Irã predomina no Iraque depois que EUA abriram a porta

Tim Arango

Em Bagdá (Iraque)

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

    4.jun.2017 - Motoristas enfrentam engarrafamento próximo a propaganda do antigo líder espiritual iraniano aiatolá Khomeini, em Diyala, no Iraque

    4.jun.2017 - Motoristas enfrentam engarrafamento próximo a propaganda do antigo líder espiritual iraniano aiatolá Khomeini, em Diyala, no Iraque

Em quase qualquer mercado do Iraque, as prateleiras estão cheias de produtos do Irã --leite, iogurte, frango. Na televisão, todos os canais transmitem programas simpáticos ao Irã.

Um novo edifício é construído? Provavelmente o cimento e os tijolos vieram do Irã. E quando os jovens iraquianos tomam comprimidos para ter um "barato" a droga provavelmente foi contrabandeada pela fronteira porosa do Irã.

E isso não é a metade da história.

Em todo o Iraque, milícias patrocinadas pelo Irã trabalham duro para estabelecer um corredor para levar homens e armas para forças substitutas na Síria e no Líbano. E nos bastidores do poder em Bagdá até as mais graduadas autoridades foram aprovadas, ou demitidas, pela liderança iraniana.

Quando os EUA invadiram o Iraque, 14 anos atrás, para derrubar Saddam Hussein, viram o Iraque como uma potencial pedra angular de um Oriente Médio democrático e voltado para o Ocidente.

Enormes quantidades de sangue e tesouros --cerca de 4.500 vidas americanas perdidas, mais de US$ 1 trilhão gastos-- foram despejadas nessa causa.

Desde o primeiro dia, o Irã viu outra coisa: a possibilidade de transformar o Iraque em um Estado cliente, um ex-inimigo contra o qual lutou nos anos 1980 uma guerra tão brutal, com armas químicas e guerra de trincheiras, que os historiadores procuram comparações na Primeira Guerra Mundial. Se o Irã tivesse êxito, o Iraque nunca mais representaria uma ameaça e poderia servir como trampolim para espalhar a influência iraniana por toda a região.

Nesse contexto, o Irã venceu e os EUA perderam.

Nos últimos três anos, os americanos se concentraram na batalha contra o Estado Islâmico no Iraque, devolvendo mais de 5 mil soldados ao país e ajudando a forçar os militantes a sair da segunda maior cidade do Iraque, Mossul.

Mas o Irã nunca perdeu de vista sua missão: dominar seu vizinho tão completamente que o Iraque nunca mais pudesse ameaçá-lo militarmente, e usar o país para efetivamente controlar um corredor de Teerã até o Mediterrâneo.

"A influência iraniana é predominante", disse Hoshyar Zebari, que foi demitido no ano passado do cargo de ministro das Finanças porque, segundo ele, o Irã desconfiava de suas ligações com os EUA. "É absoluta."

Sergey Ponomarev/The New York Times
Trabalhadores descarregam caixas de bens iranianos em posto de passagem em Mandali, no Iraque

O domínio do Irã sobre o Iraque exacerbou as tensões sectárias em toda a região, com os países sunitas e aliados dos EUA, como a Arábia Saudita, mobilizando-se para conter o expansionismo iraniano. Mas o Iraque é só uma parte do projeto de expansão iraniano; Teerã também usou o poder brando e duro para ampliar sua influência no Líbano, na Síria, no Iêmen, no Afeganistão e por toda a região.

O Irã é um Estado xiita, e o Iraque, país de maioria xiita, era governado por uma elite da minoria sunita antes da invasão americana. As raízes do cisma entre sunitas e xiitas remontam a quase 1.400 anos e repousa nas diferenças sobre quem seriam os legítimos líderes do islã depois da morte do profeta Maomé.

Mas hoje em dia trata-se tanto de religião quanto de geopolítica. A divisão é expressa por diferentes Estados que são adversários, liderados pela Arábia Saudita de um lado e o Irã do outro.

A influência do Irã no Iraque não é apenas crescente, mas diversificada, projetando-se nos assuntos militares, políticos, econômicos e culturais.

Em alguns postos de fronteira no sul, a soberania iraquiana é uma ideia ultrapassada. Ônibus carregados de jovens recrutados para as milícias cruzam para o Irã sem mostrar documentos. Eles recebem treinamento militar e depois são levados à Síria, onde lutam sob o comando de oficiais iranianos na defesa do presidente sírio, Bashar al-Assad.

Passando na outra direção, motoristas de caminhão bombeiam produtos iranianos --alimentos, produtos domésticos, drogas ilícitas --para o que se tornou um mercado vital e cativo.

O Irã inclina a balança a seu favor em todas as áreas do comércio. Na cidade de Najaf, ele até recolhe o lixo, depois que o conselho provincial concedeu um contrato a uma empresa privada iraniana.

Um membro do conselho, Zuhair al-Jibouri, usou um aforismo hoje comum no Iraque: "Nós importamos maçãs do Irã para podermos dá-las de presente aos peregrinos iranianos".

Politicamente, o Irã tem um grande número de aliados no Parlamento iraquiano que podem ajudar a garantir seus objetivos. E sua influência sobre a escolha do ministro do Interior, por meio de uma milícia e grupo político que os iranianos formaram nos anos 1980 para se opor a Saddam, lhe deu controle substancial desse ministério e da polícia federal.

Talvez mais crucialmente, o Parlamento aprovou no ano passado uma lei que efetivamente tornou a constelação de milícias xiitas uma parte permanente das forças de segurança do Iraque. Isso garante o financiamento iraquiano dos grupos enquanto efetivamente mantém o controle do Irã sobre algumas unidades mais poderosas.

