Jovens que foram escravas sexuais do Estado Islâmico revelam traumas profundos

Rukmini Callimachi

No acampamento de Shariya (Iraque)

  • Alex Potter/The New York Times

    Souhayla, uma jovem que foi mantida sob o poder do Estado Islâmico por três anos, na casa de seu tio, em Shariya, Iraque

    Souhayla, uma jovem que foi mantida sob o poder do Estado Islâmico por três anos, na casa de seu tio, em Shariya, Iraque

A garota de 16 anos, deitada de lado em um colchão sobre o chão, não consegue erguer a cabeça. Seu tio a levanta para beber água, mas ela mal consegue engolir. Sua voz está tão fraca que ele precisa encostar seu ouvido diretamente na boca dela para conseguir escutá-la.

A menina, Souhayla, deixou a parte mais destruída de Mossul este mês, libertada após três anos de cativeiro e seguidos estupros quando seu sequestrador do Estado Islâmico foi morto em um ataque aéreo. Seu tio descreveu sua condição como "em estado de choque". Ele convidou repórteres para ver Souhayla, para que eles pudessem documentar o que o sistema de abusos sexuais do grupo terrorista havia feito com sua sobrinha.

"Foi isso que eles fizeram com nosso povo", disse Khalid Taalo, seu tio.

Desde que a operação pela retomada de Mossul teve início no ano passado, cerca de 180 mulheres, meninas e crianças da minoria étnica yazidi que haviam sido capturadas em 2014 pelo Estado Islâmico foram libertadas, de acordo com a Agência para o Resgate de Sequestrados do Iraque.

Mulheres que foram resgatadas nos dois primeiros anos depois que o Estado Islâmico invadiu sua terra voltaram para casa com infecções, membros fraturados e pensamentos suicidas. Mas agora, após três anos de cativeiro, mulheres como Souhayla e duas outras que foram vistas na semana passada por repórteres estão muito mais abaladas, mostrando sinais extraordinários de danos psicológicos.

"Muito cansada", "inconsciente"" e "em profundo estado de choque e transtorno psicológico" foram as descrições usadas pelo Dr. Nagham Nawzat Hasan, um ginecologista yazidi que tratou mais de mil das vítimas de estupro.

"Achávamos que os primeiros casos tinham sido difíceis", disse Hasan. "Mas os casos após a libertação de Mossul eram muito mais difíceis".

O choque se expressa em mulheres e meninas que dormem por dias a fio, aparentemente incapazes de acordar, disse Hussein Qaidi, diretor da agência de resgate de sequestrados. "Noventa por cento das mulheres que saem ficam assim", ele disse, pelo menos por algum tempo depois que elas retornam.

Tanto Souhayla quanto sua família pediram para que ela fosse identificada e fotografada, em uma tentativa de chamar atenção para o sofrimento de sua comunidade. Seu tio postou sua imagem no Facebook imediatamente depois de ela ser solta, com uma descrição sobre o que o Estado Islâmico havia feito com ela.

Taalo disse que há mais de um ano ele sabia a localização de sua sobrinha, bem como o nome do combatente do Estado Islâmico que a mantinha presa. Ele recrutou a ajuda de um contrabandista que, correndo grandes riscos, fotografou Souhayla através da janela da casa onde ela estava sendo mantida e enviou imagens para sua família.

Mas era perigoso demais para tentar um resgate.

Alex Potter/The New York Times
Souhayla na casa de seu tio, em Shariya, Iraque


Souhayla escapou no dia 9 de julho, dois dias depois que um ataque aéreo derrubou uma parede do prédio onde ela estava sendo mantida, soterrando outra garota yazidi que estava sendo mantida presa junto com ela e matando o sequestrador que abusava delas, disse seu tio.

Naquele momento, ela teve forças o suficiente para escalar por cima dos escombros e se encaminhar até o primeiro ponto de controle iraquiano.

Quando sua família foi buscá-la, ela correu para abraçá-los.

"Corri até ela, ela correu até a mim, e começamos a chorar e a rir também", disse Taalo, irmão do pai de Souhayla, que continua desaparecido desde que o Estado Islâmico assumiu controle da cidade. "Ficamos ali abraçados, chorando e rindo, até cairmos no chão".

Mas poucas horas depois ela parou de falar, ele conta.

Quando eles chegaram ao acampamento onde sua mãe e sua família estendida haviam encontrado refúgio depois que o Estado Islâmico invadiu seu vilarejo, Souhayla aparentemente entrou em um estado de inconsciência. Os médicos que a examinaram prescreveram antibióticos para uma infecção do trato urinário. Ela também mostrava sinais de desnutrição.

Nada disso explicava seus sintomas extremos, segundo sua família e um dos médicos que a examinaram.

"Estou feliz de estar em casa", ela sussurrou com dificuldade no ouvido de seu tio, em resposta à pergunta de um repórter, "mas estou doente".

O Estado Islâmico vinha controlando Mossul há dois meses em 2014 quando os líderes do grupo decidiram que queriam tomar Sinjar, um maciço montanhoso amarelo de quase 100 km ao norte. Seus sopés e vilarejos montanhosos foram durante muito tempo a base da vida para os yazidis, uma minúscula minoria que corresponde a menos de 2% da população de 38 milhões do Iraque.

A religião centenária dos yazidis gira em torno do culto a um único Deus, que por sua vez criou sete anjos sagrados. Essas crenças levaram o Estado Islâmico a rotular os yazidis como politeístas, uma categoria perigosa na nomenclatura do grupo terrorista.

Baseando-se em um corpus pouco conhecido e praticamente extinto da lei islâmica, o Estado Islâmico argumentava que a posição religiosa da minoria os tornava qualificados para a escravidão.

No dia 3 de agosto de 2014, comboios de combatentes subiram acelerando o monte, se espalhando pelos vales adjacentes. Entre as primeiras cidades pelas quais eles passaram no caminho para o topo da montanha estava Til Qasab, com seus prédios baixos de concreto cercados por planícies de grama clara.

Era ali que Souhayla, na época com 13 anos, vivia.

Um total de 6.470 yazidis na montanha foram sequestrados, de acordo com autoridades iraquianas, incluindo Souhayla. Três anos mais tarde, 3.410 permanecem em cativeiro ou estão desaparecidos, segundo Qaidi, da agência de resgates de sequestrados.

Nos dois primeiros anos de cativeiro, Souhayla foi passando pelo sistema de escravidão sexual do Estado Islâmico, tendo sido estuprada por sete homens no total, segundo ela e seu tio.

Quando teve início a operação pela retomada de Mossul, ela foi sendo levada cada vez mais para dentro da área mais atingida pelo conflito, enquanto as forças de segurança acuavam o grupo terrorista para uma pequena faixa de terra perto do Rio Tigre. A área foi atingida por artilharia, ataques aéreos e carros-bomba, e metralhada por helicópteros de ataque.

Quando o Estado Islâmico começou a perder o controle sobre a cidade, o sequestrador de Souhayla cortou o cabelo dela curto como o de um menino. Ela entendeu que ele planejava tentar passar com ela pelas forças de segurança iraquianas, disfarçada de refugiado, e levá-la consigo, segundo seu tio.

Taalo hoje passa seus dias cuidando da recuperação de sua sobrinha. Para se sentar, ela segurava uma das vigas de metal que sustentam a barraca de sua família e se levantava, enquanto seu tio empurrava por trás. Mas logo ela perdia as forças e voltava a cair deitada.

Alex Potter/The New York Times
Souhayla se prepara para jantar. Uma faixa cobre as cicatrizes em seu pulso quando ela tentava fugir de seus sequestradores

Ele usava uma toalhinha para enxugar sua testa com ela deitada em seu colo. Sua boca abria e seus olhos se reviravam.

Depois que ela escapou, quase duas semanas se passaram até que ela conseguiu ficar em pé por mais de alguns minutos, com as pernas bambas.

Autoridades dizem que mulheres que escaparam recentemente estão mostrando um grau incomum de doutrinação.

Duas irmãs yazidi, de 20 e 26 anos de idade, chegaram ao campo de refugiados de Hamam Ali 1, onde chamaram a atenção de funcionários do acampamento por estarem usando niqabs que cobriam o rosto e se recusarem a tirá-los, apesar do fato de que mulheres yazidi não cobrem o rosto.

Elas descreviam os combatentes do Estado Islâmico que as estupraram como seus "maridos" e como "mártires", disse Muntajab Ibraheem, um encarregado do acampamento e diretor da Organização Humanitária de Salvação Iraquiana.

Em seus braços estavam as três crianças que deram à luz no cativeiro, filhos de seus estupradores. Mas elas se recusavam a cuidar delas, disse o contrabandista enviado pela família delas para buscá-las. Ele e funcionários do acampamento preencheram documentações para que as crianças pudessem ser entregues ao Estado, ele disse.

Um vídeo gravado no celular do contrabandista mostra o que aconteceu quando as irmãs viram sua família pela primeira vez depois que voltaram. Seus parentes correram para abraçar as mulheres abatidas. Elas choraram.

A mãe delas, angustiada, foi para trás da tenda, tentando se equilibrar.

Um dia depois que o vídeo foi feito, repórteres foram ver as mulheres, e elas já não conseguiam mais ficar em pé. Elas permaneciam deitadas em colchões entre as paredes de plástico de sua barraca.

Apesar das vozes altas ao redor e do fluxo de visitantes, apesar dos lamentos de sua mãe, elas não se mexiam.

Do lado de fora, chegavam parentes de carro trazendo caixas de refrigerante de laranja. Eles saíam da tenda cobrindo a boca com as mãos, tentando conter os soluços.

Membros da família disseram que, com exceção de alguns breves momentos, as mulheres não acordaram desde então, há mais de uma semana.

Tradutor: UOL

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