Com foco sobre seus filhos, escândalo coloca política no plano pessoal de Trump

Mark Landler e Maggie Haberman*

Em Washington (EUA)

  • AL DRAGO/NYT

    O presidente dos EUA, Donald Trump, no gramado da Casa Branca

    O presidente dos EUA, Donald Trump, no gramado da Casa Branca

Em particular, o presidente Donald Trump às vezes chama seus filhos adultos de "bebê", um termo carinhoso matizado por um tom de brincadeira nova-iorquina. E agora que os bebês de Trump foram atraídos pelo redemoinho de sua Presidência tempestuosa ele toma as coisas no plano pessoal.

As fortes críticas a um encontro entre o filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., e uma advogada ligada ao Kremlin, em junho de 2016, deixaram o presidente alternadamente furioso, defensivo e protetor, mas afinal aliviado porque, por enquanto, o pior parece ter passado, segundo disseram na quarta-feira (12) pessoas que falaram com ele.

Para Trump, que enfrentou uma bateria de perguntas sobre suas relações com a Rússia, ver os membros mais próximos de sua família sofrerem um duro escrutínio por coisas de que são acusadas de fazer para ajudar em sua campanha presidencial, marcou uma etapa desconfortável na confusão estrangeira que o perturba desde que assumiu o cargo, em janeiro.

As últimas revelações também deram nova atenção ao genro e assessor sênior de Trump, Jared Kushner, que participou da reunião de Trump Jr. em junho do ano passado com a advogada russa Natalia Veselnitskaya. E vieram no rastro de uma decisão muito criticada de sua filha, Ivanka, de ocupar a cadeira vazia do pai na recente cúpula do G-20 na Alemanha.

Na quarta-feira de manhã, Trump descartou pedidos de assessores para que evitasse entrar na tempestade sobre Trump Jr. e publicou uma saraivada de tuítes em defesa do filho. Ele denunciou as reportagens sobre o encontro --para coletar informação incriminadora sobre Hillary Clinton-- como parte da "maior caça às bruxas na história política" e até adotou a teoria de que seu filho pode ter sido "a vítima" no caso.

"Ele foi ótimo", disse Trump às pessoas sobre a participação do filho no programa de Sean Hannity na Fox News na noite anterior.

Às 12h de quarta-feira, o presidente dizia a amigos e assessores que acreditava que a situação tinha melhorado. "Acho que isso está melhorando", disse ele a um grupo de assessores horas antes de decidir viajar à França para marcar o Dia da Bastilha.

Lucas Jackson/ Reuters
Donald Trump Jr. (esq.), Jared Kushner (centro) e Donald Trump (dir.) depois de debate com Hillary Clinton durante campanha presidencial, em setembro de 2016

A família Trump, segundo amigos, sempre se une sob pressão intensa. Mas Trump se irrita com a ideia de que seus filhos, que não passaram anos sob o olhar do público como ele, hoje estejam sendo constantemente observados por causa do que ele acredita ser um escândalo fabricado pela mídia.

Enquanto Donald Trump Jr. esteve na linha de fogo, a reunião com Veselnitskaya poderia até ser um problema maior para Kushner. Como assessor sênior do presidente, ele está envolvido em várias das questões mais delicadas de política externa do governo, da China ao processo de paz no Oriente Médio. Seu envolvimento na reunião levou a imprensa a perguntar à Casa Branca se ele ainda tem um passe de segurança.

Também está em análise a questão de até que ponto Kushner foi sincero com seu sogro sobre a natureza da reunião de junho. Ele se encontrou com Trump para debater a questão, segundo assessores da Casa Branca, mais ou menos na época em que atualizou seu formulário de revelação federal para incluir o nome de Veselnitskaya em uma lista de contatos estrangeiros que Kushner teve de apresentar ao FBI para obter o passe de segurança.

Kushner complementou a lista de contatos três vezes, acrescentando mais de cem nomes, segundo pessoas próximas a ele.

Kushner minimizou a importância do encontro e omitiu detalhes significativos, segundo duas pessoas informadas sobre o intercâmbio. Elas disseram que Kushner informou ao presidente que ele havia se encontrado com uma russa, e que embora não tenha relatado o nome isso não causaria um problema para o governo.

Outra autoridade disse que a garantia dada por Kushner ao presidente se baseou no fato de que a reunião em junho não deu resultados.