Agora, com as eleições parlamentares no horizonte, as milícias xiitas começaram a se organizar politicamente para uma disputa que poderá garantir ainda maior domínio do Irã no sistema político iraquiano.

Para ganhar vantagem nas ondas aéreas, novos canais de televisão montados com dinheiro iraniano e ligados a milícias xiitas transmitem noticiário que retrata o Irã como protetor do Iraque e os EUA como uma interferência perniciosa.

Em parte numa tentativa de conter o Irã, os EUA indicaram que manterão tropas no Iraque depois da batalha contra o EI. Diplomatas americanos trabalharam para enfatizar o papel das forças de segurança do governo na luta e para apoiar um primeiro-ministro, Haider al-Abadi, que parecia mais aberto aos EUA que ao Irã.

Mas depois da repentina retirada das tropas americanas em 2011 a constância dos EUA continua sendo questionada aqui --um grande fracasso da política externa americana, com a responsabilidade dividida entre três governos.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Viúvas e parentes de Fadhil Ghanim, combatente da Organização Badr, no cemitério da milícia em Najaf, no Iraque

O Irã faz um jogo mais profundo, manobrando os extensos laços religiosos com a maioria xiita do Iraque e uma rede muito mais ampla de aliados locais, ao defender a tese de que é o único defensor confiável do Iraque.

O grande projeto do Irã no leste do Iraque pode não parecer muito: 25 km de estrada empoeirada, na maioria de cascalho, que atravessa o deserto e arbustos secos perto da fronteira na província de Diyala.

Mas é um importante novo trecho na rota do Irã ao Iraque e à Síria, e o que ele transporta --milicianos xiitas, delegações iranianas, produtos comerciais e suprimentos militares --é sua característica mais valiosa.

É uma peça do que os analistas e as autoridades iranianas dizem ser a ambição mais premente do Irã: explorar o caos da região para projetar influência por todo o Iraque e além. Eventualmente, dizem analistas, o Irã poderá usar o corredor, estabelecido no solo por meio de milícias sob seu controle, para enviar armas e suprimentos a forças substitutas na Síria, onde o Irã é um importante apoiador de Assad, e ao Líbano e seu aliado Hizbollah.

Depois que o EI varreu Diyala e áreas vizinhas em 2014, o Irã assumiu como prioridade limpar a província, uma área mista de sunitas e xiitas.

Ele reuniu uma enorme força de milícias xiitas, muitas treinadas no Irã e assessoradas no local por autoridades iranianas. Depois de uma rápida vitória, os iranianos e seus aliados milicianos se dedicaram a garantir seus outros interesses na província: marginalizar a minoria sunita e garantir um caminho para a Síria.

O Irã lutou agressivamente para manter seu aliado Assad no poder para conservar o acesso terrestre a seu mais importante aliado na região, o Hizbollah, a força militar e política que domina o Líbano e ameaça Israel.

"Diyala é a passagem para a Síria e o Líbano, e isso é muito importante para o Irã", disse Ali al-Daini, o presidente sunita do conselho provincial local.

Hoje Diyala tornou-se uma vitrine de como o Irã considera a ascendência xiita crítica para seus objetivos geopolíticos.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Supostos combatentes do Estado Islâmico são detidos em corte em Qaraqosh, no Iraque

"O Irã é mais inteligente que os EUA", disse Nijat al-Taie, um membro sunita do conselho provincial e um crítico declarado do Irã. "Eles atingiram seus objetivos em terra. Os EUA não protegeram o Iraque. Eles apenas derrubaram o regime e entregaram o país ao Irã."

Especialmente no sul do Iraque, cuja população é de maioria xiita, os sinais da influência iraniana estão por toda parte.

Milícias apoiadas pelo Irã são as defensoras dos santuários xiitas nas cidades de Najaf e Karbala, que atraem comércio e turismo. Nos conselhos locais, os partidos políticos apoiados pelo Irã têm sólidas maiorias, e o material de campanha salienta as relações com santos xiitas e clérigos iranianos.

A situação alimentou o ressentimento. Os xiitas iraquianos compartilham a religião com o Irã, mas também preservam suas outras identidades como iraquianos e árabes.

"O Iraque pertence à Liga Árabe, e não ao Irã", disse o xeque Fadhil al-Bidayri, um religioso do seminário de Najaf. "Os xiitas são a maioria no Iraque, mas uma minoria no mundo. Enquanto o governo do Irã controlar o governo do Iraque, não teremos chance."

Abadi, que assumiu o cargo em 2014 com o apoio dos EUA e do Irã, pareceu mais encorajado a resistir à pressão iraniana depois que o presidente Donald Trump assumiu o cargo.

Ele promoveu um projeto ambicioso para uma empresa americana garantir a segurança em uma rodovia de Bagdá a Amã (Jordânia), a que o Irã se opôs. Ele também iniciou discussões com os EUA sobre os termos de um acordo para manter as forças dos EUA no país depois que o EI for derrotado.

Alguns veem um compromisso de tropas americanas como uma oportunidade de revisitar a retirada de 2011.

Ryan Crocker, o embaixador americano no Iraque de 2007 a 2009, disse que se os EUA partirem de novo depois que o EI for derrotado "estariam efetivamente dando rédeas soltas aos iranianos".

Mas muitos iraquianos dizem que os iranianos já têm rédeas soltas. E enquanto o governo Trump indicou que prestará mais atenção no Iraque como meio de conter o Irã, a questão é se é tarde demais.

"O Irã não ficará quieto, sem fazer nada", disse Sami al-Askari, um importante político xiita que tem boas relações com os iranianos e os americanos. "Eles têm muitos meios. Francamente, os americanos não podem fazer nada."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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