Trump descobre que desmontar legado de Obama não é tão simples

Peter Baker

Em Washington (EUA)

  • Jim Watson/AFP

    10.nov.2016 - O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, é recebido pelo presidente Barack Obama no Salão Oval da Casa Branca, em Washington

    10.nov.2016 - O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, é recebido pelo presidente Barack Obama no Salão Oval da Casa Branca, em Washington

O projeto de demolição do presidente Donald Trump acaba de ser encerrado, pelo menos por enquanto.

Determinado a desmontar o legado de seu antecessor, Trump, no espaço de algumas horas nesta semana, aceitou com relutância preservar o acordo nuclear do presidente Barack Obama com o Irã e fracassou em sua iniciativa para abolir o programa de saúde de Obama.

Os fatos salientaram o desafio para um empreiteiro profissional cujo principal objetivo desde que assumiu a Presidência, há seis meses, foi arrasar os edifícios que herdou, que ele considera mal construídos. Trump avançou muito na direção desse objetivo por meio de atos executivos, mas hoje enfrenta a realidade de que as realizações internas e internacionais mais proeminentes de Obama continuam intactas.

Em nenhum desses casos Trump desistiu. Ele instruiu sua equipe de segurança nacional para continuar repensando a abordagem ao Irã com uma visão para revisar ou eliminar o acordo nuclear. E pediu publicamente ao Congresso que simplesmente rejeite o programa de saúde pública de Obama sem tentar aprovar imediatamente um substituto.

"Nós voltaremos!", tuitou Trump na terça-feira (18) de manhã sobre o colapso de seu esforço sobre o seguro-saúde.

Mas há pouco apetite entre os parceiros dos EUA a rever o acordo com o Irã, tampouco muita vontade entre os legisladores de cancelar o atual programa de saúde sem um novo sistema para pôr no lugar.

Essa última ideia parece ter morrido quase imediatamente na terça-feira no Capitólio, levando o presidente a abanar as mãos e dizer que simplesmente deixaria o programa de Obama cair sob seu próprio peso.

"Não serei o responsável", disse ele a repórteres. "Posso lhes dizer que os republicanos não serão responsáveis por isso. Vamos deixar o Obamacare falir, e então os democratas virão nos procurar."

Quase todo presidente chega ao cargo prometendo uma nova direção, especialmente os que sucedem a alguém do outro partido. Mas poucos, ou nenhum, passou tanto tempo de seus primeiros meses concentrado em desfazer o que o último presidente fez, em lugar de promover suas próprias ideias, quanto Trump.

No que o presidente teve sucesso até agora em reverter o legado de Obama, foi principalmente sobre questões em que ele podia agir por sua própria autoridade. Ele aprovou o oleoduto Keystone XL que Obama havia recusado. Ele saiu do acordo comercial Parceria Transpacífico e do acordo de Paris sobre a mudança climática que seu antecessor havia negociado. E começou a rejeitar regulamentações ambientais e empresariais que foram impostas durante o último governo.

Em contraste, Trump avançou pouco em outras promessas centrais que fez durante a campanha no ano passado. Não fez progresso significativo na construção de um muro na fronteira com o México, muito menos em convencer o vizinho ao sul a pagar por ele. Seus planos de reformular o código fiscal e reconstruir as estradas e pontes dos EUA continuam na linha de largada. Trump não conseguiu que o Congresso rejeitasse as Leis Dodd-Frank impostas a Wall Street depois do crash financeiro de 2008.

Assim como reverter as iniciativas do Irã e do programa de saúde, essas promessas exigem o apoio de outros atores políticos no país e no exterior, tarefa para a qual Trump ainda não mostrou muita inclinação. Durante uma vida passada nos mundos dos imóveis e do entretenimento, Trump se habituou a dar ordens e a proclamar "Você está demitido!" Mas as técnicas de negociação aprimoradas de que ele se gabou no ano passado durante a campanha eleitoral não fecharam acordos com outros líderes mundiais ou com colegas republicanos.

"O problema em Washington, além de toda a legislação ter seu próprio grupo de interesse, é que os projetos são escritos propositalmente para ser complicados", disse Michael Dubke, que serviu brevemente como diretor de comunicações da Casa Branca para Trump. "E complicado é difícil de destrinchar."

