Mulheres ganham espaço na polícia dos EUA, e risco para elas também aumenta

Benjamin Mueller e Al Baker

  • SPENCER PLATT/AFP

    Pessoas se manifestam durante funeral para policial feminina e outros policiais que foram mortos enquanto trabalhavam nos EUA

    Pessoas se manifestam durante funeral para policial feminina e outros policiais que foram mortos enquanto trabalhavam nos EUA

No início dos anos 1980, o metrô da cidade de Nova York era sinistro, com ladrões à espreita dentro dos vagões cobertos de pichações. Pouquíssimas mulheres faziam patrulha, mas a agente Irma Lozada assumiu um dos trabalhos mais perigosos: ela escondia seu distintivo e enrolava correntes de ouro falso em volta do pescoço, atraindo ladrões em algumas das partes mais violentas do Brooklyn.

Foi em uma dessas missões à paisana em 1984 que algo deu muito errado: Lozada perseguiu um suspeito, separou-se de seu parceiro e foi morta depois que o suspeito arrancou dela seu revólver e atirou duas vezes contra ela.

Ela se tornou a primeira policial feminina morta na história da cidade de Nova York. A força policial ficou tão abalada com sua morte, que após o episódio alguns policiais consideraram que seria melhor que as mulheres fossem transferidas para cargos administrativos, como lembram várias pessoas.

É um indicativo de como as coisas mudaram o fato de que quando outra policial feminina, Miosotis Familia, foi baleada e morta na semana passada, seu gênero esteve muito menos em questão do que os riscos não discriminatórios de sua profissão. Hoje há 6.394 agentes mulheres em uma força com pouco mais de 36 mil membros na cidade de Nova York.

E, no país todo, as mulheres lutaram para ocupar os cargos mais difíceis da polícia. Para elas, a morte de Familia foi vista como um triste indicador de como elas têm ocupado cada vez mais a linha de frente.

JOHN SOTOMAYOR/NYT
Foto do funeral de Irma Lozada a primeira policial feminina morta na cidade de Nova York

"Todos nós sofremos esse mesmo risco, homens e mulheres", disse Sheree Briscoe, uma comandante distrital para o Departamento de Polícia de Baltimore. "É isso que está acontecendo na cultura do policiamento".

Familia foi a terceira policial feminina da cidade de Nova York a morrer em serviço. A segunda foi a agente Moira Smith, que morreu no 11 de setembro de 2001. Representantes eleitos e policiais se reuniram na segunda-feira em uma igreja do Bronx para o velório de Familia; seu funeral será realizado na manhã de terça-feira.

Ainda que os riscos tenham se nivelado, algumas policiais femininas relatam que ainda precisam provar para colegas homens que elas são corajosas o suficiente para a profissão. A mentalidade de clube do Bolinha que durante tanto tempo definiu os departamentos de polícia ainda aparece, segundo elas, em vestiários mais modestos para as mulheres e expectativas relacionadas a gênero.

Elas dizem que muitos policiais ainda veem a sensibilidade como um sinal de fraqueza e, embora algumas cidades tenham adotado recentemente mulheres em posição de chefia para diminuir os problemas de excesso de agressividade em seus departamentos, algumas mulheres dizem que propor reformas as expõe a acusações estereotípicas.

"Se eu demonstro emoção, sou fraca", disse Janée Harteau, a primeira chefe de polícia mulher de Minneapolis, que lidera a força policial desde 2012. "Se eu falo em desescalada de violência, em policiamento do século 21, sou frouxa para tratar da criminalidade e precisamos de um homem para vir consertar as coisas. Para mim é surpreendente que ainda aconteçam essas conversas".

Ela diz que policiais femininas tendem a receber um número significativamente menor de queixas por uso de força.

Na cidade de Nova York, o número de mulheres nos cargos de maior escalão continua baixo. Policiais femininas correspondiam a quase 18% do Departamento de Polícia em abril, em comparação com os quase 16% de 2000, quando elas eram em 6.243 em uma força maior. As mulheres correspondiam a quase um quarto da última turma de formação, uma das porcentagens mais altas da história.

Dos 77 distritos policiais, oito são liderados por comandantes mulheres, de acordo com o site do Departamento de Polícia. Comandantes mulheres também dirigem duas das nove áreas de policiamento, que patrulham conjuntos habitacionais, e dois dos 12 distritos de trânsito.

