História de ganenses revela os riscos em ser refugiado nos EUA e no Canadá

Catherine Porter

Em Winnipeg (Canadá)

  • Aaron Vincent Elkaim/The New York Times

    Seidu Mohammed, que perdeu seus dedos após gangrenarem pelo frio ao atravessar a fronteira entre EUA e Canadá, em Winnipeg

    Seidu Mohammed, que perdeu seus dedos após gangrenarem pelo frio ao atravessar a fronteira entre EUA e Canadá, em Winnipeg

Existem muitas diferenças entre os dois refugiados ganenses em Winnipeg, mas as mais significativas se resumem a um único polegar.

Razak Iyal e Seidu Mohammed se tornaram a face pública do desespero entre refugiados nos Estados Unidos após a eleição do presidente Donald Trump. Um caminhoneiro os encontrou quase congelados ao norte da fronteira canadense na véspera de Natal. Eles haviam andado --por vezes com neve até a cintura-- por campos de fazendas para evitar serem deportados dos Estados Unidos. Seus dedos estavam tão gangrenados pelo frio que todos eles tiveram de ser amputados --com exceção do polegar direito de Iyal.

Esse único dedo significa que ele consegue preparar seu próprio café da manhã, vestir suas roupas e puxar o botão da máquina de lavar roupa. "Esse polegar que me restou ajuda muito", disse Iyal, 35, que era dono de uma loja de eletrodomésticos em Acra, Gana. "Agradeço a Deus por isso".

Ambos os homens ganharam permissão para ficar permanentemente no Canadá. Mas embora eles estejam reconstruindo suas vidas, sua história se tornou foco de simpatia e críticas entre organizações no Canadá, que dizem que seu destino mostra que os Estados Unidos não são justos nem seguros para refugiados.

Algumas organizações argumentam que o Canadá deveria abandonar seu pacto que tem com os Estados Unidos há 13 anos, que requer que solicitantes de asilo peçam refúgio no primeiro dos dois países ao qual chegarem. Depois de chegar a um dos países, os refugiados não podem entrar no outro em um ponto oficial de fronteira, o que cria um incentivo perverso para atravessar a fronteira escondidos e então solicitar asilo.

"Estamos forçando as pessoas a perderem dedos das mãos e dos pés, fazendo com que elas cheguem a esse ponto para terem nossa proteção", disse Efrat A. Arbel, um professor-assistente de direito na Universidade de British Columbia.

Outros dizem que a história de Iyal e Mohammed é mais um exemplo de burrice misturada com oportunismo, apontando que nenhum deles fugiu de seu país por causa de perseguição.

Aaron Vincent Elkaim/The New York Times
Razak Iyal reza durante o Ramadã enquanto faz trabalho voluntário no Instituto da Mulher Muçulmana Canadense, em Winnipeg

"Eles não tiveram de fugir pulando por cima dos corpos de seus parentes ou passar por tortura", disse Karin Gordon, diretora-executiva de assentamento da Hospitality House Refugee Ministry em Winnipeg, ONG de assistência a refugiados, que tem uma lista de espera de aproximadamente 30 mil refugiados em busca de amparo no Canadá.

Embora Gordon apoie os dois homens pessoalmente --e os tenha recebido no lar para refugiados que ela administra no norte de Winnipeg-- ela os culpa por terem perdido os dedos.

"Eles deviam ter checado o Weather Channel", ela acrescentou, observando que eles não estavam agasalhados o suficiente para as temperaturas geladas. "Eles se lesaram por sua própria ignorância, e estão sofrendo as consequências disso".

Três organizações de apoio a refugiados, incluindo a Anistia Internacional, entraram com uma contestação jurídica à designação que o Canadá dá aos Estados Unidos como um "país seguro" para solicitantes de asilo sob o pacto, o Acordo do Terceiro País Seguro.

Mas o ministro de Imigração, Refugiados e Cidadania do Canadá, Ahmed Hussen, diz que relatórios de monitoramento do governo mostram que o sistema dos Estados Unidos continua justo.

Apesar de temores entre residentes ao longo da fronteira de que os homens seriam os primeiros de muitos na mesma enrascada, a corrida de solicitantes de asilo para o norte diminuiu à medida que o tempo foi esquentando.

"Nós não encorajamos as pessoas a virem", disse Iyal. "Mas se vocês vierem, por favor, verifiquem a previsão do tempo antes. Minha vida mudou completamente. Eles precisam aprender com o que aconteceu conosco".

Os homens se conheceram por acaso no dia 23 de dezembro, em uma estação rodoviária de Minneapolis. Os dois planejavam atravessar a fronteira do norte de Minnesota para Manitoba, e eles decidiram unir forças e dividir a corrida do táxi. Ambos admitem que não estavam suficientemente agasalhados para a viagem, que para ambos era a última perna de uma longa jornada por muitas fronteiras, que teve início no Brasil anos antes.

Iyal deixou Gana depois que uma disputa por uma herança com seus irmãos se tornou violenta e o levou para o hospital. Ele disse que a polícia não quis interferir. Ele comprou uma passagem para São Paulo, no Brasil, e de lá foi devagar fazendo seu caminho --de avião, ônibus, barco e a pé-- até a fronteira americana, onde ele entrou com um pedido de asilo e foi detido por 21 meses.

A jornada de Mohammed também o levou para o Brasil, ao tentar entrar em um time de futebol profissional. Depois que seu agente o encontrou na cama com um homem --m ato que poderia levá-lo à prisão em Gana, onde o sexo gay continua sendo ilegal-- e ameaçou expô-lo, Mohammed fugiu. Ele também fez a árdua jornada até os Estados Unidos, onde também fez o pedido de asilo e passou sete meses na detenção.

Ambos os homens perderam em suas audiências. Eles dizem que o sistema estava armado contra eles; eles não tinham condições de contratar um advogado, nem de fazer ligações de longa distância para Gana para montar seus casos.

No Canadá, eles tiveram acesso a assessoria jurídica e ganharam suas causas.

Mohammed claramente se enquadrava na definição jurídica canadense de refugiado pelas regras da ONU, porque sua orientação sexual significava que ele teria sido perseguido se voltasse para o Gana, disse Bashir Khan, o advogado especializado em imigração que representou os dois homens.

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Seidu Mohammed deixa o Instituto da Mulher Muçulmana Canadense, em Winnipeg, onde faz trabalho voluntário eventualmente

O caso de Iyal era uma aposta muito menos provável porque ele estava fugindo de uma briga de família, e não de uma perseguição óbvia, disse Khan. Mas seu encontro fortuito com Mohammed e sua fatídica noite juntos na neve levou a mídia em Gana a afirmar repetidamente que ambos os homens eram gays, ainda que Iyal tivesse uma mulher em Gana. Essa percepção colocou sua vida em risco e lhe deu um caso legal com boas chances de conseguir o asilo, disse Khan.

Em Winnipeg, os dois homens são quase celebridades. Seus celulares tocam regularmente com convites inesperados. A pequena comunidade ganense se uniu em apoio a eles, ajudando-os a preencherem formulários para passaportes e números de seguridade social e abastecendo suas geladeiras com "fufu" e cozido de amendoim.

Ambos começaram a fazer terapia ocupacional para aprender como fazer coisas básicas com escovar os dentes.

O caminho que eles têm pela frente é atemorizante, especialmente para Mohammed, 24, que não tem nenhum dedo nas mãos. Seu cirurgião plástico propôs transferir dois dedões de cada pé, que funcionariam como polegares e lhe dariam total independência, com todos os custos cobertos pelo programa médico social do Canadá.

"Ele tem muita sorte", disse o Dr. Edward Buchel, chefe de cirurgia plástica para a Winnipeg Regional Health Authority, a agência regional de saúde. "Ele veio parar em um país disposto a pagar milhões de dólares em inúmeras viagens ao hospital, cirurgias, remédios, reabilitação, fisioterapia e teria ocupacional durante anos".

Mas até hoje Mohammed se recusou categoricamente. Ele deixou a escola aos 11 anos para treinar em tempo integral como jogador de futebol, e sonha em voltar a jogar profissionalmente. Para isso, ele acredita que precisa dos dedões do pé.

As perspectivas de Iyal parecem melhores.

Toda manhã ele toma banho, prepara seu café da manhã e pega um ônibus até uma instituição de caridade para mulheres muçulmanas, onde ele voluntaria diariamente. Ali, ele separa doações de roupas e distribui comida para uma multidão barulhenta de homens ganenses, que o desafiam continuamente para que ele prove sua capacidade de fazer as coisas.

"Coloque sua moeda no chão", ele disse para um deles, e depois, com a ajuda de uma simples fita de velcro, a pegou, em meio a uma torcida. "Eu consigo!"

Ele sonha em ter uma loja de eletrodomésticos como a que tinha em Gana, e pagar para que sua mulher venha para o Canadá. Ele diz que Deus manteve Mohammed e ele vivos por uma razão.

Iyal sabe que teve sorte por poder recomeçar sua vida. Ele diz que raramente pensa no que perdeu.

Na semana passada, depois de terminar seu turno como voluntário, ele parou para dar a um morador de rua um pouco de dinheiro. O homem pediu para ver suas mãos, e então mostrou suas próprias mãos, revelando que não tinha nenhum dedo. Ele também havia perdido seus dedos gangrenados pelo frio, disse Iyal.

"Era um cara canadense, mendigando na rua", ele disse. Mas seu otimismo reacendeu e ele se lembrou de sua sorte.

"Ele não tem nenhum dedo", disse Iyal. "Eu tenho motivação. Eu posso fazer algo da vida. Sou jovem. Ainda posso dar certo".

Tradutor: UOL

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