Mapa identifica locais onde possíveis vítimas da Coreia do Norte foram enterradas

Choe Sang-Hun

Em Seul (Coreia do Sul)

  • Kim Hong-Ji/ Reuters

    Sarah Son, diretora de pesquisa do TJWG, exibe página do relatório com mapa com locais de mortes suspeitas na Coreia do Norte

    Sarah Son, diretora de pesquisa do TJWG, exibe página do relatório com mapa com locais de mortes suspeitas na Coreia do Norte

Nos últimos dois anos, em um escritório apertado no centro de Seul, ativistas e voluntários de cinco países vêm fazendo algo que nunca haviam experimentado: criar mapas interativos de lugares onde a Coreia do Norte teria executado e enterrado prisioneiros.

Ao longo dos anos, desertores do país isolado delataram violações generalizadas dos direitos humanos lá, incluindo o que investigadores da ONU consideraram execuções extrajudiciais de prisioneiros políticos e outros. Mas nunca houve uma tentativa coordenada de identificar os locais onde essas mortes realmente ocorreram, porque o país continua fora do alcance de investigadores externos.

Na quarta-feira (19), ativistas afiliados ao Grupo de Trabalho de Justiça Transicional (Transitional Justice Working Group ou TJWG), um grupo de direitos humanos com sede em Seul, anunciou suas conclusões iniciais, identificando mais de 300 locais onde teriam ocorrido execuções e 47 de supostas cremações e enterros, lugares onde até 15 pessoas podem ter sido executadas juntas e seus corpos enterrados ou deixados "como lixo".

"Não é racional supor que locais de covas coletivas existentes hoje continuarão lá daqui a anos", disse Sarah A. Son, diretora de pesquisa do grupo. "Como vimos em muitos outros locais após conflitos em todo o mundo, as pessoas vão querer saber o que aconteceu com seus parentes, e um registro histórico acurado terá de ser criado como parte do processo de recuperação, especialmente em uma escala como a da Coreia do Norte."

Armado de imagens de satélite do aplicativo Google Earth, o grupo entrevistou 375 desertores norte-coreanos e lhes pediu para ajudar a situar os locais para que autoridades do direito internacional possam um dia visitá-los para investigar, exumar corpos, obter provas forenses e possivelmente denunciar os perpetradores. Com os mapas, o grupo disse que pretende oferecer "uma sensação da escala das violações aos direitos humanos, suas localizações e suas vítimas e números aproximados".

"Não sabemos quando haverá um julgamento ou outras medidas para responsabilizar os violadores dos direitos humanos, mas esse tempo chegará e queremos estar o mais prontos possível", explicou Dan Bielefeld, um desenvolvedor de sites e ativista de direitos humanos de Milwaukee (Wisconsin, EUA). "Nosso mapa de locais suspeitos é um primeiro passo nesse caminho."

Os ativistas disseram que se inspiraram na comissão de inquérito da ONU que em 2014 relatou campos de prisioneiros, tortura sistemática, execuções sumárias e outras violações generalizadas de direitos na Coreia do Norte.

O relatório levou países membros da ONU a adotarem uma resolução pedindo que o Conselho de Segurança citasse a liderança norte-coreana ao Tribunal Penal Internacional em Haia, na Holanda, para processar possíveis crimes contra a humanidade.

A Coreia do Norte negou com veemência as conclusões, e seus aliados China e Rússia bloquearam as tentativas de levar o país ao tribunal.

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O grupo de ativistas, cujo projeto de mapeamento foi financiado pela Fundação Nacional pela Democracia, sediada em Washington, não incluiu os mapas interativos em seu relatório por temer que a Coreia do Norte altere os locais. Mas permitiu que um repórter os examinasse sob a condição de que os locais não fossem revelados.

Mais de 200 lugares onde há suspeita de assassinatos, marcados com quadrados azuis, se agrupam em Hamgyongbukdo, uma província no nordeste da Coreia do Norte. A maioria dos desertores entrevistados vinha dessa província. (Uma vasta maioria de 30 mil desertores norte-coreanos que vivem na Coreia do Sul vêm das províncias que fazem fronteira com a China.)

Quando Bielefeld se concentrou em uma cidade, 53 quadrados azuis apareceram num raio de 4 km de uma encosta de morro onde há suspeita de enterros. Quando ele clicou sobre um quadrado, surgiu um resumo: uma execução pública por um pelotão de fuzilamento, sob a acusação de que a vítima roubou peças de equipamento de mineração. A vítima foi morta a tiros por três oficiais do Ministério da Segurança do Povo.

Cada quadrado estava ligado a depoimentos digitais de desertores, incluindo arquivos de áudio. Alguns depoimentos eram relatos em primeira mão com o nome e a profissão da vítima, enquanto outros continham informações em segunda mão.

Em um depoimento, um desertor citou um vizinho que viu oficiais da segurança matarem uma vítima em uma oficina. O vizinho mais tarde confirmou com um parente que trabalhava como segurança que as mortes extrajudiciais eram comuns na oficina. Bielefeld colocou um quadrado azul sobre o prédio em seu programa baseado no aplicativo de fonte aberta OpenStreetMap.

O grupo afirmou que os norte-coreanos eram executados por crimes como contrabando de cogumelos da China, roubo de cobre das fábricas, distribuição de novelas sul-coreanas, tráfico humano e "fofocas" --geralmente críticas ao regime norte-coreano.

As execuções públicas ocorreram com frequência entre 1994 e 2000, período em que a Coreia do Norte se esforçou para controlar a população, que sofria penúria generalizada, segundo o grupo.

"Eles enforcavam pessoas em lugares movimentados, como mercados, e deixavam os corpos lá durante horas para instilar medo nas pessoas", disse Oh Se Hyek, um desertor norte-coreano que conduziu as entrevistas para o projeto de mapeamento.

Oh afirmou que o maior desafio para ele foi convencer outros desertores a testemunhar para o projeto, mesmo quando ele prometeu não revelar seus dados pessoais. Mesmo depois de reassentados na Coreia do Sul, os desertores temiam que o Norte rastreasse sua localização e praticasse retaliação contra seus parentes que continuavam no Norte.

Algumas das execuções nos mapas digitais datavam dos anos 1960, mas outras eram tão recentes quanto 2015. Até 15 pessoas eram executadas ao mesmo tempo, geralmente por fuzilamento.

Lee Young-hwan, diretor-executivo do Grupo de Trabalho de Justiça Transicional, lembrou o choque que sentiu quando era estudante colegial e fazia trabalho voluntário para os desertores norte-coreanos em 1999. Durante uma aula de pintura, um menino de 7 anos do Norte pintou uma cena que ele viu em sua antiga pátria: soldados norte-coreanos uniformizados executando pessoas a tiros.

Encorajado pelo relatório da ONU de 2014, Lee começou a montar a equipe internacional para usar imagens de satélite e tecnologia de mapeamento de fonte aberta para registrar as violações aos direitos humanos na Coreia do Norte, assim como analistas de segurança usam essa tecnologia para monitorar os locais militares e nucleares do país.

"Ao entrevistarmos mais desertores no percurso, esperamos identificar mais locais de mortes e enterros em todo o Norte", disse Lee. "Nosso trabalho ainda está em uma etapa inicial. É um trabalho colaborativo, e esperamos que mais voluntários técnicos e outros unam-se a nós."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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