Joanne Jaffe, que é uma das duas mulheres de mais alto escalão no departamento como chefe de assuntos comunitários, disse que um comitê de liderança de mulheres trabalhou para facilitar a transição de agentes para sargentos. Ela disse ter enfrentado "desafios e obstáculos tremendos" quando entrou para a polícia, e que o progresso "foi gradual".

Agora as mulheres "estão quase que totalmente integradas em todas as unidades do departamento, e ver uma mulher não é algo chocante", ela disse. "Ver duas mulheres fazendo a patrulha juntas não é nada demais, é rotineiro".

O assassinato de Familia, segundo as autoridades, teve a ver com o ataque a um policial por nenhum outro motivo além de seu uniforme. Para muitos, sua morte lembrou os tiroteios fatais de Rafael Ramos e Wenjian Liu em 2014, e de Edward Byrne em 1988, todos eles mortos dentro de suas viaturas.

"O que me vem à cabeça é a 'igualdade do risco', e que o ódio pela polícia não tem a ver com gênero", disse a assistente-chefe Kim Royster.

As mulheres começaram na polícia como carcereiras para lidar com prisioneiras femininas no final dos anos 1800, disse Thomas Reppetto, um historiador especializado em polícia. Hoje elas ocupam papéis centrais em esquadrões de investigação e grupos de elite como a Unidade de Serviço Emergencial. Mas não foi um caminho sem percalços.

Uma ação judicial na cidade de Nova York abriu caminho para as mulheres fazerem testes para promoções e se tornarem sargentos em 1963; na década seguinte, títulos separados por gênero foram aposentados e as mulheres pararam de usar chapéus especiais.

O sindicato das policiais femininas ajudou na luta por vestiários iguais, missões iguais e oportunidades iguais para promoções. Por volta de 1990, o grupo pressionou para que mulheres grávidas pudessem se candidatar a promoções.

Mas alguns policiais masculinos continuaram expressando reticências quanto a trabalhar com mulheres. Mesmo em 1995, uma policial feminina do 46º distrito policial do Bronx, onde Familia trabalhava, processou policiais masculinos que assediavam mulheres usando xingamentos machistas e assistindo pornografia na delegacia.

Lozada entrou para a academia em 1981, um ano depois que a cidade teve pela primeira vez um número substancial de policiais femininas formadas e colocadas nas ruas. Em 1984, ela foi uma das cerca de 150 mulheres que faziam parte dos 3.500 agentes da força policial de trânsito, que na época era independente do Departamento de Polícia.

Havia tão poucas agentes mulheres na praça que às vezes os supervisores a tiravam das missões, mesmo quando ela estava prestes a pegar um ladrão, para revistar uma suspeita mulher que seus colegas homens haviam detido.

"Ela odiava aquilo", lembra Dennis K. Honor, um investigador aposentado que era noivo de Lozada.

Conhecida como Fran, ela criou seu próprio caminho numa época em que muitas mulheres lutavam para ter um espaço. Ela falava que "se divertia" nas patrulhas e se orgulhava de suas muitas prisões, disse Honor. Às vezes ela também usava maquiagem em serviço, algo que muitas agentes mulheres relutavam em fazer por medo de que os policiais homens não aprovassem.

Lozada levava jeito para acalmar suspeitos que seus colegas homens não conseguiam, e falava que queria se tornar tenente.

Familia, uma mãe solteira de três filhos que também cuidava de sua mãe, teria escolhido o turno da noite para passar tempo com seus filhos. Muitas agentes mulheres mencionaram ter feito essa mesma escolha em detrimento de suas carreiras para que elas pudessem ir buscar seus filhos na escola.

Alguns policiais ficaram com medo de que a morte de Familia fosse desencorajar outras mulheres. Mas Susan M. Czubay, que se aposentou como tenente da cidade de Nova York em 2008, disse que as desigualdades que ela viu nas reações diante da morte de Lozada em parte a motivaram a entrar para a polícia em 1985.

"Eu me lembro que as notícias naquela época quase culpavam o fato de que ela era uma mulher, naquela situação —que foi por isso que ela foi morta", disse Czubay. "Eu me lembro de ter ficado revoltada".

Tradutor: UOL

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