O que Trump aprendeu com Clinton quando ataca a investigação sobre a Rússia?

Peter Baker

Em Washington (EUA)

  • Joshua Roberts/ Reuters

    24.jul.2017 - Donald Trump posa para foto com estagiários que estão deixando a Casa Branca, em Washington

    24.jul.2017 - Donald Trump posa para foto com estagiários que estão deixando a Casa Branca, em Washington

Mais de oito meses após sua eleição, o presidente Trump ainda ataca Hillary Clinton, criticando sua campanha e acusando-a de irregularidades. Em seu mais recente ataque pelo Twitter no sábado, ele sugeriu de novo que o Departamento de Justiça deveria investigar a "desonesta Hillary Clinton".

Mas ao menos de certo modo, Hillary se transformou em um modelo para Trump. Ao enfrentar o tipo de investigação politicamente carregada que perseguiu Bill e Hillary Clinton enquanto estavam na Casa Branca nos anos 90, Trump adotou conscientemente uma estratégia do manual dos Clintons. Assim como eles, Trump reuniu uma equipe de advogados de dentro e de fora da Casa Branca para traçar as questões ligadas à investigação longe da Ala Oeste. E deu início a uma campanha para desacreditar os investigadores antes que possam avançar na investigação, na esperança de fazer com Robert S. Mueller 3º, o investigador especial, o que os Clinton fizeram com Kenneth W. Starr, o investigador independente.

Conselheiros de Trump estudaram e expressaram de forma privada admiração pela forma sem limites com que os Clinton atacaram a integridade de Starr em todas as oportunidades, em um esforço para desviar a atenção para a conduta dele durante suas investigações dos casos Whitewater e Monica S. Lewinsky. Os conselheiros de Trump disseram que os Clinton sabiam "ir aos colchões" (expressão mafiosa para ir à guerra), uma frase às vezes usada com aprovação da atual Casa Branca, acrescentando que estavam tentando fazer o mesmo.

"A chave aqui é partir para a ofensa e definir seu oponente, e Trump é um mestre nisso em termos de mobilizar sua base", disse Ron Bonjean, um antigo estrategista republicano com laços com a Casa Branca. "Isso é exatamente o que os Clinton fizeram, que foi mobilizar sua base."

Mas a estratégia divide as equipes política e legal de Trump. Alguns dos advogados de Trump argumentam que é melhor o presidente não minar Mueller, um ex-diretor do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) que serviu a presidentes de ambos os partidos e desfruta de amplo respeito bipartidário em Washington.

Se o presidente não fez nada errado, eles argumentam, então permitir a Mueller chegar a essa conclusão por conta própria seria a melhor forma de finalmente acabar com a suspeita de conluio com a Rússia durante a eleição do ano passado. Uma exoneração por Mueller seria provavelmente mais aceita pelos independentes e até mesmo pelos democratas do que qualquer negação por parte de Trump.

O presidente parece ter rejeitado esse conselho. Mark Corallo, que serviu como porta-voz da equipe legal pessoal de Trump, deixou esse posto em parte por se recusar a participar de um esforço para manchar a reputação de Mueller. Corallo trabalhou no Departamento de Justiça sob o presidente George W. Bush, quando Mueller era diretor do FBI, e há muito expressa admiração por ele.

Em uma entrevista ao "New York Times" na semana passada, Trump se queixou de que Mueller tinha um conflito de interesse, por ter ido à Casa Branca para uma entrevista com o presidente para se torna de novo diretor do FBI pouco antes de aceitar o posto de investigador especial. "Eu disse: 'Que diabos é isso?'" disse Trump. "Isso é que é conflito. Mas ele estava sendo entrevistado para o cargo. Há muitos outros conflitos sobre os quais ainda não falei, mas falarei no momento oportuno."

A equipe de Trump está realizando pesquisa visando oposição a Mueller e seu crescente pessoal, à procura de pontos vulneráveis. O presidente e seus aliados apontaram publicamente que alguns dos advogados contratados por Mueller para sua equipe contribuíram com dinheiro para Hillary Clinton e outros democratas no passado; um deles representou a fundação da família Clinton. Contribuições para os democratas não desqualificam alguém de trabalhar para Trump, como é o caso de seu novo diretor de comunicações, Anthony Scaramucci, que doou dinheiro para Hillary e Barack Obama no ciclo eleitoral de 2008, mas segundo o presidente e sua equipe comprometem a equipe de Mueller.

Mueller não responde aos ataques e o Departamento de Justiça disse que quaisquer conflitos de interesse potenciais serão tratados de acordo com os procedimentos normais. Ao usar o termo "conflito de interesse", Trump pode estar preparando uma desculpa para uma eventual ordem pelo Departamento de Justiça de demissão de Mueller. Segundo os procedimentos atuais, o investigador especial só pode ser afastado sob certas circunstâncias, incluindo conflito de interesse.

Ainda não se sabe se Trump conseguirá fazer com Mueller o que os Clintons fizeram com Starr. Os Clinton não partiram para o ataque quando o primeiro investigador especial, Robert Fiske, foi escolhido para estudar seus negócios imobiliários. Eles mudaram de estratégia apenas depois que Starr foi escolhido para substituir Fiske por um painel de três juízes liderado por um juiz conservador que, pouco antes da escolha, almoçou com dois senadores republicanos que eram fortes críticos dos Clinton.

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Apesar de Starr, um ex-procurador-geral e juiz de tribunal de apelação, ser amplamente respeitado antes de se tornar investigador especial, ele era visto como um conservador cuja parcialidade foi imediatamente questionada. Ao longo de sua investigação, ele tomou decisões que deram munição aos Clinton enquanto estes atacavam a forma como ele estava lidando com o caso.

Mueller, por sua vez, não é visto como uma figura política. Um fuzileiro condecorado por combate na Guerra do Vietnã, ele foi um promotor de carreira que ascendeu até o comando do FBI, nomeado por Bush e nomeado de novo por Obama. Conhecido por ser direto, ele liderou o birô por 12 anos, o tornando o diretor de maior longevidade no cargo fora J. Edgar Hoover.

"Eles estão adotando o manual dos Clintons de uma etapa bem posterior daquela investigação, quando o próprio público passou a gradualmente questionar o comportamento de Starr e a ficar ultrajado com o relatório de Starr", disse Ken Gormley, presidente da Universidade Duquesne e autor de "The Death of American Virtue" (A morte da virtude americana, em tradução livre, não lançado no Brasil), a história definitiva da luta entre Bill Clinton e Starr. "O que pode acontecer quando você começa a atacar alguém que não foi visto fazendo nada errado e está apenas realizando seu trabalho é gerar simpatia pelo investigador especial, minando o propósito dos ataques."

Veteranos da equipe Clinton disseram que o ataque à forma como Starr estava lidando com a investigação foi importante para mobilizar o apoio dos democratas a Bill Clinton e lhes dar outro foco fora a conduta do presidente.

"Suas opções políticas são meio que limitadas, como mobilizar a base e fazer o que puder para questionar a credibilidade da investigação", disse James Carville, um antigo conselheiro de Clinton que liderou os ataques contra Starr.

Mas ele disse duvidar que funcione contra Mueller. "O outro fato é que Starr era hipócrita, inexperiente e claramente partidário", disse Carville. "Mueller não é nada disso."

Os Clinton atacaram em grande parte Starr por meio de outros, como Carville. Seus advogados impetraram queixas em vários tribunais atacando a conduta de Starr na investigação e o acusando de vazamentos ilegais. Mas diferente de Trump, o próprio presidente evitou se envolver diretamente, com a principal exceção sendo a noite em que depôs para um grande júri federal, em agosto de 1998, e foi à televisão com um duro e furioso ataque a Starr. Assessores e analistas independentes concluíram que esse discurso foi um erro.

O ataque de Clinton a Starr teve sucesso em caracterizar a investigação como sendo partidária. Mas não impediu a investigação, que levou a Câmara a votar em grande parte segundo a divisão partidária pelo impeachment de Clinton por perjúrio e obstrução da Justiça para encobrir seu caso com Lewinsky, que era ligado a um processo. Após o julgamento no Senado, Clinton foi absolvido e concluiu seu mandato.

Alguns republicanos dizem que a estratégia de atacar Mueller foi, na melhor hipótese, precipitada e, na pior, insensata. "A resposta fácil é que Clinton sofreu impeachment. Como isso funcionou?" disse Rich Galen, um antigo estrategista republicano. "Se alguém estiver à procura de uma lição sobre como não fazer isso, então é assim."

Além disso, acrescentou Galen, o tema da investigação é bem mais sério do que as mentiras de Clinton sobre sexo, o que torna mais difícil marginalizá-la aos olhos do público.

"Não se trata de sexo e não é algo bobo", ele disse. "Isso envolve se a família Trump e seus amigos trataram ou não, ativamente ou não, com um governo estrangeiro inamistoso para que realizasse o trabalho sujo a se favor contra Hillary Clinton."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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