O vilarejo onde "chove peixe" do céu todos os anos

Kirk Semple

Em Yoro (Honduras)

  • Adriana Zehbrauskas/The New York Times

    Esteban Lozaro e Catalina Garay em sua casa em la Unión, pequena comunidade rural em Yoro, Honduras

    Esteban Lozaro e Catalina Garay em sua casa em la Unión, pequena comunidade rural em Yoro, Honduras

As coisas não são fáceis em La Unión, uma pequena comunidade na periferia de Yoro, vilarejo rural na parte centro-norte de Honduras.

A pobreza é geral, os empregos são escassos, famílias numerosas se espremem dentro de casas de adobe e muitas vezes as refeições são constituídas por pouco mais do que os cultivos de subsistência que os habitantes mantêm, em geral milho e feijão.

Mas de vez em quando acontece algo incrível, algo que faz com que os moradores de La Unión se sintam bastante especiais.

Chove peixe do céu, segundo eles.

Acontece todos os anos —pelo menos uma vez, mas com frequência mais— durante o final da primavera e o início do verão. E somente sob condições específicas: chuvas torrenciais, trovão e relâmpagos, condições tão intensas que ninguém se atreve a sair de casa.

Uma vez que passa a tempestade, os moradores pegam baldes e cestos e saem pela estrada até um pasto inundado, onde o chão fica coberto com centenas de pequenos peixes prateados.

Para alguns, é a única época do ano em que eles têm a oportunidade de comer pescados.

"É um milagre", explica Lucio Pérez, 45, um agricultor que viveu na comunidade de La Unión por 17 anos. "Nós vemos isso como uma bênção de Deus."

Pérez já ouviu diversas teorias científicas para o fenômeno. Ele diz que todas elas são repletas de imprecisões.

"Não, não, não há uma explicação", ele afirma, balançando a cabeça. "O que dizemos aqui em Yoro é que esses peixes são enviados por Deus."

Adriana Zehbrauskas/The New York Times
Catalina Garay mostra espinhas de peixes que supostamente caíram do céu durante tempestade dias antes e que foram comidos pela família, em La Unión (Honduras)

O fenômeno acontece no vilarejo e nos arredores há gerações, segundo os habitantes, mudando de ponto de vez em quando. Ele migrou para La Unión há cerca de uma década.

"Ninguém fora daqui pensa que chove peixe", diz Catalina Garay, 75, que, juntamente com seu marido, Esteban Lázaro, 77, criou nove filhos em sua casa de adobe em La Unión. "Mas chove peixe".

Alguns moradores atribuem a ocorrência às orações de Manuel de Jesús Subirana, um missionário católico da Espanha que, em meados dos anos 1800, pediu a Deus que acabasse com a fome e a pobreza da região de Yoro. Reza a lenda que logo depois de seu apelo, teve início a chuva de peixes.

Os restos mortais de Subirana estão enterrados na principal igreja católica da cidade, na praça central de Yoro.

"O povo o adorava", diz José Roberto Urbina Velásquez, administrador municipal de Yoro. "Existem tantas histórias sobre ele que você ficaria surpreso."

Moradores mais propensos à ciência sugerem que os peixes podem morar em rios subterrâneos ou em cavernas. Esses habitats transbordam durante grandes tempestades, e com a elevação das águas os peixes são jogados para o nível do solo. Uma vez que as chuvas param e as águas baixam, os peixes ficam presos em poças.

Outra teoria é que canos de drenagem sugam os peixes de corpos próximos de água —talvez até mesmo do oceano Atlântico, a cerca de 72 km de distância— e os depositam em Yoro. (Dessa forma, os peixes de fato cairiam do céu, mas a hipótese não explica como os jorros caem direto nas mesmas áreas todos os anos.)

Se é que alguém já fez algum estudo científico sobre o fenômeno, ele não é muito conhecido aqui. E, de qualquer forma, um número razoável de habitantes provavelmente não iria querer um.

