Novo capítulo da suspeita de conchavo com a Rússia prejudica e irrita Trump

Peter Baker e Maggie Haberman

Em Washington*

  • Pablo Martinez Monsivais/AP

Se o presidente Donald Trump saiu de seu encontro com o presidente russo Vladimir Putin na semana passada esperando ter começado a "deixar para trás" a controvérsia a respeito da interferência do Kremlin nas eleições, como colocaram seus assessores, seu voo de volta para casa no dia seguinte deixou claro que ele estava sendo otimista demais.

Enquanto o Air Force One voltava da Europa no sábado, um pequeno grupo de assessores de Trump se reuniu para elaborar uma declaração para o filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., a ser dada ao "The New York Times" explicando por que ele se encontrou no verão passado com uma advogada ligada ao governo russo. Dentro do avião e já de volta aos Estados Unidos, eles debateram o quão transparentes deveriam ser na declaração, de acordo com pessoas a par das discussões.

No final, segundo essas pessoas, o presidente aceitou uma declaração de Donald Trump Jr. para o "New York Times" que era tão incompleta que foram necessárias declarações posteriores durante dias, cada uma delas mais reveladora que a anterior.

Elas culminaram na terça-feira com a divulgação de e-mails que deixavam claro que o filho de Trump acreditava que a advogada russa queria encontrá-lo para lhe fornecer informações incriminadoras sobre Hillary Clinton como "parte do apoio da Rússia e de seu governo a Trump".

A questão da Rússia se tornou o espinheiro do qual o presidente não parece conseguir se desvencilhar. Ela dominou sua viagem para a Europa na semana passada e pode dominar também a viagem que ele faz à França. A cada vez que o Trump pai tenta deixar a polêmica para trás, mais revelações a arremessam de volta para a agenda de Washington.

Entenda o envolvimento da Rússia na política americana

Mesmo antes das notícias mais recentes, a inacreditável disposição de Trump em criar uma equipe conjunta de cibersegurança com a Rússia já havia sido alvo de críticas. Agora pessoas próximas do presidente e de sua equipe jurídica estão em um pelotão de fuzilamento circular, culpando anonimamente uns aos outros pelas decisões tomadas nos últimos dias.

Os e-mails, que Trump filho divulgou depois de descobrir que o "New York Times" havia obtido cópias e estava prestes a publicá-los, fragilizaram a linha de defesa do presidente na investigação sobre a Rússia. Durante meses Trump pai disse que as suspeitas de conluio entre a Rússia e sua equipe eram "fake news" e uma "total balela".

Da mesma forma, seu filho mais velho havia afirmado anteriormente que a ideia de um conluio era "nojenta" e "muito falsa". Donald Trump Jr. disse em uma entrevista à Fox News que ele teria feito as coisas de forma diferente hoje, mas insistiu que não havia feito nada de impróprio.

Contudo, os e-mails no mínimo mostram que o Trump filho estava não somente disposto como ansioso para aceitar ajuda vinda do governo russo. "Adorei", ele escreveu.

Junto com ele na reunião com a advogada russa em junho de 2016 estavam Jared Kushner, seu cunhado e hoje um dos principais assessores da Casa Branca, e Paul J. Manafort, na época diretor de campanha e veterano em campanhas eleitorais, detentor de ligações antigas com um partido ucraniano pró-Rússia.

Tanto Trump filho quanto a advogada russa, Natalia Veselnitskaya, disseram recentemente que nenhuma informação incriminadora sobre Hillary Clinton foi de fato passada durante a reunião na Trump Tower, mas que Veselnitskaya discutiu as sanções americanas impostas sobre russos que transgrediram direitos humanos.

Na entrevista à Fox News na noite de terça-feira, Trump filho disse que Kushner deixou a reunião poucos minutos depois de ela começar.

Embora Donald Trump Jr. esteja sendo o principal foco da controvérsia por ter marcado a reunião, Kushner pode enfrentar problemas porque trabalha atualmente na Casa Branca e deixou de mencionar o encontro em formulários que preencheu durante a verificação de histórico para obter autorização de segurança.

Os e-mails foram descobertos nas últimas semanas pela equipe jurídica de Kushner enquanto revisava documentos, e eles fizeram um adendo a seus formulários de autorização revelando-os, de acordo com pessoas a par dos acontecimentos, que, assim como outros, não quiseram se identificar devido às questões políticas e legais delicadas envolvidas.

Da mesma forma, Manafort mencionou recentemente a reunião para investigadores do Congresso que procuravam indícios de um possível conluio, de acordo com pessoas a par da questão.

A revelação dos e-mails voltou a deixar a Casa Branca na defensiva, com um aumento das tensões dentro da órbita do presidente. Trump está irritado e, a pedido de assessores, não disse nada publicamente em defesa de seu filho até terça-feira, quando emitiu uma declaração de apenas uma frase. "Meu filho é uma pessoa de alta qualidade e eu aplaudo sua transparência", disse Trump. Horas depois, ele acrescentou no Twitter que seu filho "é uma ótima pessoa que ama nosso país!".

Assessores disseram que o presidente ficou irritado não tanto por seu filho, mas mais pelas manchetes. Mas três pessoas próximas da equipe jurídica disseram que ele também lançou sua ira contra Marc E. Kasowitz, seu advogado de longa data, que está liderando a equipe de advogados particulares que o representam. Trump, que costuma descontar sua raiva em assessores em momentos críticos, foi ficando cada vez mais decepcionado com a estratégia de Kasowitz, segundo essas pessoas.

No entanto, a tensão existe de ambos os lados. Kasowitz e seus colegas têm andado profundamente frustrados com o presidente. E eles se queixaram de que Kushner tem tentando influenciar o presidente a respeito das investigações e das questões sobre a Rússia ao mesmo tempo em que mantém os advogados afastados, de acordo com outra pessoa próxima da equipe jurídica. Mas uma pessoa familiarizada com as ideias de Kasowitz disse que suas preocupações não tinham relação com Kushner.

Os advogados do presidente veem Kushner como um obstáculo e um franco-atirador mais preocupado em se proteger do que em proteger seu sogro, segundo essa pessoa. Embora não tenha sido dado nenhum ultimato, os advogados disseram a colegas que eles não podiam continuar operando dessa forma, levantando a possibilidade de uma renúncia de Kasowitz.

Além disso, o presidente esbravejou a aliados próximos que estaria considerando fazer mudanças em seu gabinete, e alguns membros de sua família passaram a voltar os olhares para o chefe de gabinete, Reince Priebus. Mas a maior parte dos assessores de Trump admitem em off que é improvável que grandes mudanças aconteçam tão cedo.

Os acontecimentos provocaram críticas ferozes de democratas e mesmo de alguns republicanos. "Não há prova de nada ainda, mas agora estamos para além da obstrução de justiça em termos do que está sendo investigado", disse na terça-feira o senador Tim Kaine (Democrata-Virginia) e candidato a vice-presidente na chapa de Hillary Clinton no ano passado. "Isso está entrando no campo do perjúrio, das declarações falsas e talvez até mesmo traição".

Os republicanos do Congresso pouco se esforçaram para defender a Casa Branca e alguns expressaram preocupação. "Votei no presidente em novembro passado e quero que ele e os EUA tenham sucesso, mas essa reunião, considerando essa série de e-mails recém-divulgada, é inaceitável", escreveu no Twitter o parlamentar Lee Zeldin (Republicano-Nova York).

A Casa Branca refutou as críticas. Questionada sobre o uso do termo "traição", a porta-voz da Casa Branca Sarah Huckabee Sanders disse: "Acho que essas novas palavras são ridículas".

O filho de Trump e os defensores do presidente disseram que mais uma vez a comoção era injustificada. "A mídia e os democratas estão se dedicando demais a essa questão da Rússia", escreveu Donald Trump Jr. no Twitter. "Se essa reunião absurda é tudo que eles têm depois de um ano, eu entendo o desespero!"

Outros defensores de Trump pai tentaram minimizar as relações de sua equipe com Veselnitskaya argumentando que elas são similares às interações entre membros do governo ucraniano com um consultor do Partido Democrata que procurava informações comprometedoras sobre Trump e associados, inclusive Manafort, durante a campanha.

Em um programa recente, o apresentador da Fox News Sean Hannity, que é próximo de Trump, leu um artigo de janeiro do "Politico" que revelava os encontros de membros da campanha democrata com representantes ucranianos na embaixada do país em Washington. "Onde está a indignação com isso?", perguntou Hannity.

Dentro da equipe de Trump, a resposta para os acontecimentos se tornou alvo de intensa disputa. Três pessoas a par do relato de seu filho disseram que ele fez pressão para oferecer uma explicação completa no sábado quando foi contatado pela primeira vez pelo "New York Times" a respeito da reunião, e disseram que ele perturbou para ter a permissão de se defender publicamente. Mas três outras pessoas envolvidas na discussão deram uma versão completamente oposta dos acontecimentos, insistindo que o Trump filho resistiu inflexivelmente a uma divulgação completa.

Em outra parte, Kasowitz trabalhava separadamente para dar informações para um artigo que estava sendo preparado pela "Circa", um veículo da mídia considerado favorável pela Casa Branca, e não para o "New York Times". De acordo com a pessoa próxima da equipe jurídica, Kasowitz foi mantido fora da discussão sobre a declaração inicial de Donald Trump Jr. e a viu somente depois que já havia sido publicada na internet, no primeiro artigo do "New York Times".

A declaração original, esboçada a bordo do Air Force One por assessores e depois aprovada por Trump pai, dizia somente que a advogada russa havia discutido políticas de adoção durante o encontro, sem mencionar que a reunião havia sido sugerida como uma oportunidade de fornecer informações sobre as relações de Hillary Clinton com a Rússia.

Foi somente depois de o "New York Times" ter se aprofundado na investigação para preparar um novo artigo que Trump filho emitiu uma segunda declaração reconhecendo o fato.

Na terça-feira, os Trumps projetaram uma frente única.

"Esse é o EXATO motivo pelo qual atacam cruelmente nossa família!", postou no Twitter Eric Trump, o segundo filho mais velho do presidente. "Eles não aguentam o fato de que somos extremamente próximos e SEMPRE apoiaremos uns aos outros".

* Com reportagem de Jo Becker (Nova York) e de Kenneth P. Vogel (Washington).

Tradutor: UOL

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