Enquanto a China se prepara para novos líderes, as mulheres ainda são excluídas

Didi Kirsten Tatlow

Em Pequim (China)

  • Jason Lee/ Reuters

    8.nov.2012 - Delegados participam do 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, em Pequim

    8.nov.2012 - Delegados participam do 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, em Pequim

Os líderes do Partido Comunista da China se reunirão no fim deste ano para um atentamente observado congresso que decidirá quem conduzirá o partido em sua oitava década no poder. Mas apesar de toda a especulação a respeito de quem despontará no topo do partido do governo, um resultado parece certo: poucos serão mulheres, se é que algum.

Nenhuma vez desde que os comunistas chegaram ao poder em 1949 uma mulher se sentou no mais alto órgão do partido, o Comitê Permanente do Politburo composto por sete membros, atualmente liderado pelo presidente Xi Jinping. O Politburo com 25 membros conta com apenas duas mulheres, apesar desse ser o número mais alto desde a Revolução Cultural, quando as mulheres do líder chinês Mao Tsé-tung e de Lin Biao, seu sucessor designado, receberam assentos em 1969.

Apesar dos compromissos constitucionais da China com igualdade de gênero, a discriminação permanece disseminada, dizem acadêmicos e feministas, resumida pelo ditado de que uma mulher com poder é como "uma galinha cantando ao amanhecer", um presságio do colapso da família e do Estado.

A aposentadoria antecipada obrigatória para as mulheres não ajuda. As mulheres devem se aposentar até 10 anos antes dos homens, segundo a suposição de que são as principais cuidadoras dos netos e parentes idosos. Isso as remove da disputa no momento em que suas carreiras começam a chegar ao pico.

Assim, à medida que avança o quente verão de Pequim, Guo Jianmei e um grupo de advogadas e feministas estão correndo para concluir um documento exigindo que o Partido Comunista promova mais mulheres a posições de liderança. Elas esperam distribuir o documento aos líderes do partido para estimular a discussão antes do congresso, disse Guo.

Ela se recusou a fornecer detalhes, dizendo que a questão é sensível por tocar no poder do partido. "É incomum membros da sociedade civil levantarem uma questão junto ao partido dessa forma", disse Guo, 57 anos, uma antiga defensora dos direitos das mulheres do Escritório de Advocacia Qianqian, em Pequim.

Duas vezes no passado ela e outras apelaram ao Congresso Nacional Popular, o Parlamento chinês, mas essa é a primeira vez que abordam o partido supremamente poderoso.

O esforço delas pode ser quixotesco, mas elas seguem em frente assim mesmo. "Pelo menos estamos fazendo algo", disse Guo.

O partido há muito defende publicamente os direitos das mulheres. Na Organização das Nações Unidas em Nova York, em 2015, Xi anunciou uma doação de US$ 10 milhões à ONU Mulheres, o escritório da organização que trabalha pela igualdade de gênero.

Mas o poder político na China continua predominantemente masculino. Xi, 64 anos, que foi nomeado secretário-geral do partido em 2012, deverá servir um segundo mandato de cinco anos.

"Seria preciso um milagre para uma mulher se tornar a líder da República Popular da China no futuro próximo", escreveu Cheng Li, diretor do Centro John L. Thornton para a China da Instituição Brookings, em um ensaio recente.

O percentual de mulheres entre os membros plenos do Comitê Central do partido caiu nos últimos anos, de 6,4% em 2012, antes do último congresso do partido, para atuais 4,9%.

Os números sinalizam que a China está fora de sintonia com as tendências globais. Segundo a ONU Mulheres, mais que o dobro de mulheres lideram um país hoje em comparação a uma década atrás, apesar de 17 ser um número ainda baixo.

Também está fora de sintonia com seus vizinhos de língua chinesa.

Taiwan, a ilha autônoma que a China reivindica como sendo seu território, elegeu sua primeira mulher presidente, Tsai Ing-wen, no ano passado. Em Hong Kong, a antiga colônia britânica devolvida à China 20 anos atrás, mas que mantém seu próprio sistema político, a primeira executiva-chefe feminina, Carrie Lam, tomou posse neste mês.

"Se o partido quiser sobreviver, avançar, ele precisa ser mais inclusivo", disse Li em uma entrevista, expressando otimismo de que isso futuramente ocorrerá, notando que o partido agiu para expandir sua base sob o ex-presidente Jiang Zemin, que atraiu pessoal do meio empresarial nos anos 90.

Mesmo assim, a probabilidade de uma mulher ser nomeada ao Comitê Permanente do Politburo no congresso deste ano é baixa, ele disse.

"A chance provavelmente é de apenas 5%", disse Li, citando como uma candidata de chance remota Sun Chunlan, 67 anos, uma das duas mulheres que fazem parte do Politburo e chefe do Departamento de Trabalho da Frente Unida do partido.

A idade oficial de aposentadoria para a maioria dos membros masculinos do partido é 60 anos, apesar disso ser com frequência ignorado no alto escalão, onde muitos homens servem até pelo menos 67 anos, segundo um acordo não oficial. A idade de aposentadoria para os quadros femininos do partido, funcionárias públicas e funcionárias de empresas estatais é 55 anos. Outras trabalhadoras se aposentam aos 50 anos.

A segunda mulher membro do Politburo, Liu Yandong, também uma exceção aos 71 anos, deverá se aposentar neste ano, disse Li.

"Seria um choque se uma mulher fosse nomeada para o Comitê Permanente", escreveu por e-mail Leta Hong Fincher, autora de "Leftover Women: The Resurgence of Gender Inequality in China" (As mulheres que sobraram: o ressurgimento da desigualdade de gênero na China, em tradução livre, não lançado no Brasil).

"Acredito que o governo não tenha intenção de fazer nada significativo para melhorar seu péssimo retrospecto de representação das mulheres na política", disse Fincher. "Em vez disso, a China está apenas defendendo da boca para fora a igualdade de gênero, visando parecer mais responsável ao buscar um papel de liderança global mais proeminente."

Outros são mais otimistas.

"Os altos líderes estão cientes da questão da participação política feminina", disse Niu Tianxiu, uma professora da Escola de Administração Pública da Universidade Normal de Nanquim.

Cerca de 3 entre 10 autoridades de médio escalão são mulheres, caindo para 2 entre 10 daí para cima na hierarquia, disse Niu, citando números de um livro de 2013 por Song Xiuyan, a secretária do partido na estatal Federação das Mulheres de Toda a China.

Ao ser perguntada sobre a participação política das mulheres na China, a federação disse em uma declaração enviada por fax que o partido dá "grande importância" ao trabalho das mulheres e que, "com o camarada Xi Jinping no comando", ele deu ainda mais ênfase às questões das mulheres e das crianças.

"O ambiente para o discurso e políticas feministas melhorou um pouco", disse Niu. "E especialmente nos escalões médio e baixo, se líderes locais demonstram posturas progressistas em relação a gênero e conseguem obter apoio das famílias envolvidas, mulheres excepcionalmente capazes podem participar de uma competição justa."

Mas ela disse que não espera que a situação mude muito, com tão poucas mulheres posicionadas para uma promoção.

"Não acho que veremos um aumento claro de mulheres no topo após o 19º Congresso do partido", ela disse. "Há escassez de talentos despontando nos quadros de mulheres do alto escalão."

Servir como secretária do partido ou governadora de uma província é praticamente um pré-requisito para um alto posto, mas apenas dois dentre 62 desses cargos são ocupados por mulheres.

Além disso, disse Niu, a "política de dois filhos" que substituiu a longa "política de um só filho" da China no ano passado está aumentando a pressão para que as mulheres permaneçam em casa. Com mais de seus anos intermediários consumidos pela criação dos filhos, será mais difícil para as mulheres chegarem a altos postos antes de atingirem a idade de aposentadoria.

A estrada para o poder, controlada pelo Partido Comunista, é mais difícil para as mulheres em um nível ainda mais fundamental, como sugerem as estatísticas. Apenas 25,1% dos 88 milhões de membros do partido na China são do sexo feminino, segundo os números mais recentes, de 2015.

O congresso do partido deste ano deverá promover a maior mudança de líderes no alto escalão desde 1969, com cerca de 70% de mudanças no Comitê Central, disse Li.

Assim, em teoria, o apelo de Guo para nomeação de mais mulheres é oportuno. Mesmo assim, ela busca conter suas expectativas.

"Nesse congresso eles desejam escolher líderes", ela disse. "Tudo o que podemos fazer é defender e levantar algo que esperamos que venham a debater."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos