Transferências de jogadores no futebol foram as primeiras "fake news"

Rory Smith

  • Getty Images

Na mesma rua do escritório de Declan Varley em Galway, na Irlanda, fica uma estátua de Pádraic Ó Conaire, um prolífico ensaísta e escritor irlandês, que é considerado o primeiro grande autor de ficção em língua irlandesa. Entre seus trabalhos mais famosos estão o conto "M'asal Beag Dubh", ou "Meu pequeno asno preto". Foi essa história que deu a ideia a Varley.

Embora viva na pitoresca costa oeste da Irlanda, Varley se descreve como um "ávido" torcedor do Arsenal Football Club de Londres. Alguns anos atrás, Varley, há muito acostumado a passar seus verões "agarrando cada pedacinho" de especulação de transferência sobre seu time, tentou buscar informações na internet sobre qual jogador o técnico do Arsenal, Arsène Wenger, traria ao clube.

Como jornalista --hoje Varley é editor do "Galway Advertiser"-- ele achou a experiência toda frustrante. Durante os dois meses da janela de transferência, ele passou horas peneirando artigos repletos de fontes anônimas e sem verificação, todos supostamente revelando a identidade da próxima grande contratação do Arsenal. "Era tudo Messi indo para o Arsenal e coisas do tipo", ele disse. "Baseado em nada". Somente algumas das mudanças noticiadas aconteceram.

O miasma da desinformação levou Varley a se lançar àquilo que ele chama de "experimento social", embora outros pudessem identificá-lo mais precisamente como farsa. Ele decidiu que queria "ver o quão longe uma invenção conseguia chegar".

Então, no verão de 2008, ele inventou um jogador. Ele seria um promissor rapaz de 16 anos vindo de Moldova, um país distante o suficiente para que suas raízes fictícias não pudessem ser facilmente desmascaradas. E seu nome viria direto da estátua de Ó Conaire. Afinal, a trama de seu conto gira em torno de um personagem que "sabe que seu asno é inútil, mas tenta vendê-lo a quem oferecer mais", disse Varley. "Então existia uma correlação com o mercado de transferências".

Seu jogador seria uma interpretação fonética do título de Ó Conaire: Masal Bugduv.

Verdades elusivas

Muito antes de a ascensão do presidente Donald Trump tornar a frase inevitável, o futebol forneceu o terreno mais fértil imaginável para o que passamos a chamar de "fake news" (notícias falsas).

Agora Trump tuíta e fala sobre "fake news" sem parar, geralmente quando lê ou vê algo que não lhe agrada. Políticos do mundo inteiro usam o termo como uma crítica incisiva para dissipar qualquer acusação que eles considerem incômoda. Astros do esporte e celebridades têm recorrido a ele cada vez mais como um mecanismo de defesa. (Quando Mesut Özil do Arsenal teve sua conta do Instagram hackeada este mês, ele pediu para que as pessoas parassem de espalhar "fake news".)

O termo tem sido usado com tanta frequência, que se pode argumentar que, por significar praticamente tudo, ele não significa mais nada. Contudo, para a maioria ele significa uma história onde os fatos são tão controversos ou distorcidos que a verdade em si se torna fluida. É uma história elaborada para se enraizar em um ambiente explicitamente partidário: não importa tanto se é verdadeira ou não, mas sim se seu público pretendido quer que ela seja verdade. É um fenômeno que o futebol explorou durante algum tempo.

No contexto dos esportes, a unidade mais básica de construção de um ambiente de pós-verdade pode ser testemunhada quase toda semana: a decisão de um árbitro que custa a vitória de um time é apoiada pelo técnico que se beneficiou, e condenada pelo que foi prejudicado. Jogadores e torcedores se apegam à interpretação que mais lhes convém, e a mídia noticia diligentemente a controvérsia que se segue.

Mas é durante os longos e frenéticos dias da janela de transferência do verão, quando o futebol em si se torna secundário ao mercado da venda de jogadores, que essa tendência atinge sua forma mais pura. É quando fato e ficção se misturam, quando clubes, técnicos e agentes dão informações clandestinas de suas próprias versões dos acontecimentos, quando a verdade em si se torna elusiva.

Este mês, no decorrer de um único dia, fontes não identificadas próximas do Manchester United confirmaram a repórteres que o clube havia concordado em pagar ao Everton 75 milhões de libras (cerca de R$ 310 milhões) pelo atacante Romelu Lukaku. Fontes do Everton negaram. Fontes do Chelsea, outro dos pretendentes ao atacante, afirmaram que o clube ainda tinha esperanças de fechar um contrato com Lukaku.

Nem tudo isso poderia ser verdade. É possível que nada disso fosse. A verdade que você aceita depende muito de qual mais lhe convém.

Invenção da vida real

Foi por esse motivo que, em 2008, Varley construiu sua farsa aos poucos, com cuidado, usando todo seu conhecimento profissional. Ele criou as características de Bugduv com base em Wayne Rooney -- "forte, para que ele pudesse se encaixar em uma equipe imediatamente"-- mas ele não o fez como um "super-herói". Ele imaginou que a verossimilhança seria o segredo. Em sua equipe moldávia fictícia, Bugduv teria inicialmente um papel coadjuvante, em vez de marcar infinitos gols a cada partida.

Varley começou a espalhar notícias sobre Bugduv em vários fóruns de discussões. Cada postagem era escrita no estilo da Associated Press: sem floreios retóricos, diretas, somente os fatos. Ele criou um jornal moldávio fictício, intitulado com um trocadilho vulgar irlandês, e criou um agente para Bugduv.

Quando ele estava pronto para promover Bugduv à seleção nacional da Moldova --onde ajudou a derrotar Luxemburgo-- Varley escreveu uma história associando-o ao Arsenal e a postou na internet. O boato começou a se espalhar. A maior parte das postagens iniciais sobre Bugduv vinha das contas de Varley, mas logo o nome de Bugduv passou a ser mencionado em outros lugares, de forma espontânea.

"As pessoas acreditam no que querem acreditar", disse Varley. "E existe um desejo de ser visto como se você estivesse por dentro das coisas, de não querer admitir que você não está à frente das coisas".

É claro, uma hora a farsa acabou sendo desmascarada. Mas até lá Varley sentiu que sua teoria havia sido provada. Sua invenção conseguiu alcançar até respeitadas publicações tradicionais, chegando a constar em uma lista dos 50 jogadores mais promissores da Europa (na 30ª posição).

"Não era para ser de maldade", disse Varley. Contudo, ele conseguiu demonstrar que o futebol era o ambiente perfeito para a proliferação de notícias falsas. Olhando hoje, ele considera Bugduv como "o primeiro jogador de futebol da pós-verdade".

Condições perfeitas

Em um dia deste mês, o site independente de futebol Football365, que foi lançado em 1997, recebeu mais visitas únicas do que em qualquer outro dia de sua história. Foi no começo de julho. A Copa das Confederações havia terminado, assim como os campeonatos europeus sub-21. A temporada da Premier League ainda demoraria semanas para começar. Então as visitas provavelmente vinham de pessoas em busca de atualizações sobre rumores de transferências.

Essa demanda é atendida por uma oferta inesgotável. Wender costuma se queixar de que o Arsenal é associado a centenas de jogadores todo verão. Segundo uma das estimativas, o Manchester United foi associado a mais de 50 antes mesmo de abrir a janela da transferência, mas contratou somente um jogador, um jovem zagueiro sueco chamado Victor Lindelof, antes de finalmente acrescentar Lukaku esta semana. (Pelo menos uma dessas notícias do início de julho era verdadeira, aparentemente.)

O fato de a grande maioria dos rumores nunca se provar verdadeiro aparentemente não desanima as pessoas. Muito pelo contrário. Como Varley descobriu com Bugduv, o que importa não é a verdade nua e crua, mas sim a versão mais atraente da verdade. No intervalo entre temporadas, ouvir que seu clube poderia contratar um jogador é o melhor substituto para as partidas em si.

No mundo sedento por rumores das mídias sociais e dos fóruns de discussões, qualquer um que forneça essa dose pode viralizar. Todos os anos surge um punhado de contas em mídias sociais de supostos agentes ou de pessoas com informações privilegiadas, tentando ganhar algo ao oferecer essas histórias que jornalistas estabelecidos não podem ou não querem noticiar. Algumas, como no memorável caso de Duncan Jenkins—descrito por seu criador, um redator chamado Sean Cummins, como sendo possivelmente o "primeiro jornalista da pós-verdade"—são piadas que saem de controle. Outras são pensadas para serem mais maliciosas.

Mas outras conseguiram encontrar um meio de sobreviver e prosperar, aprendendo como operar em um ambiente onde os fatos são fluidos e a grande mídia não é vista como abrangente, ou nada confiável.

Indy Kaila --fundador do IndyKaila, uma marca de mídia social dedicada a transferências-- começou a tuitar rumores em 2012.

"Eu tinha alguns amigos que trabalhavam na mídia", ele disse. "Eles costumavam me contar coisas, e eu comecei a apostar naquilo. Reparei que quando eu tuitava --'Ouvi isso, aposto nisso'-- comecei a ganhar seguidores".

Cinco anos depois, Indy Kaila tem mais de 250 mil seguidores em sua conta no Twitter, e quase 5 mil no Facebook. Ele alega --embora não seja possível verificar-- que agora emprega pessoas para ajudar a administrar suas contas de mídias sociais. Entretanto, sua identidade continua sendo meio que um mistério: ele reluta em revelar onde mora, sua ocupação ou seu nome completo.

De qualquer forma, Indy Kaila hoje tem acordos com alguns patrocinadores, embora não confirme se fofocas sobre transferências são sua principal fonte de renda. Durante algum tempo ele teve até mesmo um programa em uma estação local de rádio em Leicester.

Ele próprio se tornou uma espécie de feed de notícias. "Eu sempre coloco 'breaking' na frente das coisas que estão sendo noticiadas em outros lugares", ele diz. "Se eu coloco 'exclusivo', significa que é informação própria minha. Deixo isso claro para meus seguidores".

Desde o começo, toda vez que ele postava um rumor, alguém respondia que ele era um zé-ninguém, um oportunista, um farsante. Isso ainda acontece, embora não o tenha impedido de ganhar um séquito ou o dissuadido de fazer postagens. Isso porque é basicamente irrelevante o nível de confiabilidade de suas informações no início: ele diz que hoje recebe dicas de fontes confiáveis --"funcionários subalternos de clubes"-- e alega ter sido contatado, em diversas ocasiões, pelos próprios jogadores, que perguntavam qual era a fonte de sua informação. O falso pode ser verdadeiro, e o verdadeiro pode ser falso.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos