Análise: Como os alimentos na Venezuela passaram de subsidiados a escassos

Mercy Benzaquen

  • AP Photo/Ariana Cubillos

    1.jul.2017 - Manifestantes diante de um grafite com os dizeres "fome" durante um protesto em Caracas, na Venezuela

    1.jul.2017 - Manifestantes diante de um grafite com os dizeres "fome" durante um protesto em Caracas, na Venezuela

A Venezuela já foi um dos países mais ricos da América do Sul, mas os preços dos alimentos subiram às alturas nos últimos anos, forçando muitos a saírem à procura de restos para comer. O preço da cesta básica agora está equivalendo a cinco salários mínimos. 

Em 1º de julho, o salário mínimo foi aumentado pela terceira vez neste ano, para ajudar a controlar a inflação. Ainda assim, o aumento contribuiu pouco para ajudar as famílias em dificuldades e a taxa de inflação do país pode chegar a 720% neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional. 

Desde abril, manifestantes têm tomado as ruas, exigindo ajuda alimentar internacional e eleição presidencial antecipada. Mais de 90 pessoas foram mortas nas manifestações. Um grupo local de direitos humanos relatou que mais de 3.600 pessoas foram presas. 

Aqui estão os fatores que levaram à crise alimentar: 

Excesso de gastos da Venezuela durante o período de preços elevados do petróleo 

Eleito em 1998, o presidente Hugo Chávez se tornou extremamente popular por sua promessa de dividir a riqueza do petróleo do país com os pobres e garantir segurança alimentar. Para financiar sua agenda de "Socialismo do Século 21", ele passou a fazer uso das receitas do petróleo, que representavam 93% das exportações em 2008. 

O governo importava bens e os vendia a preços subsidiados para deixar os alimentos a preços acessíveis aos pobres do país. 

A crise na Venezuela

Com o colapso dos preços do petróleo, os gastos públicos se tornaram insustentáveis 

No final de 2014, a entrada de dinheiro do petróleo despencou. A Venezuela tinha economizado pouco durante o boom dos preços do petróleo dos anos 2000. Sob o sucessor de Chávez, o presidente Nicolás Maduro, o país reduziu as importações e passou a usar as reservas cada vez menores para pagamento de sua dívida externa e evitar um calote. Como resultado, alimentos e medicamentos se tornaram escassos. 

Para piorar o problema, uma série de ações do governo paralisou a produção local de alimentos 

Por anos, as receitas do petróleo permitiram ao governo importar mais bens de consumo. Enquanto isso, o governo endureceu as regulações, sufocando a produção doméstica. Quando o país cortou as importações, os produtores locais enfraquecidos não puderam atender a demanda. 

Tomada de propriedades privadas: o governo tentou redistribuir a riqueza do país ao se apropriar agressivamente de centenas de empresas privadas e centenas de milhares de acres de terras. Essa política visava transferir a propriedade de mãos privadas para o controle do governo, disse Daniel Varnagy, um professor da Universidade Simón Bolivar. Mas a apropriação de ativos foi mal administrada, enfraquecendo ainda mais a produção doméstica. 

Controle cambial: As empresas privadas que sobreviveram ao confisco do governo enfrentaram obstáculos adicionais. O governo criou controles cambiais em 2003, tornando-se o único administrador dos dólares americanos no país.

A maioria das empresas privadas passou a ter dificuldade para comprar os dólares necessários para importação de matéria-prima e maquinário para produção local de bens, disse Ricardo Hausmann, diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Escola Kennedy de Harvard. Isso abriu a porta para um mercado paralelo, onde um dólar agora pode ser vendido por mais de 700 vezes seu valor oficial. 

O governo restringiu ainda mais o acesso aos dólares americanos após o colapso dos preços do petróleo, dando acesso prioritário às empresas do setor público e forçando mais empresas privadas a recorrer ao mercado paralelo. Incapazes de arcar com os preços do mercado paralelo, muitas cortaram as importações, provocando um desaparecimento ainda maior de produtos das prateleiras. 

Regulação da produção: Com menos subsídios aos produtos, o governo adotou uma Lei de Preços Justos para tentar controlar os custos. A nova lei regulou a produção, distribuição e preços dos produtos. Essas medidas tornaram muitas empresas deficitárias, as obrigando a suspender a produção e agravando a escassez, disse Félix Seijas, um professor da Universidade Central da Venezuela. Além dos custos elevados, os produtores rurais se queixaram da indisponibilidade de fertilizantes e equipamentos agrícolas, e em caso de quebra de uma peça de uma máquina, toda a cadeia de suprimento pode ser paralisada. 

Mas o governo atribui a culpa pela escassez de alimentos a uma "guerra econômica" travada por sua oposição e por inimigos estrangeiros, acusando as empresas privadas de reduzirem intencionalmente a produção em uma tentativa de desestabilizar o país. 

Como resultado, os venezuelanos passaram a depender de importações cada vez mais caras ou do mercado negro. Para muitas pessoas, itens básicos como ovos e arroz se tornaram inacessíveis. 

Essas políticas resultaram em escassez de alimentos e aumento da miséria 

Durante o boom dos preços do petróleo, o percentual de lares na pobreza caiu de 53% para 29%. O governo não divulga dados sobre a pobreza desde 2015. Mas um levantamento feito por três das principais universidades do país indica que nos últimos anos o governo subestimou o nível da pobreza, que chegou a 82% em 2016. 

Segundo o levantamento, cerca de 9,6 milhões de pessoas comem duas refeições ou menos por dia e 93% da população não têm como comprar alimentos.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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