselnitskaya, 42, conquistou sua posição como a advogada ideal para tratar de assuntos com o governo regional de Moscou. Há anos ela é a advogada da família Katsyv, cujo patriarca, Pyotr [ou Petr] Katsyv, foi ministro dos Transportes da região de Moscou por mais de uma década e cujo filho foi apanhado no caso de lavagem de dinheiro em Nova York.

Katsyv pai é hoje vice-presidente das Ferrovias Russas, um monopólio estatal que é o maior empregador do país e há muito alvo de denúncias de corrupção.

O jovem Trump disse que aceitou ir à reunião, que incluiu dois assessores graduados da campanha de seu pai, depois que um e-mail de um sócio disse que alguém que se anunciava como "advogada do governo russo" entregaria informação compilada pelo Ministério Público russo que era prejudicial a Hillary Clinton.

Não se sabe exatamente o que Veselnitskaya disse no encontro de aproximadamente 30 minutos. Donald Trump Jr. disse que ela passou a maior parte do tempo atacando as sanções americanas. Veselnitskaya negou que, em nome de autoridades russas, ela tenha falado sobre material comprometedor com membros da equipe de campanha de Trump.

Dmitri Peskov, porta-voz do presidente russo, Vladimir Putin, disse a repórteres que o Kremlin nunca ouviu falar nela. Perguntada sobre possíveis ligações entre Veselnitskaya e o Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, a porta-voz do ministério, disse que ele "não tem nada a ver" com suas iniciativas.

Mas na Rússia as linhas entre profissão, lealdade e serviço ao governo tendem a ser mais indefinidas que em outros países.

Veselnitskaya construiu sua carreira na dura luta por terras durante a expansão dos subúrbios de Moscou, quando locais decadentes de fábricas e outros terrenos se tornaram extremamente valiosos com a disseminação dos shopping centers e novas autopistas. E ela forjou uma importante conexão com a família Katsyv.

William Browder, um administrador de fundo de investimentos que se chocou diversas vezes com Veselnitskaya, disse sobre o velho Katsyv: "No mundo da Rússia, ele seria o equivalente a um Chris Christie: sem relacionamento formal com o Kremlin, mas com relações muito fortes com os poderes constituídos".

A confiança da família em Veselnitskaya foi recompensada em maio, quando ela ajudou Denis Katsyv, filho de Pyotr, a lutar contra as denúncias de lavagem de dinheiro em Nova York feitas pelo promotor federal em Manhattan na época, Preet Bharara. Este se desentendeu com Veselnitskaya diversas vezes e protestou a certa altura porque ela estava cobrando do governo por um quarto de US$ 995 (cerca de R$ 3,2 mil) por noite no Hotel Plaza.

O caso foi resolvido dois meses depois que Bharara foi demitido pelo presidente Donald Trump.

A empresa de Katsyv, Prevezon Holdings, pagou US$ 6 milhões para solucionar a denúncia sem admitir nenhum crime. Enquanto a promotoria pintou o acordo como uma vitória, Veselnitskaya disse ao jornal "Izvestia" que era "quase um pedido de desculpas do governo".

Nos últimos anos, ela havia se tornado a imagem pública dos esforços de Moscou para reverter as sanções financeiras e a viagens internacionais contra importantes figuras russas ligadas a uma suposta fraude fiscal de US$ 230 milhões.

Sergei Magnitsky, um advogado que denunciou a fraude, foi preso pelos mesmos promotores que, segundo ele, a teriam planejado. Ele morreu na prisão em 2009, em meio a acusações de espancamento e erros médicos.

Em 2012 Browder, que tinha sido o chefe de Magnitsky, fez campanha com sucesso para o Congresso dos EUA aprovar a Lei Magnitsky, uma série de sanções citando autoridades russas ligadas à morte de Magnitsky. Indignado, Putin respondeu com a proibição a americanos de adotar crianças russas.

Veselnitskaya também se reuniu com congressistas e ajudou a estabelecer um grupo sem fins lucrativos em Delaware que fazia lobby contra as sanções. Ela apresentou um longo depoimento e organizou a projeção de um filme contra Magnitsky no Newmuseum em Washington em junho de 2016, poucos dias depois do encontro com Trump Jr.

Ela também participou de uma audiência de uma comissão parlamentar sobre a política americana em relação à Rússia um dia depois da projeção, sentando-se na primeira fila.

"Ela tem uma espécie de patriotismo ao seu redor", disse Andrei Nekrasov, o documentarista russo que fez o filme, que os críticos chamaram de impreciso. "Ela tende a ser um pouco solene, se não pomposa, e dizer 'meu país está sendo atacado' --que é seu estilo."

Foi o desejo de Veselnitskaya de fazer os EUA reverterem a Lei Magnitsky que a levou a tentar se reunir com a campanha de Trump, disse ela no sábado (8) em respostas por escrito a perguntas de "The New York Times". Na terça-feira (11), seu escritório cancelou uma entrevista prometida.

Veselnitskaya começou sua carreira no gabinete do promotor nos subúrbios de Moscou antes de se ramificar. Ela ganhou reputação como uma adversária temível, intimidando dentro dos tribunais e nos corredores, onde era conhecida por ameaçar adversários com a ira do governo. Segundo seu próprio relato em um caso recente nos EUA, ela disse ter defendido e ganhado mais de 300 casos.

Um advogado que foi seu opositor no tribunal descreveu sua técnica como 20% direito, em que ela é excelente, e 80% atuação. Ela gesticulava e descrevia as dificuldades de suas vítimas em termos emotivos, disse o advogado, que não quis usar seu nome por temer pela segurança da família.

O governo Putin há muito é criticado por favorecer uma elite de pessoas leais e confiáveis que são autorizadas a manipular os tribunais e órgãos do governo para promover seus interesses --desde que andem na linha do Kremlin. Veselnitskaya, segundo advogados e outros que acompanham sua carreira, era versada nesse jogo e utilizava suas armas na louca corrida por lucros imobiliários na região de Moscou que muitas vezes punha em choque facções atuais e passadas de autoridades regionais.

Em um caso, uma pequena instituição beneficente chamada Spravedlivost, que tentou denunciar a corrupção na região de Moscou, publicou uma série de artigos acusando um grupo que incluía Veselnitskaya, seu ex-marido, Aleksandr Mitusov, e Katsyv de serem bandidos corporativos que usavam sua influência no governo regional e nos tribunais para se apoderar de terras valiosas.

Veselnitskaya ajudou a abrir um processo de difamação contra a organização e o dono da fábrica que a acusou de roubar propriedades. O tribunal impôs pesadas multas aos representantes da Spravedlivost e ao dono da fábrica.

Em 2008, seu trabalho com sua filha adotiva atraiu a atenção de Vladimir Soloviev, hoje um conhecido apresentador de programa de entrevistas na televisão estatal.

"Elas se envolveram em várias histórias semelhantes e muito dúbias", escreveu Soloviev em um blog muito lido sobre a disseminação dos ataques corporativos na Rússia. "Brigas internas, estranhas decisões de tribunais, documentos que aparecem do nada e, de modo geral, todos ligados a terrenos na região de Moscou."

Em outro caso parecido, Veselnitskaya atacou a Ikea, dizendo que parte do terreno onde ficava um complexo de escritórios da companhia sueca nos arredores de Moscou pertencia a uma antiga cooperativa agrícola.

Foi um dos muitos casos abertos contra a gigante sueca, e um antigo membro do conselho disse que eles nunca conseguiram entender quem estava por trás deles. Esse caso acabou sendo recusado pela Suprema Corte russa.

E-mails de Trump filho divulgados na terça-feira indicam que a reunião com a campanha de Trump foi organizada por meio de Emin Agalarov, o cantor filho do empreiteiro bilionário Aras Agalarov, que foi sócio de Trump na organização do concurso Miss Universo 2013 em Moscou.

A fortuna de Agalarov se baseia em parte em shopping centers gigantes construídos ao redor de Moscou por seu grupo Crocus, cujo trabalho sem dúvida o teria posto em contato com Katsyv --e Veselnitskaya.

Veselnitskaya parece apreciar sua emergência como atriz na política russa. Em sua página no Facebook, decorada com a bandeira da Rússia, ela tem preferência por artigos sobre teorias da conspiração e com frequência critica fatos políticos nos EUA, como a nomeação de Neil Gorsuch à Suprema Corte ou a demissão de Sally Yates da Secretaria de Justiça.

Quando um amigo escreveu que ela desejava que Yuri Chaika, o promotor público russo, tivesse os mesmos princípios que Yates, Veselnitskaya objetou, acusando os americanos de serem corruptos. "Nos EUA, a política é o tipo mais lucrativo de negócio", escreveu ela.

*Colaboraram Ivan Nechepurenko e Lincoln Pigman, de Moscou; Kenneth Vogel e Sharon LaFraniere, de Washington; e Jesse Drucker, de Nova York.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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