Bachelet do Chile é a única mulher presidente que restou nas Américas

Ernesto Londoño

Em Santiago (Chile)

  • Meridith Kohut/The New York Times

    A presidente do Chile, Michelle Bachelet, cujo segundo mandato termina no próximo ano

    A presidente do Chile, Michelle Bachelet, cujo segundo mandato termina no próximo ano

Ninguém se deleitou com o marco mais do que a presidente Michelle Bachelet do Chile.

Durante alguns anos, ela e duas outras líderes mulheres comandaram boa parte da América do Sul, representando mais da metade da população do continente.

Suas presidências --na Argentina, no Brasil e no Chile-- tornaram a região um exemplo do ímpeto global por uma posição mais equitativa das mulheres na política. E o momento delas veio muito antes de os Estados Unidos, frequentemente considerados menos machistas do que a América Latina, sequer chegarem perto de elegerem uma mulher presidente.

Mas agora, com uma de suas colegas tendo sofrido um impeachment e a outra enfrentando acusações de corrupção, Bachelet se vê em uma posição preocupante: a última mulher que restou líder de um governo nas Américas.

E dentro de alguns meses ela também sairá.

Depois que o mandato de Bachelet terminar no ano que vem, nenhum dos países da América do Sul ou do Norte deverá ter uma mulher presidente, uma reviravolta notável em uma parte do mundo onde, até recentemente, mulheres foram eleitas para liderar influentes democracias.

"Talvez tenhamos tido um ciclo de hiper-abundância", ela disse durante uma entrevista recente no palácio presidencial em Santiago.

O fim da era Bachelet está levantando questões preocupantes para defensores dos direitos das mulheres, que esperavam que o histórico recente da região em eleger mulheres fosse ser um passo duradouro na direção da igualdade de gênero.

Dezenas de países no mundo inteiro, incluindo o Chile, adotaram sistemas de cotas em uma tentativa de aumentar a representação das mulheres no governo. No entanto, o progresso tem sido obstinadamente lento. Uma meta determinada pelas Nações Unidas nos anos 1990 de ter pelo menos 30% de mulheres entre os legisladores em parlamentos nacionais continua não alcançada; hoje, somente pouco mais de 23% dos legisladores são mulheres.

"São três passos para frente e seis passos para trás", disse Lakshmi Puri, vice-diretora-executiva da ONU Mulheres, uma agência das Nações Unidas que já foi dirigida por Bachelet e que foi criada em 2010 para promover os direitos das mulheres.

"Em todos esses países onde houve grandes saltos nas questões de igualdade de gênero, a onda pode facilmente retroceder", disse Puri.

As três poderosas mulheres presidentes da América do Sul --Bachelet, Dilma Rouseff no Brasil e Cristina Fernández Kirchner na Argentina-- assumiram o cargo com o apoio de populares titulares homens numa época em que partidos de esquerda que prometiam criar sociedades mais equitativas atraíam os eleitores.

Meridith Kohut/The New York Times
A presidente do Chile, Michelle Bachelet, no palácio presidencial, em Santiago

Mas o status das três presidentes --e a percepção de seus partidos-- sofreu uma vez que o fim do boom das commodities prejudicou as economias regionais e uma série de escândalos de corrupção colocaram em dúvida sua integridade e liderança.

"Todas elas são líderes imperfeitas, cada uma por suas razões próprias", disse Shannon K. O'Neil, uma especialista em América Latina no Council on Foreign Relations. Ela observou que nenhuma das presidentes conseguiu ficar à frente da corrupção que varre a região, deixando seus partidos, em graus diversos, serem contaminados por escândalos.

É comum presidentes verem sua popularidade despencar durante seus mandatos. Mas as três mulheres presidentes dizem que seu gênero as expôs a reações particularmente agressivas.

Rousseff disse ter sido chamada de vaca "umas 600 mil vezes" e atribuiu sua queda em parte à misoginia.

"Eles me acusavam de ser dura e severa demais, ao passo que um homem teria sido considerado firme e forte", disse Rousseff. "Ou diziam que eu era emotiva e frágil demais, quando um homem teria sido considerado sensível. Eu era vista como alguém obcecada por trabalho, ao passo que um homem teria sido considerado esforçado".

O sucessor de Rousseff, Michel Temer, nomeou um gabinete só de homens. E o Congresso brasileiro continua sendo um dos mais masculinos da região, com somente 11% de mulheres no legislativo.

Bachelet, 65, presidente do Chile, é uma pediatra e mãe solteira que começou sua carreira no governo como assessora no Ministério da Saúde, cresceu rapidamente tornando-se a primeira ministra da Saúde mulher do país em 2000 e depois sua primeira ministra da Defesa em 2002.

Ela conquistou sua presidência facilmente em 2006, sucedendo um aliado político, Ricardo Lagos. Bachelet não foi a primeira chefe de Estado mulher da região, mas ela foi vista por muitos como a primeira a ser eleita por mérito próprio, sem pegar carona em um marido politicamente poderoso. O momento divisor de águas inspirou mulheres em toda a América Latina.

Após as comemorações na noite de sua vitória em 2006, Bachelet voltou para casa assombrada por um encontro efêmero que teve durante a campanha.

"Se você for eleita, meu marido nunca mais baterá em mim", uma eleitora disse a Bachelet. Foi uma sensação assustadora, ela conta, de que ela havia se tornado "um repositório dos sonhos e das aspirações de tantas pessoas que tinham enormes expectativas para meu governo".

Durante seu primeiro mandato de quatro anos, Bachelet conduziu os esforços legislativos para conter a discriminação em locais de trabalho, para proteger vítimas de violência doméstica e para expandir a cobertura de saúde para mulheres, argumentando que era muito mais que uma questão de justiça.

"Eu sempre faço uma analogia com o futebol", disse Bachelet. "Se dos 11 jogadores só tivéssemos metade em campo, nunca ganharíamos uma partida. O país, para se desenvolver, precisa das habilidades de homens e mulheres".

Quando ela deixou o cargo em 2010, Bachelet, que não podia concorrer a um segundo mandato consecutivo, foi escolhida para ser a primeira diretora-executiva da ONU Mulheres. Ela conferia popularidade a uma nova agência que financiava iniciativas de combate à pobreza e incentivava a eleição de mais mulheres.

Mas suas ambições foram limitadas em parte por uma incapacidade de arrecadar dinheiro suficiente. Apesar da relação próxima entre Bachelet e Hillary Clinton, na época secretária de Estado americana, os Estados Unidos foram financiadores secundários da ONU Mulheres, tendo fornecido entre US$ 4,5 milhões e US$ 7,6 milhões (cerca de R$ 14 milhões a R$ 24 milhões) anualmente desde 2009.

Meridith Kohut/The New York Times
Michelle Bachelet faz pronunciamento à imprensa em Santiago, Chile

Bachelet logo voltou à política, voltando a conquistar a presidência em 2013. Durante seu segundo mandato, ela criou um Ministério da Mulher e da Igualdade de Gêneros, e aprovou uma mudança eleitoral que requer que pelo menos 40% dos candidatos a cargos eletivos sejam mulheres. Antes de sair, ela quer descriminalizar parcialmente o aborto, uma proposta que está sendo considerada pelo Congresso.

No entanto, Bachelet disse que deixaria o cargo ainda com muito por fazer. Somente 16% dos legisladores chilenos são mulheres. Para além disso, as mulheres chilenas ganham cerca de 32% menos que os homens, têm maior probabilidade de ficar desempregadas e menor probabilidade de obter empréstimos.

"A coisa mais difícil é mudar a cultura", disse Bachelet.

No mês passado mesmo, Sebastián Piñera, o ex-presidente conservador que hoje é o primeiro colocado na disputa para suceder Bachelet, foi criticado depois de divulgar um vídeo no qual ele fazia uma piada sobre estupro enquanto tentava animar uma plateia em um comício.

Bachelet ficou furiosa. "Fazer piada com isso é depreciar todas nós, e isso é inaceitável", ela escreveu no Twitter.

Embora o machismo permaneça na política chilena, Virginia Guzmán, uma socióloga do Centro de Estudos da Mulher em Santiago, disse que os mandatos de Bachelet haviam deixado uma marca indelével. As mulheres continuam sub-representadas na política, ela disse, mas elas haviam ganho peso em outras esferas, incluindo sindicatos e movimentos estudantis.

"Ela será lembrada como alguém que tentou levar o país na direção de se tornar mais democrático de maneiras importantes", disse Guzmán.

Ela disse que embora Bachelet tenha sido popular durante seu primeiro mandato, ela sentia que era avaliada segundo um padrão diferente dos políticos homens. Quando seu antecessor se emocionava em público, segundo Bachelet, ele era elogiado como um homem sensível.

"Se eu me mostrasse emotiva, se meus olhos marejassem, eu era vista como uma mulher incapaz de controlar suas emoções", ela disse.

Ela ficava irritada quando autores de editoriais criticavam suas decisões supondo que ela havia agido por conselhos equivocados de assessores homens. "Existe uma dificuldade em entender que como mulher você tem a capacidade de pensar, de tomar decisões autônomas", disse Bachelet.

As ex-presidentes da Argentina e do Brasil, embora diferentes de Bachelet em termos de estilo e estratégia, também falavam que eram alvo de críticas baseadas em gênero, e frequentemente de ataques muito mais grosseiros.

Fernández, da Argentina, que deixou o cargo em 2015 por não poder se recandidatar, costumava ser chamada de "yegua" (ou égua), uma gíria para prostituta. Alguns críticos da brasileira Rousseff andavam com adesivos obscenos da presidente de pernas abertas, colados em seus carros na parte onde a mangueira de gasolina é inserida.

E quando políticas mulheres se queixam de dois pesos e duas medidas na política, muitas vezes elas são acusadas de apelar para a questão do gênero, argumentou Farida Jalalzai, professora da Universidade de Oklahoma que publicou um livro no ano passado sobre as presidentes mulheres da América Latina.

"Não é nem algo sutil; é escancarado", ela disse. "É uma reação violenta para tentar mantê-las em seu lugar".

A porcentagem de mulheres legisladoras em todo o mundo subiu nas duas últimas décadas --de 11,7% em 1997 para cerca de 23%-- mas o progresso se estabilizou, de acordo com a União Interparlamentar, um grupo que promove a cooperação entre parlamentos.

"Levaremos outros 50 anos para alcançar a paridade se continuarmos nesse ritmo", disse Zeina Hilal, que estuda gênero e política na união. Ela disse que as mulheres tinham dificuldades para levantar dinheiro, assumir posições de liderança em partidos e superar o preconceito de eleitores que questionam a capacidade de liderança das mulheres.

Iván Aleite, um motorista de Santiago, disse que não via a hora de acabar o mandato de Bachelet. Sua popularidade decrescente como resultado de uma economia morosa e de investigações judiciais sobre contratos de negócios questionáveis feitos por seu filho e sua nora, segundo ele, são um sinal de que mulheres são incapazes de comandar o país. "Tenho uma teoria do porquê Donald Trump foi eleito", ele disse. "Os americanos viram os resultados das mulheres presidentes no resto do mundo, e a verdade é que, com exceção de Angela Merkle, nenhuma delas teve os meios necessários para governar".

Jalalzai ouviu argumentos parecidos de eleitores de toda a América Latina. Mas se a presidência de Trump acabar mal, ela argumenta, "as pessoas não dirão que ele foi um presidente horrível por ser homem".

Tradutor: UOL

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