Aumento das sanções dos EUA contra a Venezuela pode prejudicar os dois países

Clifford Krauss

Em Houston (EUA)

  • Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Os Estados Unidos e a Venezuela estão em rota de colisão à medida que o presidente Donald Trump promete infligir dor econômica caso o presidente Nicolás Maduro siga em frente com a eleição que visa ampliar seus poderes.

Maduro prometeu não recuar da votação de domingo, então a única pergunta é se a colisão será pequena ou estrondosa.

A decisão do governo Trump de impor sanções a 13 importantes autoridades venezuelanas e outras pessoas próximas do regime Maduro foi relativamente modesta. Mas as autoridades americanas destacaram que se trata de apenas um precursor para uma escalada de ações caso a votação siga adiante.

As economias dos dois países estão estreitamente entrelaçadas por meio do petróleo que a Venezuela vende aos americanos: ele representa cerca de 10% do petróleo importado pelos Estados Unidos. E Washington tem ferramentas poderosas ao seu dispor, inclusive uma proibição completa ao petróleo venezuelano. O que Trump decidir fazer a seguir provavelmente terá repercussões, do Tesouro venezuelano às bombas de gasolina americanas.

Apesar de quase duas décadas de azedamento das relações com a Venezuela, os Estados Unidos têm enorme influência na condição de um de seus clientes mais importantes e um dos poucos países com refinarias capazes de processar o óleo pesado de baixa qualidade.

O regime Maduro está cambaleando, lutando para cumprir suas obrigações financeiras, alimentar seu povo e pagar seus próprios trabalhadores do petróleo, soldados e policiais. Sanções americanas adicionais poderiam ser um golpe econômico devastador, levando o país a caminhar ainda mais para uma ditadura e para uma relação ainda mais estreita com a China e a Rússia.

O resultado poderia levar a conflito ainda mais violento ou até mesmo um golpe militar. E as ondas de choque por todo o hemisfério poderiam criar ainda mais complicações para o governo Trump, enquanto tenta se concentrar no Irã e na Coreia do Norte.

"É complicado", disse David L. Goldwyn, que foi um alto emissário do Departamento de Estado durante o governo Obama.

"Sanções duras podem levar a um calote dos títulos e um colapso do investimento interno e produção de petróleo", ele acrescentou. "Outros impactos poderiam ser agitação civil, fluxo de refugiados por todas as fronteiras e um corte do apoio financeiro venezuelano a Cuba e Haiti, que poderia levar a fluxos de emigração para os Estados Unidos."

Também há potencial de danos colaterais aos Estados Unidos.

Qualquer embargo comercial poderia resultar em alta dos preços dos combustíveis, perda de empregos no setor do petróleo e queda dos lucros para várias importantes refinarias. Uma redução das exportações venezuelanas poderia causar alta dos preços globais do petróleo, fortalecendo as economias da Rússia e do Irã no momento em que Washington se preparar para aumentar as sanções a esses países.

Em coletivas de imprensa, funcionários do governo não quiseram especular o que pode vir a seguir, mas enfatizaram uma lista de opções. Trump, em uma declaração na semana passada, disse que "os Estados Unidos não ficarão apenas olhando enquanto a Venezuela desmorona".

A preocupação imediata é com o plano de Maduro de realizar uma eleição neste fim de semana para uma Assembleia Constituinte que contornaria o Congresso controlado pela oposição e redigiria uma nova Constituição. A nova assembleia, que foi concebida para ser dominada por grupos que apoiam o governo, supostamente consolidaria mais controle nas mãos do presidente.

A escalada da violência nas ruas e da fome na Venezuela está ameaçando se espalhar. Dezenas de milhares de venezuelanos já fugiram do país, aumentando as pressões sociais. A economia em queda livre do país aumenta a pressão sobre uma região que já sofre com os preços baixos das commodities.

Por ora, os Estados Unidos estão agindo com cautela em sua abordagem à Venezuela.

Como primeiro passo, o governo congelou nesta semana os ativos e proibiu vistos de viagem a 13 venezuelanos influentes, incluindo autoridades eleitorais, militares e correcionais. Um deles é Simón Zerpa, vice-presidente de finanças da Petróleos de Venezuela, conhecida como PDVSA, o que poderia complicar as relações entre a estatal de petróleo e as empresas americanas na Venezuela que já têm dificuldades em serem pagas por seus serviços. A medida segue sanções semelhantes impostas pelo governo Trump ao vice-presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, e oito membros de sua Suprema Corte.

Maduro disse repetidas vezes que as sanções anteriores de Trump ao seu governo são evidência do imperialismo americano e que não se curvará às atuais ameaças. Se Trump "ousa dizer 'não' à Assembleia Constituinte, nós dizemos 'sim, sim, sim', a Assembleia Constituinte seguirá adiante, Assembleia Constituinte agora mais do que nunca", disse recentemente Maduro.

Mais consequentes seriam futuras sanções limitando empresas de petróleo e de serviços americanas de operarem na Venezuela ou que limitem a capacidade da companhia nacional de petróleo venezuelana de realizar atividades bancárias nos Estados Unidos ou realizar negócios com empresas americanas. Esse cenário na prática encerraria as exportações de petróleo venezuelanas para os Estados Unidos e impediria a PDVSA de importar o óleo leve americano usado para diluir seu óleo cru pesado para transporte por oleodutos e processamento.

Ações como essas, ao menos a curto prazo, poderiam resultar no colapso da produção de petróleo do qual a Venezuela depende para obter moeda estrangeira para compra de alimentos e pagar pelo serviço de sua dívida. "Isso deixaria a PDVSA de joelhos e quase certamente levaria a um calote da dívida", disse Francisco J. Monaldi, um especialista em petróleo venezuelano da Universidade Rice, em Houston.

Dependendo dos detalhes de futuras sanções, a Citgo, que é de propriedade da companhia estatal de petróleo venezuelana, também sairia debilitada. A Citgo opera cerca de 4% da capacidade de refino americana, assim como uma ampla rede de oleodutos e postos de gasolina nos Estados Unidos.

A Venezuela vende atualmente mais de 700 mil barris de petróleo por dia para os Estados Unidos, de uma produção total de cerca de 2 milhões de barris por dia, ou pouco mais de 2% da produção mundial. Especialistas em energia dizem que Venezuela poderia substituir o mercado americano ao exportar mais óleo pesado para a China e para a Índia, apesar de que com um desconto. E os 100 mil barris por dia de óleo leve que importa dos Estados Unidos poderiam ser substituídos por importações da Nigéria e Argélia.

Mas a Venezuela teria que agir rapidamente. Ela enfrenta grandes pagamentos de títulos neste ano e suas reservas de moeda estrangeira estão encolhendo.

"Eles já mostraram que podem continuar, de modo que não sei ao certo se a suspensão da compra de 700 mil quebrará o governo", disse Luis E. Giusti, um ex-presidente-executivo da PDVSA. "O quanto mais as coisas deteriorarão em comparação ao que está acontecendo agora é uma grande pergunta para a qual não há uma resposta clara por ora."

Nos Estados Unidos, a suspensão das importações de petróleo venezuelanas forçariam a Chevron, Valero Energy, Phillips 66 e outras refinarias a substituírem o óleo cru por importações de lugares como Kuait e Arábia Saudita, elevando os preços. O governo poderia vender às refinadoras parte do estoque estratégico de petróleo para ajudar a amortecer o impacto sobre suas margens de lucro.

"A curto prazo causaria disrupção", disse Chet M. Thompson, presidente da Produtores Americanos de Combustíveis e Petroquímicos, uma entidade setorial que está fazendo lobby contra sanções que afetem as importações de petróleo venezuelano. "Você acabará causando uma alta dos preços dos combustíveis."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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