Na China, renascimento religioso desperta desejo de proteção ambiental

Javier C. Hernández

Montanha de Mao (China)

  • ADAM DEAN/NYT

    Padre caminha nas escadas da estátua de Lao-tzu, próxima ao templo Montanha de Mao, na China

    Padre caminha nas escadas da estátua de Lao-tzu, próxima ao templo Montanha de Mao, na China

Longe das usinas que cospem fumaça nas cidades próximas, sobre um monte coberto de painéis solares e magnólias floridas, Yang Shihua fala sobre a necessidade de uma revolução.

Yang, o abade da Montanha de Mao, um local sagrado taoísta no leste da China, está cada vez mais frustrado com a indiferença diante da terrível crise de poluição que deixou a terra estéril e o céu de um cinza assustador.

Por isso ele decidiu promover a ação por meio da religião: construiu um templo ecológico de US$ 17,7 milhões (R$ 56,8 milhões) e cita textos de 2.000 anos para criticar o desperdício e a poluição.

"A China não precisa de mais dinheiro, precisa de respeito pelo meio ambiente", disse Yang. "Nossa moral está em decadência e nossas crenças se perderam."

Centenas de milhões de pessoas na China se voltaram nos últimos anos para religiões como taoísmo, budismo, cristianismo e islamismo, em busca de um sentido de propósito na vida e uma escapatória da cultura consumista chinesa.

ADAM DEAN/NYT
Pessoas caminham no novo templo 'Montanha Mao', na China

Agora o renascimento religioso do país está ajudando a promover um despertar ambientalista.

Líderes espirituais estão invocando conceitos como karma e pecado ao criticar os excessos do desenvolvimento econômico. Os fiéis religiosos criam organizações de serviços sociais para servir de vigilantes contra a poluição.

Ativistas citam sua fé para protestar contra projetos de construção de fábricas e usinas de energia perto de suas casas.

"Certamente é uma força muito poderosa", disse Martin Palmer, o secretário-geral da Aliança de Religiões e Conservação Ambiental, um grupo que trabalha com líderes espirituais chineses. "As pessoas estão perguntando: 'Como você dá sentido à vida?' Muitas delas procuram algo maior que elas mesmas, e isso é cada vez mais o meio ambiente."

O governo chinês, que regulamenta os credos religiosos e limita o ativismo, até agora tolerou a ascensão dos ambientalistas religiosos.

O presidente Xi Jinping defendeu o estudo das tradições chinesas, incluindo o taoísmo e o confucionismo, em parte para contrabalançar a influência das ideias ocidentais na sociedade chinesa.

Ao articular o sonho chinês, Xi pediu um retorno às origens da China como uma "civilização ecológica" --uma visão que ele descreveu como "águas limpas e montanhas verdes" por toda a terra.

A Montanha de Mao, com suas áreas de terras virgens, representa um monumento à natureza. Chongxi Wanshou, o templo ecológico de Yang, com 80 mil m2 que incluem uma horta orgânica, foi inaugurado em agosto de 2016.

Perto dele há uma estátua gigante de Lao-tzu, o fundador do taoísmo, que é venerado aqui como um "deus verde". Há colmeias de abelhas dependuradas e placas que lembram aos transeuntes que os galhos e as árvores são sinônimos de vida.

ADAM DEAN/NYT
Yang Shihua na Montanha Mao, na China

Os líderes espirituais da montanha dizem que buscam definir um tipo claramente chinês de ambientalismo, enfatizando a harmonia com a natureza em vez de ideias ocidentais de "salvar a Terra".

Xuan Jing, um monge taoísta, disse que as ideias ocidentais sobre meio ambiente se concentram em tratar os sintomas do problema, e não a doença subjacente.

"Você precisa curar a alma antes de poder curar os sintomas", disse ele. "A raiz está nos desejos humanos."

Enquanto tomava chá, ele expôs os ensinamentos taoístas: "Os humanos seguem a terra, a terra segue o céu, o céu segue o taoísmo, o taoísmo segue a natureza".

Muitos líderes espirituais também são energizados pelo que eles consideram uma oportunidade para a China se tornar um líder global em questões ambientais, com os EUA mostrando novo ceticismo em relação a causas como o combate à mudança climática.

"Todos vivemos juntos no planeta, não estamos isolados", disse Yang ao criticar a decisão do presidente Donald Trump de se retirar do acordo climático de Paris. "Como taoístas, temos de trabalhar para influenciar as pessoas na China e em outros países para que participem da proteção ecológica."

O ambientalismo também está se infundindo em outras religiões na China, inspirando budistas, cristãos e muçulmanos a entrar em ação.

Em Nanjing [Nanquim], capital da província de Jiangsu, a cerca de uma hora da Montanha de Mao, Li Yaodong, 77, um funcionário público aposentado e budista, é o fundador de uma organização sem fins lucrativos chamada Mochou, ou "livre de preocupações", dedicada a limpar os lagos poluídos.

Li disse que viu paralelos entre sua fé e a proteção do ambiente. Ele lidera por meio de exemplos, usando roupas de segunda mão dadas por seus filhos e coletando objetos usados para enviar de volta às fábricas.

"De uma perspectiva da proteção ambiental, economizar significa reduzir as emissões de carbono", disse ele. "De uma perspectiva budista, significa acumular méritos e praticar boas ações."

ADAM DEAN/NYT
Visitante caminha dentro do complexo do templo "Montanha Mao", na China

Muçulmanos e cristãos também estão se manifestando sobre questões ambientais, utilizando sua fé para galvanizar as massas. A China abriga mais de 60 milhões de cristãos e mais de 20 milhões de muçulmanos, segundo algumas estimativas.

Shen Zhanqing, um pastor que trabalha para a Amity Foundation, uma entidade cristã, disse que muitos membros de igrejas se sentem inspirados pela religião para ajudar a proteger o meio ambiente.

A fundação organizou grupos de estudo sobre questões como a redução das emissões de carbono e a mudança climática e incentiva os membros a ir à igreja de ônibus.

"A decadência do ser humano destruiu o meio ambiente na China", disse Shen. "Nosso objetivo é proteger a criação de Deus."

Na Montanha de Mao, os monges se reúnem toda manhã para ler textos antigos e escrever em caligrafia ao lado de rochas e árvores.

Centenas de visitantes sobem as escadas todos os dias para prestar homenagem a Lao-tzu. Para limitar a poluição, eles são proibidos de queimar mais de três bastões de incenso por pessoa.

Yang dedica grande parte do tempo a convencer as autoridades de toda a China a reservar áreas para a proteção da natureza, uma ideia impopular em muitas regiões.

Ele também trabalhou para atrair jovens urbanitas ricos para o taoísmo. Muitos deles estão carentes de uma causa espiritual e reagiram calorosamente à adoção do ambientalismo pelos líderes taoístas.

As autoridades taoístas também se manifestaram em reuniões de lideranças nacionais nos últimos anos, pedindo que o governo tome mais medidas para evitar catástrofes ambientais.

O abade reconheceu que pode parecer estranho que taoístas, praticantes da filosofia "wu wei", ou inação, estarem liderando um apelo por mudança. Mas é importante dar o exemplo, disse ele.

"O taoísmo tem quase 2.000 anos de história, a proteção ambiental é novidade para nós", disse ele. "Precisamos agir."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos