Califórnia vira território inimigo para a polícia imigratória do governo Trump

Jennifer Medina e Miriam Jordan

Em Riverside (Califórnia)

  • Melissa Lyttle/The New York Times

    Fidel Delgado é preso pela polícia imigratória na Califórnia

    Fidel Delgado é preso pela polícia imigratória na Califórnia

Assim que amanheceu, uma fila de policiais marchou até o portão da casa de Fidel Delgado com armas em punho, um deles segurando um rifle. Delgado saiu de sua casa sem camisa, parecendo confuso.

"¿Qué necesita?", ele perguntou. Precisam de alguma coisa?

Cerca de 20 minutos mais tarde e a 16 km de lá, Anselmo Morán Lucero sentiu exatamente por que os policiais haviam vindo. Ele os vira enquanto voltava para casa depois de passar a noite fora e deu meia-volta com sua caminhonete. Mas um SUV sem identificação o fechou e outro piscou seus faróis atrás dele, impedindo sua fuga.

Eles perguntaram seu nome. Perguntaram se ele sabia por que estava sendo preso. Lucero fez que sim com a cabeça.

Todos os dias nos Estados Unidos, desde antes do nascer do Sol até tarde da noite, pessoas como Delgado e Lucero estão sendo perseguidas por agentes da Immigration and Customs Enforcement (ICE, agência federal de imigração), os soldados da linha de frente na repressão do presidente Donald Trump contra a imigração ilegal.

Mais de 65 mil pessoas foram presas pela agência desde que Trump assumiu a presidência, um aumento de quase 40% em relação ao mesmo período no ano passado e um sinal certo de que os Estados Unidos hoje são um lugar mais difícil para se estar como um imigrante ilegal.

Mas a ICE de certa forma está operando em território inimigo na Califórnia, lar de mais de 2 milhões de imigrantes não autorizados e contrária à ideia de deportações em massa. Como muitas vezes policiais locais não entregam imigrantes ilegais sob sua custódia, a ICE precisa efetuar a maior parte de suas prisões em residências, locais de trabalho e nas ruas, o que é mais complicado do que simplesmente pegar pessoas em cadeias, e possivelmente mais perigoso.

Então quando uma equipe de agentes da imigração se reuniu às 4h30 de uma manhã já quente de junho, o chefe deles, David Marin, alertou para que eles ficassem longe de qualquer sinal de perigo.

Depois de revisar anotações sobre cada um dos homens que estavam procurando, membros da equipe chegaram em seus SUVs sem logo. Oito horas depois, cinco homens estavam sob custódia, aguardando o início do processo de deportação.

O "New York Times" acompanhou a equipe por um dia enquanto ela cruzava as ruas e a política do sul da Califórnia, e falou com alguns dos homens que ela prendeu e as famílias que em breve eles podem deixar para trás.

Uma prisão imprevista

Enquanto o Sol ia surgindo no horizonte, os agentes se reuniram em uma colina a algumas centenas de metros da casa de Delgado. Mas não era atrás de Delgado que eles estavam, e sim de seu filho Mariano.

Mariano Delgado, 24, havia voltado para o México em 2011 depois que ele foi condenado por dirigir embriagado. Desde que voltou a entrar ilegalmente nos Estados Unidos, ele foi preso quatro vezes por agressão com arma letal.

Imigrantes como ele são chamados de "estrangeiros criminosos", e há tantos deles no sul da Califórnia que Marin diz que na prática é impossível ir atrás de qualquer outra pessoa. Mas no governo Trump os agentes estão sendo encorajados a também prenderem imigrantes ilegais sem histórico criminal grave, um rompimento com a política do governo Obama de basicamente deixar esse tipo de imigrante em paz.

Então agora, aqui e no resto do país, há agentes efetuando mais prisões "colaterais", de pessoas indocumentadas que eles encontram enquanto estão procurando outras pessoas. É o que estava prestes a acontecer.

Quando agentes, de arma em punho, se aproximaram do alambrado que cercava a casa, os cães começaram a latir alto, somando-se às galinhas cacarejantes. Fidel Delgado apareceu.

O Delgado pai, 46, e sua mulher, María Rocha, disseram aos agentes que seu filho havia se mudado para o Texas meses atrás. Eles logo admitiram que estavam no país ilegalmente, mas disseram que trabalhavam. O filho mais novo deles, de 16 anos, é cidadão nascido nos Estados Unidos. Quando os agentes o arrancaram da cama, ele começou a chorar.

Depois de tirar as impressões digitais de Fidel Delgado, eles as rodaram em um banco de dados. Em poucos minutos descobriram que uma vez ele havia cruzado a fronteira ilegalmente, duas vezes no mesmo dia, e havia sido enviado de volta para o México.

Uma dupla de agentes discutia sobre o que fazer: deveriam levar os pais e ligar para o Serviço de Proteção à Infância para buscar o rapaz? Deveriam acreditar que Mariano Delgado não morava mais ali, embora pensassem que ele estava em casa até semana passada?

"Se ele não entregar o filho, vamos levá-lo", disse um dos agentes.

Eles deixaram a mulher para trás e conduziram Delgado até uma van, onde ele foi algemado. As algemas deixariam marcas.

Mais tarde naquela manhã, Rocha, 50, encostou na cerca, esgotada e em choque.

"Eles não tinham motivo para levar meu marido", ela disse. "Eles não estavam atrás dele".

A família morou na casa branca de três quartos no enclave proletário e semi-rural de Riverside durante três anos, pagando um aluguel de US$ 1.300 (pouco mais de R$ 4 mil) por mês. Rocha, que faz faxina em escritórios na cidade vizinha de Corona, uma comunidade de classe mais alta, disse que ela trazia US$ 1.200 por mês para casa. Seu marido, que ordenha vacas em uma fazenda de laticínios, ganha cerca de US$ 12 (R$ 37) por hora.

O casal se casou no México há 24 anos, logo antes de partirem para o norte. "Viemos aqui em busca de uma vida melhor", ela disse. Ela conta que em todos seus anos nos Estados Unidos, nunca teve problemas com "la migra", como a agência de imigração é conhecida.

À tarde Delgado já havia sido liberado por agentes da imigração, que decidiram que ele não era uma ameaça à segurança pública. Ele recebeu uma notificação de que deveria obedecer a qualquer ordem dada por agentes da imigração e voltou para o trabalho no dia seguinte.

Agência sob observação cuidadosa

Antes de sair atrás de seus alvos do dia, a equipe da ICE se reuniu na escuridão no estacionamento de uma pequena loja de ferramentas. Marin, o supervisor, testou seus agentes: A que horas esse homem sairá de casa? Para que lado aquele ali vai virar quando ele sair com seu carro? Quando o outro chegará em casa de seu turno da noite?

Os agentes vinham observando os homens durante dias, estudando seus hábitos para que pudessem capturá-los mais facilmente.

Marin, 48, trabalhou na imigração por mais de duas décadas, e começou quando a agência era chamada de Serviços de Imigração e Naturalização.

Ele diz que nos anos 1990 os agentes passavam boa parte de seu tempo revistando imigrantes na frente de lojas de artigos de construção, prendendo as pessoas tantas vezes que eles as conheciam só de olhar. Marin disse que poucas horas depois de serem levados de ônibus de volta para o México, eles já estavam a caminho dos Estados Unidos novamente.

Assim como aproximadamente metade dos outros agentes, Marin começou sua carreira nas Forças Armadas, servindo como fuzileiro naval. Ele colecionava tatuagens da mesma forma que outros colecionam copinhos de shot. Em seu braço esquerdo ele carrega a primeira letra da palavra "cristão" escrita em árabe, para lembrar seu trabalho coletando dados sobre o Taleban no Paquistão.

Embora tenha tido que fazer um curso básico de espanhol no começo de sua carreira, hoje Marin mal fala uma palavra da língua. Mas muitos agentes falam. Quase 40% dos agentes de Marin são latinos, ele disse, e muitos deles ouvem repetidas vezes: "Como você pode fazer isso com seu próprio povo?" Eles não pedem desculpas.

Mas a agência está sob observação cuidadosa aqui. As prisões na região de Los Angeles subiram somente 17% desde que Trump assumiu a presidência, muito menos que no resto do país, de acordo com estatísticas da ICE.

Membros do Congresso e autoridades locais costumam ligar para o celular de Marin quando ouvem falar de prisões em sua área.

"As pessoas querem saber se estamos indo nas escolas, se ficamos no meio da feira, mas não é isso que fazemos", disse Marin, dirigindo antes do amanhecer. "Sabemos que uma prisão é um acontecimento traumático para uma família. Sabemos o impacto que ela tem, e levamos isso muito a sério".

A sorte acaba

Enquanto Delgado estava sendo interrogado, outros membros da equipe esperavam por Lucero, que já havia sido deportado uma vez.

Lucero, 51, e sua mulher Jamie, 47, chegaram de um pequeno vilarejo do Estado mexicano de Puebla há mais de três décadas. Ele havia construído um próspero negócio de paisagismo, cuidando dos jardins residenciais do rico Condado de Orange.

Em 2006, Lucero foi condenado em um caso de violência doméstica e passou vários meses na cadeia, e depois foi deportado. Mas ele se reconciliou com sua mulher e estava ansioso para voltar para ela e seus seis filhos, dois deles nascidos nos Estados Unidos. Então voltou a cruzar a fronteira ilegalmente.

Agentes da imigração tentaram entrar em contato com a delegacia do Condado de Orange para segurar Lucero para eles quando ele estava na cadeia por um dia, acusado novamente de violência doméstica em 2014. Mas o xerife negou, de acordo com a ICE. Muitas delegacias de condados e departamentos de polícia da Califórnia não cooperam com agentes da imigração, dizendo que isso destrói a confiança na polícia entre populações de imigrantes. Trump ameaçou punir essas chamadas cidades e condados santuários, dizendo que eles abrigam criminosos.

Lucero disse que por várias noites antes de a equipe da ICE aparecer, ele sonhou com agentes da imigração vindo buscá-lo. Na noite anterior, ele e sua mulher tentaram a sorte em um cassino próximo, jogando nas máquinas caça-níqueis até o Sol nascer. Eles ganharam cerca de US$ 200 e foram embora pouco antes das 6h.

Quando começaram a dirigir de volta para casa, o irmão de Lucero, com quem a família mora, os alertou que havia agentes da imigração por perto. Mas Lucero não conseguiu fugir deles.

Horas após a prisão de seu marido, Jamie Lucero, com os olhos vermelhos de tanto chorar, sacou uma pasta azul contendo documentos dele bem organizados, incluindo papeis que mostravam que ele havia cumprido um programa de controle de raiva e seguido as regras da condicional de seu processo por violência doméstica. Ela planejava levar a pasta consigo quando o visitasse na prisão, embora fosse improvável que os documentos fossem ter alguma relevância em seu novo caso de deportação.

O filho deles de 29 anos, Urie, disse que na semana anterior quatro agentes haviam batido à porta segurando a foto de um homem careca que diziam estar procurando. Eles nunca mencionaram o nome do homem, e Urie Lucero disse que não o reconhecia.

Mas os agentes entraram na casa e olharam os cômodos. A família está convencida de que a visita e a foto do homem careca eram truques para tentar investigar a localização de Anselmo Lucero. "É assim que estão pegando as pessoas", disse Urie Lucero.

Jamie Lucero disse que os agentes haviam dito para ela nem se dar ao trabalho de contratar um advogado, porque ele certamente seria deportado.

Até a hora do almoço, os agentes tinham cinco imigrantes sob custódia: três de seus seis alvos do dia, bem como Delgado e outro homem que eles encontraram na casa de um alvo. Normalmente os agentes prendem cerca de metade das pessoas que estão procurando, segundo Marin, então esse era um bom dia.

"Criminosos fora das ruas, esse é nosso objetivo", ele disse dentro do centro de processamento de San Bernardino, para onde imigrantes da região são levados todos os dias.

Os homens que eles prenderam estavam sentados dentro de uma pequena cela da carceragem, segurando seus saquinhos pardos contendo um sanduíche de peru e uma maçã. Marin e um de seus assistentes saíram para almoçar em uma pequena taqueria mexicana.

Tradutor: UOL

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