Iminente soltura de padre condenado por pedofilia provoca revolta nos EUA

Katherine Q. Seelye

Em Boston (EUA)

  • Charles Krupa/AP

    15.fev.2005 - O padre Paul Shanley (centro) ouve sua sentença na corte Middlesex em Cambridge, Massachusetts (EUA)

    15.fev.2005 - O padre Paul Shanley (centro) ouve sua sentença na corte Middlesex em Cambridge, Massachusetts (EUA)

Quando tinha 21 anos e estava assumindo ser gay, John Harris foi encaminhado a um padre carismático, Paul Shanley, para orientação.

"Ele me estuprou, sob o pretexto de estar me ajudando", lembrou Harris, atualmente com 59 anos, na última quarta-feira (26). Desde o episódio, em 1979, Harris disse que passou a ter dificuldade em confiar nas pessoas, o que levou a beber em excesso e a uma depressão tão severa que chegou a ser hospitalizado.

Shanley foi expulso da igreja pelo Vaticano em 2004 e condenado em 2005 por estuprar repetidas vezes um menino durante os anos 80 em uma paróquia suburbana. Condenado a 12 a 15 anos de prisão, ele se tornou um dos padres mais notórios no escândalo de abuso sexual que abalou a Igreja Católica Apostólica Romana.

Apesar do escândalo de abuso de crianças por padres ter diminuído um pouco em comparação às manchetes explosivas do início dos anos 2000, a questão continua se desdobrando aqui em Boston, o epicentro dos abusos nos EUA.

Shanley tem agora 86 anos. Após 12 anos de prisão, ele deverá ser solto nesta sexta-feira (38) do Old Colony Correctional Center, um presídio de segurança média em Bridgewater, Massachusetts. Sua soltura iminente tem perturbado suas vítimas e as famílias delas, que na quarta-feira disseram esperar que os moradores de qualquer cidade na qual Shanley seja solto o monitorem e informem seu paradeiro.

Harris o chamou de "alto predador sexual" que é um risco para pessoas de todas as idades e provavelmente comentará mais abuso, já que nunca reconheceu ter feito qualquer coisa errada.

O caso chamou atenção porque é raro um padre que cometeu abuso ir para a prisão. Mas os casos envolvendo padres estão se acumulando nos últimos anos.

Em seu relatório anual do ano passado, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos disse que de 1º de julho de 2015 a 30 de junho de 2016, ela recebeu 730 alegações críveis de abuso contra 316 padres. O número, mais que o dobro em comparação ao ano anterior, reflete uma mudança temporária na lei de Minnesota que permite que vítimas de casos de abuso mais antigos prestem queixa.

Também reflete um aumento da conscientização pública provocada pelo filme "Spotlight: Segredos Revelados", que narrou a exposição de abusos pelo jornal "The Boston Globe".

As vítimas "ainda estão se apresentando", disse Mitchell Garabedian, o advogado que foi interpretado por Stanley Tucci no filme e que representou muitas das vítimas em processos contra a Arquidiocese de Boston.

"Não tem fim", disse Garabedian a respeito do escândalo. "Por causa de filmes como 'Spotlight', por causa da soltura de Shanley, as vítimas se sentem empoderadas e estão se apresentando, seja em Boston ou ao redor do mundo." Ele disse que representou vítimas de 15 países.

Desde 1950, a Igreja Católica nos Estados Unidos gastou estimados US$ 4 bilhões em acordos em casos envolvendo alegações de abuso sexual por padres, segundo o jornal "The National Catholic Reporter". Grande parte do dinheiro foi gasto em acordos com as vítimas, custas legais, apoio aos infratores e terapia para as vítimas.

Após a condenação de Shanley, os promotores do condado de Middlesex pediram ao tribunal que ele fosse mandado para prisão pelo restante de sua vida. Agora que Shanley está prestes a ser solto, as vítimas e seus advogados querem que ele permaneça detido indefinidamente, segundo uma lei de Massachusetts que permite ao Estado manter presos sob custódia mesmo após a conclusão de suas penas. Mas o Estado precisa provar que Shanley é incapaz de controlar quaisquer impulsos sexuais perigosos.

Marian T. Ryan, a atual promotora pública de Middlesex, disse em uma declaração que seu gabinete contratou dois peritos em psiquiatria para avaliarem Shanley. Ela disse que se esses médicos concluírem que ele não atende nenhum critério legal de pessoa sexualmente perigosa, ele será solto.

O próximo endereço de Shanley, que quase certamente será em Massachusetts, não foi divulgado publicamente. Ele deverá iniciar um período de 10 anos de liberdade condicional supervisionada, mas não usará tornozeleira eletrônica. Ele está proibido de ter contato com crianças menores de 16 anos.

Seu advogado não pôde ser contatado para comentários, mas disse à agência de notícias The Associated Press que ele "cumpriu sua pena".

"Nunca acreditamos que ele era perigoso", disse Robert Shaw Jr., o advogado de Shanley, para a AP. "Não acreditamos que o motivo para ter sido condenado tenha sido válido, dado que a condenação foi baseada em evidência de memória reprimida, que não acreditamos ser válida."

Mas alguns de seus acusadores, seus pais e seus advogados se reuniram na quarta-feira para protestar contra sua soltura e pediram por uma mudança na lei que permite a soltura de um homem que descrevem como um criminoso monstruoso.

"Se alguém se encaixa no perfil de predador sexual perigoso, este é Paul Shanley", disse Paula Ford, cujo filho, Gregory, diz ter sido atacado sexualmente por Shanley.

Rodney Ford, o pai de Gregory, visivelmente perturbado com a perspectiva de Shanley perambulando pelas ruas, pediu a todos que o vissem que o importunassem. Advogados disseram que os vizinhos devem colar cartazes alertando "Cuidado" com a presença de um predador em seu meio.

Até mesmo a Arquidiocese de Boston, que protegeu Shanley por muitos anos, chamou seu abuso sexual de crianças como "repreensível".

"Nenhuma criança deveria experimentar violações desse tipo à sua segurança e dignidade", disse a arquidiocese em seu site. "Continuamos dedicando a todas as vítimas de abuso nossas orações e nossa preocupação." A arquidiocese não quis comentar a soltura de Shanley.

"Shanley foi voraz", disse Carmen Durso, um advogado que representou várias vítimas de abuso sexual. "Ele tinha vários encontros sexuais por dia com diferentes pessoas."

Ele disse que apesar de Shanley ter 86 anos, idade não indica se alguém continuará ou não sua atividade sexual.

Durso disse que ele e Garabedian tentaram sem sucesso falar com os peritos médicos que liberaram Shanley para soltura. Os advogados disseram que pretendem se encontrar com juristas e buscar mudanças na lei que permite a soltura de Shanley. O Legislativo estadual teria que aprovar quaisquer mudanças.

"Esses médicos olharam para o histórico de Paul Shanley e não entendo como não puderam determinar que se trata de um predador sexual, pura e simplesmente", disse Garabedian.

"Ele ficava na rodoviária de Trailways com outros homens pegando crianças que desciam sozinhas dos ônibus", ele disse. "E agora ele estará solto por aí na sociedade, sem ser vigiado ou controlado."

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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