Em uma entrevista à agência Reuters, Trump afirmou que não lhe disseram no verão passado que seu filho iria se reunir com uma advogada russa. "Não, eu só soube alguns dias atrás, quando ouvi falar nisso", disse ele.

Kushner, segundo colegas, mantém uma agenda de trabalho regular. Encontrou-se na quarta-feira com Gary Cohn, o diretor do Conselho Econômico Nacional, para discutir as próximas medidas do governo sobre comércio.

Ele também está em contato com Jason Greenblatt, o enviado de Trump ao Oriente Médio, que está em Israel para reuniões com líderes israelenses e palestinos. E na próxima semana pretende participar de um diálogo econômico de alto nível com a China.

Kushner e sua mulher, Ivanka, não acompanharam Trump a Paris. Eles pretendem participar da conferência anual de mídia em Sun Valley, em Idaho, patrocinada pela firma internacional de investimentos Allen & Co. Uma autoridade disse que o casal pagará pela viagem e a hospedagem.

Kushner deverá cooperar nas próximas semanas com as Comissões de Inteligência do Senado e da Câmara que examinam a intervenção da Rússia na eleição americana e qualquer possível conluio com a campanha de Trump. Ele terá de dedicar algum tempo a preparar-se para essas audiências com sua equipe de advogados.

Colegas de Kushner disseram que ele continua enfocado e animado, apesar do barulho das manchetes negativas --uma característica que eles atribuem à sua experiência tratando dos problemas jurídicos de seu pai, Charles Kushner, que foi condenado por sonegação de impostos e manipulação de testemunhas.

Mas embora a Casa Branca se esforce para apresentar uma fachada de normalidade há evidências de que a família Trump será levada mais fundo na investigação. Duas autoridades próximas da investigação da Comissão de Inteligência do Senado disseram que esta pretende expandir seu inquérito para incluir Donald Trump Jr.

As autoridades disseram que a mudança de razões de Donald Jr. para o encontro --e seu reconhecimento de que ele foi atraído pela promessa de sujeira russa contra Hillary Clinton-- obrigou o Senado a começar a examinar seu papel na campanha e os contatos que ele porventura teve com os russos.

O primeiro passo, disseram as autoridades, seria que os investigadores do Senado convocassem Donald Trump Jr. A comissão do Senado poderia também requerer que ele entregue e-mails e registros financeiros de qualquer tratativa com a Rússia, o que fizeram com outros alvos da investigação.

Ao mesmo tempo, Kushner hoje ganha importância no inquérito do Senado, segundo as autoridades. Seus investigadores concluíram já em março que suas reuniões, durante a transição do governo, com o embaixador russo e um banqueiro russo ligado ao Kremlin mereciam maior escrutínio.

Para o presidente, segundo amigos, o sofrimento de ver seu filho envolvido no escândalo da Rússia foi real. Em parte, porque, de todos os filhos, ele teve o relacionamento mais complicado com Donald Jr., que era adolescente quando os pais se divorciaram e não falou com o pai durante um ano.

Amigos que conhecem a família Trump há muitos anos disseram acreditar que Donald Jr., ao marcar a reunião, só estava tentando ajudar --e até impressionar-- seu pai com informações que pudessem beneficiar sua campanha.

Trump também foi protetor com seus outros filhos. Depois que Ivanka sofreu críticas por ocupar o lugar do pai na Alemanha, ele a defendeu em um tuíte e citou Angela Merkel, a chanceler alemã. "Quando saí da sala de conferência para reuniões rápidas com o Japão e outros países", disse ele, "pedi a Ivanka para guardar meu lugar. Muito comum. Angela M concorda!"

Ninguém fez uma defesa mais apaixonada de Ivanka que Donald Trump Jr.

"Vejam os ataques a Ivanka", disse ele a Hannity na terça-feira à noite. "Se ela fosse filha de qualquer outra pessoa, seria um ícone feminista --é uma mulher incrível, brilhante, comunicativa. E eles tentam diminuí-la por qualquer motivo. É realmente triste."

"Para mim, como membro da família, como seu irmão, seu irmão mais velho, você sabe, você leva a coisa no plano pessoal e lhe dá vontade de revidar", acrescentou. "O que nós somos é que somos lutadores e eles não aceitam bem isso também, porque a maioria das pessoas não gosta de ser confrontada."

*Colaboraram Peter Baker e Matthew Rosenberg, de Washington e Jo Becker, de Nova York 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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