Após mais de 50 anos, ONU reabre investigação sobre mistério da morte de secretário-geral

Alan Cowell e Rick Gladstone

Em Londres (Inglaterra)

  • Sam Falk/The New York Times

    7.ago.1953 - O então secretário-geral da ONU Dag Hammarskjold

    7.ago.1953 - O então secretário-geral da ONU Dag Hammarskjold

Após 56 anos e muitas investigações, há nova esperança de que segredos presentes nos arquivos de inteligência ocidentais possam solucionar um dos maiores casos na história da Organização das Nações Unidas: a morte misteriosa do secretário-geral Dag Hammarskjold.

Mas se os mantenedores desses arquivos permitirão o acesso continua sendo uma questão em aberto.

Hammarskjold, um diplomata sueco icônico que foi o segundo secretário-geral da organização mundial, morreu juntamente com 15 outras pessoas quando o avião deles, um DC-6 fretado, caiu pouco depois da meia-noite de 18 de setembro de 1961, restando minutos para chegar a seu destino: um campo de pouso em Ndola, no então protetorado britânico da Rodésia do Norte, que agora fica na atual Zâmbia.

As três investigações oficiais que se seguiram imediatamente sugeriram que um erro do piloto foi a causa, mas o terceiro dos relatórios, pela Comissão de Investigação das Nações Unidas em 1962, disse que sabotagem não podia ser descartada. Essa possibilidade ajudou a alimentar suspeita e teorias de conspiração de que Hammarskjold, com 56 anos quando morreu, tinha sido assassinado.

De lá para cá, acadêmicos e investigadores independentes passaram anos coletando e analisando evidências que foram desprezadas ou suprimidas, reforçando a teoria de crime.

Em seu livro de 2011, "Who Killed Hammarskjold?" (Quem matou Hammarskjold?, não lançado no Brasil), Susan Williams, uma estudiosa da descolonização africana da Universidade de Londres, concluiu que "quaisquer que sejam os detalhes, a morte dele quase certamente foi resultado de uma intervenção sinistra".

Um forte defensor da descolonização, Hammarskjold certamente tinha adversários que se sentiam ameaçados por sua diplomacia. Ele morreu enquanto realizava uma visita para ajudar a por fim a uma guerra secessionista no recém-independente Congo, uma ex-colônia belga rica em minérios estratégicos vitais, como o urânio, cobiçados pelas grandes potências mundiais.

Era uma missão vista com suspeita pelos poderosos interesses de mineração na Bélgica e África do Sul, assim como por membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, incluindo os Estados Unidos e o Reino Unido. O trabalho de Hammarskjold lhe rendeu um Prêmio Nobel da Paz póstumo.

A narrativa de suas horas finais mantém seu fascínio, envolta em referências enigmáticas a mercenários sombrios, maquinações das grandes potências, aviões esperando em pistas no escuro e monitores distantes rastreando as comunicações por rádio enquanto o DC-6 realizava sua aproximação final e fatal.

A queda ocorreu em um momento crucial na sorte da África, entre o colonialismo e a independência, prenunciando uma era em que a Guerra Fria dividiu o continente, alimentando guerras de guerrilha e levantes, de Moçambique e Zimbábue a Angola e Namíbia, que chegaram à conclusão mais de três décadas depois, com o fim do apartheid na África do Sul.

Frustrados por uma resposta definitiva ao que aconteceu exatamente com o avião de Hammarskjold nunca ter sido estabelecida, seus dois sucessores mais recentes no mais alto cargo da ONU, Ban Ki-moon e António Guterres, ressuscitaram a investigação.

Um painel nomeado por Ban apontou em 2015 que novas pequenas informações suficientes vieram à tona para justificar uma nova investigação. Uma resolução da Assembleia Geral autorizou em dezembro a nomeação de uma "pessoa eminente" para analisar as informações para determinar o escopo de qualquer nova investigação.

Essa pessoa, Mohamed Chande Othman, um ex-ministro chefe da Suprema Corte da Tanzânia que também foi o líder do painel de Ban, deverá apresentar suas conclusões em um relatório para Guterres neste mês.

Othman se recusou a falar sobre as conclusões antes de apresentar seu relatório. Mas altos funcionários da ONU e outros associados de Othman disseram que ele compilou novos questionamentos detalhados sobre as comunicações de rádio interceptadas e outras aeronaves na área, enquanto o avião de Hammarskjold caía a 13 km do campo de aviação de Ndola, e que as respostas talvez possam ser encontradas nos arquivos de inteligência de Estados Unidos, Reino Unido e Bélgica.

"Sabemos a partir da informação disponível que eles sabem muito mais do que dizem", disse um dos altos funcionários da ONU, referindo-se aos mantenedores desses arquivos dos governos. O funcionário falou sob a condição de anonimato para discutir um relatório confidencial da ONU.

Uma teoria é a de que o DC-6 pode ter sido atacado ou assediado por um caça Fouga Magister de fabricação francesa, operado pelas forças secessionistas na província congolesa de Katanga, que resistiam aos esforços de Hammarskjold de colocar um fim à rebelião delas.

Sete meses antes da queda, três Fouga Magisters foram entregues aos secessionistas em um avião de carga de propriedade americana que supostamente deveria entregar comida. O presidente John F. Kennedy ficou profundamente embaraçado com a entrega, que posteriormente foi relatada como sendo uma operação da CIA (a Agência Central de Inteligência americana).

Ainda não se sabe se um Fouga estava na área de Ndola na noite da queda, apesar de garantias anteriores da CIA a Othman de não ter nenhum registro da presença de um caça ali, segundo o alto funcionário da ONU.

Othman também apresentou novas questões ao Reino Unido e à Bélgica sobre as conclusões de seus próprios serviços de inteligência. Basicamente, disse o alto funcionário da ONU, Othman pediu aos governos ocidentais que realizassem "buscas mais meticulosas e abrangentes" em seus arquivos.

Ele também fez perguntas sobre dois oficiais da inteligência militar americana em postos de escuta diferentes na noite da queda, um dos quais já morto. Ambos alegaram anos depois terem ouvido interceptações de rádio sugerindo que o DC-6 foi abatido.

Othman também perguntou sobre se um avião DC-3 oficial americano oficial estava estacionado no campo de pouso de Ndola naquela noite.

À medida que se aproxima o prazo para Othman apresentar seu relatório, ainda não se sabe que tipo de informação, se é que alguma, os serviços de inteligência desses países apresentaram em resposta aos pedidos dele.

Autoridades da Agência de Segurança Nacional nos Estados Unidos encaminharam as perguntas a respeito de Othman ao Departamento de Estado, que não quis fazer nenhum comentário por ora.

O Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido disse em uma declaração que "realizamos outra busca e estamos fornecendo a ele material adicional", referindo-se a Othman. Ele não especificou o conteúdo do material, mas disse que "acreditamos que toda informação de valor direto para a investigação foi apresentada".

Há alguma esperança de que os serviços de inteligência da Bélgica ajudem Othman após um membro do Parlamento do país, Benoit Helings, ter levantado publicamente a questão junto ao Ministério da Justiça no ano passado.

Mas Hellings disse em uma entrevista que parte dos arquivos da Bélgica, particularmente de seu serviço secreto colonial, continua confidencial. Ele pediu para que todos os arquivos se tornem públicos como parte da apuração pela Bélgica de seu passado colonial e disse estar interessado em levar o assunto adiante.

A conexão belga é potencialmente importante, por causa de informação não verificada de que mercenários belgas estavam atuando na área de Ndola, incluindo um piloto belga que pode ter operado os Fouga Magister dos secessionistas.

"Apenas quero saber a verdade, e quando você tem alguns arquivos, é normal dar acesso às pessoas do mundo da ciência, especialmente da ONU", disse Hellings. "Estamos falando sobre a morte de um secretário-geral, de modo que é um assunto muito importante."

Othman também contatou Goran Bjorkdahl, um trabalhador de ajuda humanitária sueco e especialista em desenvolvimento baseado na África, que realizou sua própria investigação de 2008 a 2011, após saber que seu pai, que estava na Zâmbia nos anos 70, recebeu de aldeões locais um pedaço dos destroços do avião de Hammarskjold

A investigação de Bjorkdahl sugeriu que o avião foi abatido enquanto se aproximava de Ndola. Essa conclusão se baseou em entrevistas feitas por ele com moradores da área de Ndola, que disseram ter visto um segundo avião menor, mas que nunca lhes foi pedido que testemunhassem em qualquer investigação oficial.

Novas versões do que aconteceu naquela noite e alegações adicionais no mistério de Hammarskjold, muitas das quais não corroboradas, continuam surgindo, complicando ainda mais o esforço de Othman de separar fato de ficção.

Tom Miller, um jornalista americano baseado no Arizona, disse que forneceu a Othman acesso às anotações que fez após uma série de encontros, o último em 1975, com um mercenário britânico que descreveu o que chamou de conspiração apoiada pela CIA para assegurar que o avião de Hammarskjold caísse, ao falsificar altitudes nas cartas de aviação da tripulação, levando o piloto a voar muito baixo.

As duas investigações oficiais pelas autoridades de aviação civil da Rodésia realizadas imediatamente após a queda apontaram que o avião desceu baixo demais. O relatório da Comissão de Investigação das Nações Unidas apontou que o avião caiu em uma área apenas 200 pés (aproximadamente 61 metros) mais alta que altitude do campo de pouso de Ndola.

Qualquer avião a 13 km de seu destino deveria estar em trajetória descendente final a uma altitude muito superior a 200 pés.

Para os céticos em relação à versão oficial, a aparente relutância das grandes potências em compartilhar tudo o que sabem com Othman é inexplicável, sugerindo que estão torcendo para que passe o interesse pelo caso.

David Wardrop, o presidente da Associação das Nações Unidas de Westminster, um grupo em Londres que apoia novas investigações sobre a morte de Hammarskjold, disse que as respostas pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos parecem mostrar que decidiram que "indolência é a melhor forma de esgotar o processo da ONU".


 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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