Para eles, a religião fornece a explicação necessária.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times
La Unión, uma pequena comunidade rural em Yoro, em Honduras

"O povo tem uma fé intensa", diz Urbina, que prefere as explicações mais científicas para o fenômeno. "Você não pode falar 'não' para eles, porque isso os deixaria bravos."

Ninguém nunca de fato viu um peixe cair do céu, mas os moradores dizem que isso se deve ao fato de que ninguém se atreve a sair de casa durante as fortes tempestades que trazem os peixes.

"É um segredo que só nosso Senhor conhece", diz Audelia Hernández Gonzalez, pastora de uma das quatro igrejas evangélicas de La Unión. "É uma grande bênção porque vem dos céus".

"Veja", ela continua, "as pessoas que menos podem comer peixe agora conseguem comer peixe".

A colheita vira uma atividade comunitária para as cerca de 200 famílias de La Unión, e todos compartilham da dádiva. Aqueles que coletam mais redistribuem seus peixes para as famílias que não conseguem chegar a tempo de coletar sua parte, segundo a pastora.

Vender os peixes é proibido. "Você não pode vender a bênção do Senhor", ela explica.

O fenômeno se emaranhou com a identidade de Yoro e sua população de aproximadamente 93 mil habitantes.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times
Tempestade começa a se formar sobre La Unión

"Para nós, é uma fonte de orgulho", diz Luis Antonio Varela Murillo, 65, que viveu sua vida inteira no vilarejo. "Quando nós nos apresentamos, dizemos: 'Sou do lugar onde chove peixe'".

"O que não gostamos é do fato de que muita gente não acredita", ele acrescenta. "Eles dizem que é pura superstição."

Há cerca de duas décadas, o fenômeno é celebrado em um festival anual que inclui um desfile e um carnaval de rua. Jovens mulheres concorrem ao título de Señorita Lluvia de Peces (Miss Chuva de Peixes), e a vencedora do concurso sobe em um carro no desfile vestida de sereia.

Contudo, para além do festival, não há outros indicadores no vilarejo da grande importância do fenômeno: não há monumentos, placas ou suvenires em formato de peixe à venda nas lojas da cidade.

Urbina diz que a administração municipal anterior teve uma oportunidade de ouro para fazer algo de significativo. Planejadores haviam elaborado um projeto para uma fonte que seria iluminada à noite.

Mas, no lugar de uma fonte, foi erguida a escultura de um cogumelo, deixando muitas pessoas perplexas.

"Não sei o que aconteceu, mas apareceu um cogumelo", disse Urbina.

A prefeitura pode ter minimizado o potencial de marketing da chuva de peixes, mas a Igreja Católica não.

Em 2007, os jesuítas de Saint Louis fizeram uma campanha de arrecadação de fundos que incluía uma carta de solicitação mencionando a chuva de peixes.

"Cada presente, cada oração é como um desses 'peces' encontrados durante a 'Chuva de Peixes' anual", dizia a carta, usando a palavra em espanhol para peixe. "E cada uma dessas bênçãos, não importa o tamanho, trará uma ajuda tão necessária para os carentes."

Os jesuítas mantiveram uma missão durante muito tempo em Yoro.

O reverendo John Willmering, um dos atuais padres da missão, é um americano de Saint Louis que vive em Honduras há 49 anos, boa parte desse tempo em Yoro.

Ele conta que quando se mudou para a região de Yoro, a população era de maioria católica. Mas, desde então, segundo ele, a Igreja Católica "perdeu espaço". A população hoje é um terço católica, segundo suas estimativas, e o resto se divide entre evangélicos e aqueles que não aderem a nenhuma religião.

Ele é evasivo quanto à questão da chuva de peixes, deixando muito espaço para as explicações religiosas dos moradores.

"Acho que a maioria das pessoas que investigassem o fenômeno diriam que há uma explicação científica para isso",  ele diz, escolhendo cuidadosamente suas palavras.

Mas na falta de tais investigações, ele continua, a fé pode preencher essa lacuna.

"Ela trabalha junto com os fenômenos naturais quando você precisa", ele diz, com um sorriso despontando no canto da boca. "Digo, Deus está por trás de tudo."

Tradutor: UOL

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