Trump poderia, é claro, simplesmente abandonar o acordo do Irã como fez com os acordos de comércio e do clima, e ainda poderá fazê-lo. Embora isso possa ser satisfatório, porém, ele ouviu de seus assessores que os EUA achariam mais difícil pressionar a liderança religiosa em Teerã sem seus aliados, por isso não se arriscou a aliená-los com uma medida unilateral.

John Bolton, um ex-embaixador na ONU e um forte crítico do acordo nuclear, disse que o tempo está do lado do Irã e Trump deveria encontrar uma maneira de convencer os aliados. "Precisamos explicar isso aos europeus", disse Bolton. "Eles podem achar difícil aceitar, mas o discurso simples ainda é uma virtude americana, às vezes até na diplomacia."

Quanto ao seguro-saúde, Trump criticou os democratas na terça-feira (18) por não concordarem --"Os democratas obstruem totalmente", tuitou Trump--, mas não fez um esforço sério para alcançá-los durante os meses em que atacou o programa de saúde de Obama, nem teria sido realista esperar que eles aderissem a um movimento para rejeitar o que consideram uma de suas mais orgulhosas realizações.

Apesar de Trump ter feito lobby junto aos republicanos, alguns disseram que não foi um esforço suficientemente sério. A Casa Branca dedicou sua mensagem pública desta semana a temas comerciais, mais que ao plano de saúde.

O vice-presidente Mike Pence disse na terça que os legisladores deveriam rejeitar o programa de Obama totalmente ou voltar à legislação que agora falhou.

"De qualquer maneira, a inação não é uma opção", disse ele em um discurso a membros da Federação Nacional do Comércio em Washington. "O Congresso precisa agir. O Congresso precisa fazer seu trabalho, e fazer agora."

Para Trump, o fracasso parecia ampliar os problemas de uma Presidência que foi dominada por controvérsias alimentadas no Twitter e investigações de contatos com os russos durante e depois da eleição do ano passado, que o deixaram com o apoio de apenas 36% do público, o mais baixo de qualquer presidente nesta altura do mandato em sete décadas.

Mas Trump pode apontar os recordes dos mercados de ações, o constante crescimento dos empregos e as vitórias contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Seus apoiadores empresariais estão mais enfocados nos impostos do que no seguro-saúde. E muitos de seus seguidores podem avaliar que o presidente tem lutado por eles e culpar o sistema entrincheirado que já detestam.

A Casa Branca rapidamente se mexeu para culpar os democratas pelo fracasso do movimento sobre o seguro-saúde. "Eles são responsáveis por aprovar o Obamacare", disse Sarah Huckabee Sanders, a porta-voz do presidente.

"Eles são responsáveis por criar a confusão em que estamos. Eles são responsáveis por não quererem trabalhar com os republicanos em qualquer capacidade para ajudar a consertar um sistema que eles sabem que é totalmente defeituoso, e já disseram isso publicamente. Eu acho que está bastante claro, e acho que a responsabilidade está sobre os ombros deles."

Os democratas riram disso, comentando que os republicanos controlam a Casa Branca e as duas casas do Congresso. Ao contrário de Obama, que fez um esforço para envolver os republicanos no início de seu próprio esforço sobre o seguro-saúde em 2009, embora sem sucesso, disseram eles, Trump nunca fingiu uma tentativa, como ficou claro desde o início quando os senadores republicanos decidiram propor a legislação usando regras que exigiam apenas maioria simples.

Phil Schiliro, que foi o principal assessor legislativo de Obama e ajudou a aprovar a lei da saúde em 2010, disse que o verdadeiro problema dos republicanos é que eles não conseguiram superar a ideia de que sua lei tiraria o seguro-saúde de muitas pessoas, ou explicar como ela seria melhor.

"Existem consequências reais das leis", disse ele. "Não é algo abstrato. Existem crianças gravemente deficientes que perderão o tratamento e milhões de pessoas que perderão o seguro. Isso é difícil de vender aos congressistas."

Na terça-feira, os republicanos manifestaram preocupação sobre o debate do seguro-saúde e pareciam dispostos a se voltar para outras prioridades, como cortar impostos. Na Casa Branca, o discurso no Jardim das Rosas em que Trump comemorou prematuramente a aprovação de uma lei de saúde na Câmara antes que tivesse ido para o Senado parece ter ocorrido há muito tempo.

Trump precisa avaliar sua próxima medida. Ele poderá tentar encontrar outra maneira de fazer a escavadeira funcionar. Ou poderá avançar para outro imóvel.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos