Opinião: Partido Republicano pode comandar, mas não consegue governar

Ross Douthat

  • Kevin Lamarque/ Reuters

    19.jul.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, gesticula durante almoço com senadores republicanos, na Casa Branca, em Washington

    19.jul.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, gesticula durante almoço com senadores republicanos, na Casa Branca, em Washington

Quando pensamos no vaivém das maiorias na política americana, gostamos de imaginar que existe uma relação entre política e políticas --entre conquistar o poder e ter uma agenda para implementar, entre ganhar votos e assumir desafios consideráveis, entre maiorias de Franklin Delano Roosevelt e seu New Deal ou as vitórias de Reagan e sua Reaganomia.

O Partido Republicano de hoje passa por cima desse conceito. É um partido de maioria que se comporta como se estivesse em desterro político, uma máquina de vencer eleições que não tem ideia do que fazer com o poder nacional.

Ele tem os tiques de um partido de oposição, as feridas abertas de uma coalizão derrotada, as ideias datadas de uma força falida. Suas tentativas de aprovar uma lei sobre o sistema de saúde não são somente dolorosas de se assistir; elas têm a mesma qualidade sinistra de um bezerro nascido com duas cabeças, a sensação de que se está assistindo a algo cuja existência as leis da política ou da natureza não deveriam permitir.

Que, no entanto, existe: o mesmo GOP incompetente que existe em um constante estado de guerra civil de baixa intensidade controla não somente o Congresso e a Casa Branca, como também a maioria dos parlamentos estaduais. Todos os críticos do Partido Republicano contemporâneo --esquerdistas, centristas e conservadores-- dizem que o GOP está esgotado e à deriva, e anos de shutdowns do governo, derrocadas do Obamacare e tudo a respeito da era Trump provam que estamos certos.

Mas o poder republicano resiste, e embora esteja politicamente vulnerável, não existe razão para se ter certeza de que ele não conseguirá sobreviver às eleições de meio de mandato em 2018 e de fato ao reinado inteiro de Donald Trump.

Essa estranha resistência é um fato central de nossa política atual. Temos uma maioria vazia, um partido que pode comandar mas não consegue governar. E independentemente de você ser um conservador que queira reformar o GOP ou um liberal que queira acabar com ele, você precisa lidar com o porquê de os republicanos continuarem voltando ao poder embora esteja claro que fiascos como os que estamos assistindo no sistema de saúde são o que eles provavelmente produzirão.

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Uma possibilidade é que essa seja uma situação temporária, um momento de transição --que a maioria republicana pareça uma aberração por ser um cadáver ambulante, que os americanos votem em políticos republicanos devido a um hábito formado na era Reagan que simplesmente demora muito para se largar.

Essa teoria está por trás da comparação plausível, que citei antes, entre Donald Trump e Jimmy Carter. Carter herdou uma coalizão de centro-esquerda envelhecida e com rachaduras que havia sido sacudida por Watergate e por sua própria persona de azarão. Assim como Trump, ele tinha maiorias parlamentares; assim como Trump (até o momento) ele não realizou nada, e a maioria vazia de sua era foi a última fase do longo declínio da coalizão democrata.

Acho essa analogia interessante, mas a História não se repete de forma tão precisa. Se o distinto populismo de Trump parece "disjuntivo", para usar o jargão dos cientistas políticos --que vem desde a longa era Reagan até uma nova política que ainda não nasceu-- o mesmo pode ser dito sobre o "conservadorismo compassivo" de George W. Bush. Quando a presidência de Bush naufragou e Barack Obama foi eleito, todos presumiram que esse seria o fim do Reaganismo, com o segundo mandato carteresco de Bush dando lugar ao liberalismo que parou em 1980.

Mas não foi, então cá estamos nós, quase uma década mais tarde, tendo o mesmo tipo de conversa. E um ensinamento dessa década, de cada eleição em que Barack Obama não esteve na cédula, foi de que um partido que seja terrível governando ainda consegue vencer eleições se o outro partido for ainda pior em política.

Algo que os democratas têm sido, incrivelmente. Ou, para sermos menos críticos, digamos que um estranho ciclo tem acontecido, onde a incompetência republicana ajuda o liberalismo a consolidar seu domínio sobre os Estados Unidos altamente instruídos... mas que, por sua vez, essa consolidação crie uma insularidade e um excesso de confiança liberal (em big data e ciência eleitoral, em inevitabilidade demográfica, na sensatez de se declarar encerrados certos debates de políticas) e ajude o apoio aos republicanos a persistir como uma espécie de voto de protesto, uma tentativa de limitar a hegemonia do liberalismo ao manter o poder legislativo nas mãos do outro partido.

Como esse estranho ciclo pode ser rompido? Uma crise grande o suficiente sob Trump provavelmente tornaria a maioria vazia uma ex-maioria temporariamente. Mas mesmo a Guerra do Iraque e a crise financeira não evitaram que a política dos Estados Unidos revertesse para uma vantagem republicana.

Um presidente republicano engajado e visionário pode ser capaz de escapar do ciclo, ao verter novas ideias no receptáculo vazio do partido --como Trump fez, do seu modo demagógico, durante a campanha de 2016. Mas Trump não é nenhum visionário, e à sua sombra provavelmente nenhum novo modelo de conservadorismo se desenvolverá, e nenhum futuro líder ascenderá.

Então isso faz dos democratas as únicas pessoas com o poder de acabar com o atual espetáculo de incompetência e tolice republicana.

Tudo que eles precisam fazer é convencer os americanos de que eles têm mais a temer com um trabalho de rotina conservador do que com um liberalismo no comando da política, bem como da cultura.

É isso. Simples. Façam suas apostas.

Tradutor: UOL

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