Cidade de antigos aquedutos, Roma agora enfrenta racionamento de água

Jason Horowitz

Em Roma (Itália)

  • Gianni Cipriano/The New York Times

    O rio Tiber, cujo nível de água caiu recentemente, em Roma

    O rio Tiber, cujo nível de água caiu recentemente, em Roma

A água fria e limpa de Roma corria por antigos aquedutos, espirrava nos chafarizes barrocos e jorrava incessantemente das milhares de bicas do século 19 que ainda enfeitam as ruas da cidade. Durante milênios, a água simbolizou o domínio de Roma sobre a natureza, sua proeza na engenharia e uma profunda, inesgotável fonte de boa sorte.

"É um sinal de abundância, mas também de poder", disse Guido Giordano, um geólogo especializado em água na Universidade de Roma Tre. "Desde o mito da fundação, em que Rômulo e Remo saem do rio, a água é inerente à fundação de Roma."

E agora é um sinal de sua mais recente queda.

A seca intensa e as temperaturas elevadas fizeram as autoridades locais considerarem um racionamento da água potável durante oito horas por dia para o 1,5 milhão de moradores de Roma.

A crise hídrica se tornou mais um sinal de que o homem está à mercê de um clima cada vez mais radical, mas também da impotência política, da inaptidão administrativa e do declínio geral da antes poderosa Roma.

A prefeita da cidade, Virginia Raggi, prometeu evitar o racionamento, embora cidades menores já tenham recorrido ao fechamento de algumas torneiras. Raggi, cujo governo foi amplamente criticado como ineficaz, parece consciente de que privar os romanos da água potável pode até afundá-la.

Desde maio, a empresa de água controlada pela prefeitura, Acea, correu para consertar 2.000 de seus 7.000 quilômetros de encanamentos, recuperando 100 litros de água por segundo.

Enquanto o site da Acea se gaba de "Roma, Regina Aquarum" (Roma, rainha das águas, em latim), seu sistema tornou-se tão decrépito que cerca de 44% da água são roubados, se derramam no subsolo ou empoçam nas ruas.

A cidade reduziu a pressão da água para ajudar a economizá-la, obrigando os moradores de apartamentos mais altos a usar baldes nos banheiros e cozinhas. "Torneiras em risco. Corrida à água engarrafada", alertaram os noticiários.

Nesta semana, o ministro da Saúde da Itália falou com nervosismo sobre o caos que o racionamento de água causaria nos hospitais e para os doentes. Na quinta-feira (27), o ministro italiano do Meio Ambiente apareceu no Senado para expressar suas graves preocupações sobre o impacto da seca nos lagos e sugeriu que as autoridades devem examinar casos de roubo de água.

Em 22 de junho, depois de ser criticada por inação, Raggi enfrentou a oposição e decidiu começar o surpreendente fechamento dos 2.500 "nasoni" ("narigões"), bicas de água potável espalhadas por toda a cidade. Na quarta, ela já havia fechado 200, segundo a empresa distribuidora de água.

Gianni Cipriano/The New York Times
Chafariz do século 17 de Gian Lorenzo Bernini na praça São Pedro, que o Vaticano decidiu desligar

A cidade também está lutando contra um prazo dado pela região do Lácio, à qual pertence Roma, para que pare de retirar água do vizinho lago Bracciano, que fornece 8% da água de Roma e cujo nível baixou 1,5 metro.

Na manhã de quarta-feira, técnicos mediam o nível da água em Anguillara Sabazia, uma pequena cidade na margem do lago. Trabalhando sob um monumento em ruínas inaugurado no século 18 pelo papa Pio 11, os observadores determinaram que o lago subiu cerca de 1 cm depois de uma chuva forte na noite de terça.

Um observador encolheu os ombros e disse que a mudança não importava, e indicou as margens ao redor, onde um barco a remo estava encalhado em terra recém exposta. "Está seco", disse ele.

 

Ali perto, em um cais, Mauro Noro, 42, atirava sua linha de pesca. Ele disse que a água estava mais baixa do que jamais havia visto. "Eles não deviam mandar mais água daqui para Roma", afirmou.

Sem o lago Bracciano para ajudar a matar a sede da cidade, porém, Raggi e a empresa de água estão perdidas.

Esta primavera foi a segunda mais quente dos últimos 60 anos, e a mais seca, com apenas 26 dias de chuva, comparados com 88 em 2016. Um relatório recente da organização ambiental italiana

Legambiente disse que a chuva diminuiu de 80% a 85% no Lácio em comparação com o ano passado.

E o Lácio não é a única região ressecada da Itália. Várias de suas 20 regiões pediram a declaração de estado de emergência para enfrentar a seca. A associação de agricultores Coldiretti calculou em 2 bilhões de euros os prejuízos à agricultura.

Em maio, as regiões de Trentino e Veneto, no nordeste do país, queixaram-se dos recursos hídricos insuficientes. ("A guerra da água", disse uma manchete do jornal "La Stampa", de Turim.)

Alguns italianos olharam para o céu em busca de ajuda. Neste verão, uma autoridade agrícola do Veneto caminhou de Cittadella a Padova, o tempo todo rezando para santo Antônio abrir os céus. Em Roscigno Campania, alguns fiéis levaram em procissão a Madonna de Constantinopla, conhecida como a "Nossa Senhora que faz água".

Gianni Cipriano/The New York Times
Técnico mede nível de água do lago Bracciano, que provê 8% da água de Roma

As orações não foram respondidas. Mas o Vaticano, por sua vez, não está desperdiçando uma boa crise da água.

Em uma tentativa de salientar a ênfase do papa Francisco para o meio ambiente, o Vaticano começou na segunda-feira (24) a cortar a água de seus cem chafarizes, inclusive os famosos desenhados por Gian Lorenzo Bernini, na Praça de São Pedro.

"Não é que o Vaticano esteja morrendo por problemas de água, mas nós recebemos a água dos mesmos lugares que Roma, o lago Bracciano e os aquedutos", disse Greg Burke, o porta-voz do Vaticano, que admitiu que alguns fechamentos foram simbólicos, pois as fontes operavam com água reciclada.

Fazendo referência explícita à encíclica papal sobre o meio ambiente, "Laudato Si'" [Louvado sejas], Burke acrescentou: "Às vezes você tem de fazer um sacrifício; essa é a mensagem".
Tais sacrifícios pareceriam inimagináveis alguns anos atrás, ou mesmo 2.329 anos atrás.

Em 312 a.C., a cidade terminou o aqueduto subterrâneo Appio, e nos séculos seguintes a maior parte da água foi trazida de depósitos subterrâneos em um raio de 40 quilômetros. Os aquedutos despejavam 700 mil litros de água por minuto na cidade, servindo a mais de 1 milhão de pessoas, segundo o livro "The Seven Hills of Rome: A Geological Tour of the Eternal City" [As sete colinas de Roma: um passeio geológico pela Cidade Eterna].

Os antigos romanos tinham sua própria versão da Acea: Sextus Julius Frontinus serviu como comissário da água para os imperadores Nerva e Trajano. Preocupado com as secas e os incêndios, ele supervisionou a construção de reservatórios de emergência. Os vazamentos de água também eram um problema na época, mas vândalos e ladrões eram punidos.

Exceto por um período de seca na Idade Média, o fluxo constante de água potável surpreendeu durante séculos os visitantes de Roma. A água transportada por 56 km de graciosos aquedutos do lago Bracciano até Roma lembrou ao escritor alemão do século 18 Johann Wolfgang von Goethe os conquistadores retornando em triunfo à cidade.

"É o mais pacífico dos benfeitores que entra com poder semelhante", escreveu ele. "E é recebido com imediata gratidão e admiração por sua longa e extenuante marcha."

A campanha endureceu. A falta geral de chuvas seguida por tempestades rápidas e concentradas significa mais perdas na superfície e menos infiltração da água nos estoques subterrâneos.

Além disso, a recente falta de neve nos picos da cadeia dos Apeninos, que é a principal fonte da água de Roma, significa que menos água entrou nos aquíferos da cidade.

Fora de Roma, as temperaturas escorchantes provocaram incêndios que levaram moradores e turistas na Sicília para o mar, onde barcos esperavam para evacuá-los.

Desastres semelhantes varreram o sul da França, a Espanha, Portugal e a Croácia neste verão seco e extremamente quente. Na Itália, os bombeiros controlaram incêndios em todo o país, incluindo áreas ao redor de Roma.

"Roma não deve ficar sozinha para enfrentar esse desastre ambiental", disse Raggi enquanto percorria uma área atingida pelo fogo. Mas afinal é o céu, gloriosa e frustrantemente claro, que se mostra menos cooperante.

Até Giordano, o geólogo que ganha a vida estudando a água, está tendo dificuldades para se adaptar à escassez nesta antiga terra de abundância hídrica.

"Eu cresci com a sensação de que a água em Roma estava sempre fluindo", disse ele, acrescentando que quando ouviu a notícia do possível racionamento pensou: "Puxa! Em Roma!"
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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