No Japão, aposentado pilota avião comercial e não quer parar

Jonathan Soble

Em Nagasaki (Japão)

  • Kazuhiro Yokozeki/The New York Times

    Shigekazu Miyazaki inspeciona hélice de avião no aeroporto de Nagasaki, Japão

    Shigekazu Miyazaki inspeciona hélice de avião no aeroporto de Nagasaki, Japão

Shigekazu Miyazaki está passando aquilo que deveria ser sua aposentadoria no ar, a 25 mil pés de altitude.

Miyazaki, um piloto com quase quatro décadas de experiência na All Nippon Airways, a maior companhia aérea do Japão, deixou a empresa no ano passado, quando completou a idade obrigatória de aposentadoria de 65 anos. Mas em vez de começar a jogar golfe ou pescar, desde abril Miyazaki tem pilotado aviões a hélice de 39 lugares para a Oriental Air Bridge, uma pequena companhia aérea que conecta a cidade de Nagasaki, sudoeste do país, a um grupo de ilhas remotas.

"Eu nunca pensei que ainda estaria pilotando aos 65 anos de idade", disse recentemente antes de um voo Miyazaki, que é enxuto e tem uma voz grave, além de uma cabeça de cheios cabelos grisalhos. "Mas ainda tenho saúde, e adoro pilotar, então por que não fazer isso enquanto posso?"

Um homem em sua sétima década de vida que estende sua longa carreira como piloto ainda é considerado novidade no Japão --mas talvez não por muito tempo.

O envelhecimento da força de trabalho do Japão está motivando uma reconsideração das carreiras tradicionais e das proteções do governo. O país tem a maior expectativa de vida do mundo, pouca imigração e uma população declinante de jovens trabalhadores, resultado de décadas de baixos índices de natalidade. No mês passado, o governo japonês disse que o número de nascimentos no ano passado caiu para abaixo de 1 milhão pela primeira vez desde que começou a registrar os números em 1899.

Tudo isso torna os trabalhadores idosos mais cruciais para a economia. Mais da metade dos homens japoneses com mais de 65 anos fazem alguma espécie de trabalho pago, de acordo com levantamentos do governo, em comparação com um terço dos homens americanos e até 10% em partes da Europa.

A economia do Japão está começando a funcionar de novo, em grande parte graças à demanda por suas exportações, mas sua falta de trabalhadores poderia limitar o crescimento. O desemprego está em uma baixa recorde de 2,8%, e as empresas estão correndo atrás de funcionários. Ao mesmo tempo, os baby boomers que se aposentam estão sobrecarregando o sistema previdenciário, levando o governo a elevar a idade a partir da qual os idosos podem começar a receber benefícios.

Kazuhiro Yokozeki/The New York Times
Avião da Oriental Air Bridge levanta voo no aeroporto de Nagasaki

O Japão pode oferecer uma ideia do que será o futuro próximo para outros países desenvolvidos com forças de trabalho em envelhecimento, inclusive os Estados Unidos.

"Se lugares como a Alemanha e os Estados Unidos estão elevando a idade na qual as pessoas podem receber suas pensões para 67 anos, não há por que o Japão não chegar a 70", diz Atsushi Seike, um especialista em economia do trabalho na Universidade de Keio, em Tóquio. "Estamos chegando a um ponto em que uma carreira de 40 anos é só metade de um tempo médio de vida, e não é sustentável ter pessoas se tornando inativas tão cedo".

Trabalhadores mais velhos também podem explicar em parte o quebra-cabeça dos salários estagnados do Japão, que praticamente não mudaram apesar do baixo índice de desemprego. Trabalhadores mais velhos em geral ganham muito menos do que no auge de suas carreiras, contrabalançando os aumentos entre os jovens e pessoas de meia idade.

A Oriental Air Bridge nunca havia contratado um piloto da idade de Miyazaki antes, mas, com uma falta de pilotos capacitados em todo o país, ela tem expandido seu recrutamento.

Para Miyazaki, a escolha de continuar pilotando foi um luxo. Como comandante na All Nippon, onde ele pilotava Boeings 767, principalmente para o Sudeste Asiático, ele ganhava o equivalente a centenas de milhares dólares por ano, além de uma generosa pensão. A Oriental Air Bridge lhe paga mais ou menos um terço do salário que ele recebia no auge, mas ele diz não se importar.

""Os jatos que eu costumava pilotar eram altamente automatizados", ele disse. "Mas agora, com os aviões a hélice, posso fazer uma pilotagem mais livre, mais visual. Significa retomar o essencial como piloto".

Na cabine do Bombardier Dash 8 de Miyazaki, pilotar ainda parece bastante complicado.

Kazuhiro Yokozeki/The New York Times
Shigekazu Miyazaki, 65 anos, é piloto de avião

Durante um voo recente para Nagasaki voltando de Tsushima, uma ilha escarpada de 30 mil habitantes, Miyazaki percorria os olhos por um painel de controle repleto de instrumentos e revisava checklists com um copiloto 20 anos mais jovem.

Ele reconhece que ficou um "pouco desconfortável" em relação a estudar para a nova habilitação que ele precisava ter para pilotar os Dash 8s, um processo que levou oito meses. Ele calcula que dominar cada nova rotina ou procedimento exigiu 50% mais de repetições do que quando ele frequentou a escola de aviação nos anos 1970.

"Quando você é jovem, consegue passar a noite inteira em claro", ele disse. "Mas eu lia os manuais em blocos de meia hora. Na minha idade, você precisa gerenciar seu tempo".

Miyazaki deixou sua mulher em Tóquio quando aceitou o emprego em Nagasaki, mas disse que ela apoiou sua decisão. "Ela quer que eu trabalhe enquanto ainda estiver apto fisicamente".

Alguns empregos no Japão estão se tornando distintamente mais grisalhos. Mais da metade dos taxistas japoneses têm mais de 60 anos, de acordo com o Ministério da Saúde, do Trabalho e do Bem-Estar Social, ao passo que menos de 10% tem mais de 40 anos.

Kazuhiro Yokozeki/The New York Times
Miyazaki passa por avião no aeroporto de Nagasaki

Morimasa Mizunoya, um joalheiro aposentado, se cadastrou recentemente em um centro para terceira idade de Tóquio, dentro de um programa patrocinado pelo governo que faz a ponte entre trabalhadores mais velhos com empregadores que oferecem trabalhos temporários e em meio-período. É uma plataforma de "gig economy" sem o aplicativo de celular: os idosos se cadastram pessoalmente, enquanto os possíveis empregadores ligam ou mandam e-mails para o centro com ofertas.

"Meus olhos começaram a falhar, então foi o fim do trabalho com joalheria", disse Mizunoya, 69, enquanto colava uma folha nova de papel branco sobre uma tradicional porta corrediça japonesa. O dono de um prédio precisava trocar o papel de 60 portas extra-grandes, um trabalho que Mizunoya e outro aposentado esperavam terminar em cerca de duas semanas. Normalmente eles ganham 1.400 ienes por porta, ou cerca de US$ 13 (cerca de R$ 40), mas as maiores pagam mais.

"Não paga lá muito bem, mas é algo para se fazer", disse Mizunoya, que conta que passa a maior parte de seus dias sem trabalho jogando Go, um antigo jogo de tabuleiro, e vive do dinheiro de um investimento em imóveis e do extra que ganha com as portas.

Yoshimitsu Hori, que administra o programa de empregos no centro da terceira idade, disse que a demanda por trabalhadores é maior que a oferta. Mas nem todos os empregos são populares. A maior procura é por pessoas que limpem apartamentos e escritórios, algo que poucos querem fazer. Colocar cartas em envelopes, etiquetar caixas vazias de bentô e conferir ingressos em museus são vistos como trabalhos melhores.

Na Oriental Air Bridge, conseguir um piloto de qualquer idade de uma grande companhia aérea internacional é uma façanha. O escritório da empresa é um prédio de metal corrugado à beira do Aeroporto de Nagasaki, e seus hangares ultrapassados são pequenos demais para conter completamente seus dois aviões. Ela está planejando expandir, com novas rotas e um maior foco no turismo.

Miyazaki disse que nada duas vezes por semana para manter a saúde, e ele passou por mais testes físicos do que pilotos mais jovens, como ressonâncias magnéticas, eletrocardiogramas e testes em esteira para avaliar a resistência. De acordo com regulamentos do Japão, ele terá de parar de pilotar comercialmente aos 68 anos, mas o governo começou a examinar se estende a idade máxima para 70.

"Tenho pelo menos mais três anos ainda, talvez cinco", ele disse. "Enquanto tiver saúde, quero aproveitá-los ao máximo".

Tradutor: UOL

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