Onde o empoderamento da mulher significa o levantamento de peso

Kate Sinclair

Em Nova York (EUA)

  • Laurel Golio/The New York Times

    Participante da competição Levantamento pelo Orgulho, em Nova York (EUA)

    Participante da competição Levantamento pelo Orgulho, em Nova York (EUA)

Não há nada como assistir uma mulher de 1,53 m, usando lantejoulas, levantar mais de duas vezes o peso de seu corpo e então celebrar com um chute alto. Enquanto os espectadores vibravam com ela, a locutora anunciou: "Ela detonou o patriarcado com esse levantamento!"

O playlist estava mais para Beyoncé do que Black Sabbath no Levantamento pela Planned Parenthood (ONG de planejamento familiar), a primeira competição de levantamento de peso exclusivamente feminina organizada pela Coalizão de Força das Mulheres, um novo grupo de levantamento de peso que combina feitos de força com ativismo político. O evento, que ocorreu em 23 de abril no Brooklyn Athletic Club em Williamsburg, contou com 35 participantes e cerca de 150 espectadores.

Muitas levantadoras de peso trocaram a roupa tradicional por qualquer traje que as deixasse mais confortáveis. Crianças corriam por entre o público em scooters. Uma mulher levantou triunfantemente no ar seu filho que ria após um levantamento terra de quase 136 kg.

Shannon Wagner, 31 anos, fundadora da coalizão, descreveu seu relacionamento com o halterofilismo, um esporte onde as concorrentes realizam movimentos de levantamento terra, agachamento e supino com o máximo de peso possível, como sendo uma "experiência reveladora". Após anos combatendo distúrbios alimentares, ela se deparou com o esporte em 2014 e aprendeu sozinha a levantar peso.

"Assim que percebi que era como focar em ficar forte em vez de ficar magra", ela disse, "isso realmente ajudou na minha cura".

Wagner, que se tornou especialista em condicionamento físico e halterofilismo, disse que decidiu compartilhar seu conhecimento com outras em uma maior escala após participar da Marcha das Mulheres a Washington, em janeiro. Enquanto marchava, ela pensou no que mais poderia fazer para trabalhar seus sentimentos de impotência após a eleição presidencial.

E então lhe ocorreu: era finalmente hora de iniciar uma organização na qual já pensava há algum tempo, uma que encorajaria as mulheres e as deixaria mais fortes, literalmente.

"Protestar não parecia ser suficiente", disse Wagner. "Eu queria ação em vez de reação. Queria criar uma caridade de levantamento de peso capaz de realmente ajudar as mulheres."

Dois meses após a criação da coalizão, Wagner organizou seu primeiro evento oficial de arrecadação de fundos em Williamsburg: o Levantamento pela Planned Parenthood. Ela ficou chocada com a resposta. O registro se esgotou em seis dias e o evento esteve repleto de pessoas competindo pela primeira vez, prometendo arrecadar um dólar para cada libra (0,45 kg) levantada. Voluntárias fizeram fila para ajudar. No final, Wagner conseguiu doar quase US$ 15 mil para a organização nacional sem fins lucrativos.

Uma das competidoras estreantes, Sayeeda Chowdhury, 22 anos, começou apenas recentemente a levantar peso.

"Sendo muçulmana", ela disse, "o ciclo eleitoral foi uma das piores coisas e lidar com ele em meio ao curso de medicina no Mount Sinai apenas adicionava outro nível de tensão e trauma".

Chowdhury disse que estava precisando desesperadamente de um impulso de confiança quando uma amiga se ofereceu para treiná-la em levantamento de peso e mencionou a Coalizão de Força das Mulheres. Chowdhury se inscreveu imediatamente. E progrediu rapidamente.

"Sou uma mulher de 1,55 m que usa hijab", ela disse. "Frequentar uma academia não é uma das coisas mais agradáveis. É uma sala cheia de testosterona com todos levantando pesos realmente pesados."

"Após algum tempo", ela acrescentou, "aprendi a assumir meu próprio espaço e comecei a levantar mais que as outras pessoas".

Usando um vibrante hijab vermelho no Levantamento pela Planned Parenthood, Chowdhury concluiu habilmente todos os seus levantamentos. "O halterofilismo lhe dá confiança para tomar uma sala", ela disse. "Tenho uma narrativa. Tenho uma voz. Tenho uma história singular a contar e não tenho mais medo de contá-la."

Laurel Golio/The New York Times


No mês passado, a coalizão realizou um evento chamado Levantamento pelo Orgulho no Murder of Crows Barbell Club, em Crown Heights, Brooklyn, com eventos irmãos em Minneapolis, Washington e San Francisco. As quatro competições apenas de levantamento terra arrecadaram mais de US$ 30 mil para lésbicas, gays, bissexuais e pessoas transgênero vulneráveis.

"Não havia julgamento e sim abundância de cumprimentos e bandeiras de arco-íris", disse Katie Zanin, uma participante de 28 anos da competição no Brooklyn.

O próximo, o Dia de Atividade ao Ar Livre Adulto em 10 de setembro, no McCarren Park no Brooklyn, levantará dinheiro para a Rise Youth Athletics, uma organização sem fins lucrativos que dá aulas de fitness para crianças.

O levantamento de peso, disse Wagner, "exige certa quantidade de tenacidade e perseverança para adição de peso à barra e lutar por cada libra".

"Essas mulheres sabem como é tentar e tentar e não têm medo do fracasso", ela acrescentou. "Essa perseverança se traduz em outras áreas da vida."

Lara Hogan, 31 anos, uma diretora de engenharia da Etsy, passou toda sua carreira "em salas cheias de homens". Mas quando começou a levantar peso há um ano e meio, isso mudou a forma como se sentia no trabalho. "Há algo em se sentir fisicamente forte em uma sala intimidante ou em uma sala onde se sente insegura", ela disse.

Poucas semanas antes de competir, Hogan participou de uma reunião executiva difícil. "Eu me sentia fora de lugar", ela lembrou. A certa altura um quadro branco pesado precisava ser erguido ao palco. Um homem na reunião que ela disse ser treinado em CrossFit foi chamado para ajudar, mas ele não conseguiu levantá-lo sozinho. Ele pediu para que Hogan o ajudasse. Os dois conseguiram.

"Isso mudou toda a dinâmica da sala", disse Hogan, que acrescentou que também mudou sua experiência na reunião. "Como me senti fisicamente forte, consegui parecer e me sentir como uma líder. E também consegui agir dessa forma."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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