Revoltados, defensores dos direitos LGBT dizem ter visto Trump "como ele é"

Maggie Haberman

Em Washington

  • Olga R. Rodriguez/ AP

    26.jul.2017 - Casal protesta em San Francisco contra proposta de proibir pessoas transgênero nas Forças Armadas dos EUA

    26.jul.2017 - Casal protesta em San Francisco contra proposta de proibir pessoas transgênero nas Forças Armadas dos EUA

Quando o presidente Donald Trump era candidato, ele prometeu que apoiaria a comunidade lésbica, gay, bissexual e transgênero imediatamente após o tiroteio que houve no verão passado na casa noturna Pulse, em Orlando, na Flórida.

"Eles passaram por algo que ninguém jamais poderia vivenciar", disse Trump em um evento em Manchester, New Hampshire, no dia 13 de junho de 2016, fazendo um discurso escrito às pressas e que originalmente seria sobre Hillary Clinton.

"Pergunte-se a si mesmo quem é realmente o amigo das mulheres e da comunidade LGBT: Donald Trump, com ações, ou Hillary Clinton com suas palavras?", ele disse. "Vou falar para vocês quem é o melhor amigo, e algum dia acredito que isso será provado, totalmente".

Tal prova não veio na quarta-feira (26). Mas as palavras do presidente foram repetidas com raiva e frustração por alguns ativistas dos direitos LGBT que ficaram furiosos com a decisão abrupta de Trump de proibir pessoas transgênero de ocuparem qualquer cargo militar.

"Estamos vendo a verdadeira face do presidente", disse Chad Griffin, presidente da Human Rights Campaign. "É assim que ele é de verdade".

A nova proibição, que Trump anunciou pelo Twitter, assustando alguns de seus assessores, entrava em contradição com o discurso que ele deu em New Hampshire. No dia anterior, em Orlando, Omar Mateen, um segurança, havia matado 49 pessoas e ferido 58 em nome do Estado Islâmico. O fato de Mateen ser muçulmano e ter atacado frequentadores de casas noturnas gays e lésbicas repercutiu em duas comunidades de minorias americanas que são marginalizadas nos Estados Unidos.

"Este é um momento muito sombrio da História dos Estados Unidos", disse Trump naquele dia. "Um terrorista islâmico radical atacou a casa noturna não somente porque ele queria matar americanos, mas para executar cidadãos gays e lésbicas por sua orientação sexual".

Durante seu discurso na Convenção Nacional Republicana no mês seguinte, Trump voltou a lembrar o tiroteio na Pulse. Ele deleitou-se com os aplausos depois de dizer: "Eu farei tudo que estiver em meu poder para proteger nossos cidadãos LGBT da violência e da opressão de uma ideologia estrangeira de ódio".

"Acreditem em mim", disse Trump naquele discurso de 21 de julho de 2016. "E devo dizer, como um republicano, que é muito bom ouvir vocês aplaudindo o que acabei de dizer. Obrigado."

Na quarta-feira, os partidários do presidente alegaram que sua resposta na época falava sobre terrorismo --um contraste nítido com as atuais preocupações sobre  prontidão militar.

Christopher R. Barron, um dos fundadores do grupo republicano de direitos LGBT GOProud, que ajudou a alavancar a carreira política de Trump recebendo-o na Conservative Political Action Conference em 2011, deu ao presidente o benefício da dúvida.

"Eu confio aos líderes militares a decisão de quais políticas em torno da questão do serviço trans permitirão que eles vençam a guerra contra o extremismo islâmico radical anti-LGBT", escreveu Barron no Twitter.

Como incorporador imobiliário em Nova York, Trump passou sua vida em uma cidade com uma grande população gay. Antes de entrar para a política, ele era aberto a uniões civis gays, e era conhecido em Palm Beach, na Flórida, onde é dono do resort de Mar-a-Lago, como o primeiro proprietário de clube privado a aceitar um casal abertamente gay como membros.

Desde que ele foi eleito, ele permaneceu contra o casamento gay, a fronteira na qual a luta LGBT foi travada na última década. Os assessores mais próximos de Trump dizem que ele nunca foi um cruzado em questões de direitos dos gays.

Mas em sua primeira entrevista como presidente, Trump sugeriu que a decisão de 2015 do Supremo Tribunal que legalizava o casamento gay deveria continuar sendo a lei suprema do país.

Logo no começo de sua presidência, ele se negou a anular algumas das proteções do presidente Barack Obama para a comunidade LGBT. Mas desde então Trump ordenou que algumas dessas proteções fossem revogadas, inclusive através de ações que supostamente fortaleceriam liberdades religiosas mas que os críticos temiam que fossem fomentar legalmente a discriminação contra americanos gays.

"Acho que as pessoas estavam esperando sem muita convicção que, embora fosse muito imprevisível, ele seria um homem de palavra e que também não iria querer ir contra as normas sociais prevalecentes às quais estamos acostumados em Nova York", disse Richard Socarides, um proeminente ativista gay e democrata que costumava assessorar o presidente Bill Clinton.

"As pessoas pensavam que ele era um cara que conhecia os gays, que tinha gays ao seu redor", disse Socarides, antes de expressar uma preocupação maior: "Se isso for permitido, o próximo a ser atacado por ele será o casamento gay".

Griffin disse que as esperanças de que Trump tivesse uma conexão duradoura com a comunidade LGBT evaporaram durante a campanha, depois que ele escolheu Mike Pence como companheiro de chapa.

Pence é um conservador evangélico que se opôs veementemente a várias iniciativas de direitos LGBT.

Griffin citou outras proteções aos transgêneros que foram desfeitas pelo governo Trump. E questionou publicamente a filha de Trump, Ivanka, e seu genro Jared Kushner, que conhecem vários gays em seus círculos sociais em Nova York.

"Onde está o Jared?", perguntou Griffin. "Onde está a Ivanka?"

Tradutor: UOL

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