Mulher se casa com quatro homens do Estado Islâmico e mais: o que encontrei em Mossul

Ivor Prickett*

  • Ivor Prickett/The New York Times

    Suspeito de ser militante do Estado Islâmico carrega menino que usava apenas um colete ensaguentado e um short sujo em Mossul

    Suspeito de ser militante do Estado Islâmico carrega menino que usava apenas um colete ensaguentado e um short sujo em Mossul

Dias depois de o governo iraquiano ter declarado vitória oficialmente sobre o Estado Islâmico em Mossul este mês, os combates ainda estavam longe do fim.

O último foco de resistência do Estado Islâmico na Cidade Antiga, mais ou menos do tamanho de um quarteirão de Manhattan, não parecia o tipo de lugar onde qualquer um pudesse ainda estar vivo após semanas de combates brutais. Mas algumas áreas do tipo continuaram lutando por dias. E, horrível e incrivelmente, os civis continuavam sendo retirados.

O que vimos enquanto acompanhávamos passo a passo as forças iraquianas aqui tornava sua sobrevivência ainda mais milagrosa.

Em uma base avançada perto da linha de frente, soldados das forças de operações especiais iraquianas haviam trazido um homem que atravessara a linha de frente, segurando um menino de no máximo 2 anos de idade. Usando somente um colete ensanguentado e um short sujo, descalço, o homem nem sabia quem era a criança. Suspeitou-se imediatamente que ele fosse um combatente do Estado Islâmico que havia simplesmente usado o menino como escudo humano.

As tropas levaram o homem embora, e o comandante encarregado segurou o menino em seu colo. Duvidando que os pais do menino pudessem ainda estar vivos, ele decidiu que um de seus homens --ele sabia que o soldado e sua mulher não conseguiam ter filhos-- deveria adotar o menino.

No campo de batalha, alguns dos homens lavaram a criança e suas roupas esfarrapadas antes que o oficial chegasse para conhecer seu novo filho.

Ivor Prickett/The New York Times
Mulheres e crianças são levadas de região que estava sob controle do Estado Islâmico


Enquanto forças iraquianas iam assumindo controle da Cidade Antiga e revistando a área, eles apreenderam vários carros-bomba não detonados do Estado Islâmico, os pesados blindados improvisados que se tornaram as armas mais temidas do arsenal dos militantes. Soldados dirigiram um dos veículos capturados de volta para a base, no meio de um comboio militar, atravessando o oeste de Mossul.

Os poucos civis que haviam voltado à área paravam, pasmos, para ver o veículo passar lentamente, ainda capaz de causar choque mesmo estando em mãos mais seguras.

Um esquadrão de soldados das forças de operações especiais perto da linha de frente de confrontos que continuavam na Cidade Antiga começou a gritar que eles haviam encontrado um militante ferido no porão de um prédio destruído. Alguns dos homens arrastaram o combatente emaciado do porão para a rua. Ele mal estava vivo, tendo sido ferido durante uma batalha vários dias antes.

Ele disse que seu nome era Malik, e que era um morador de 36 anos de Mossul. Estava tão fraco que era difícil imaginá-lo como um combatente apto em qualquer momento recente.

O comandante ordenou que ele fosse levado a um médico, e os homens o carregaram passando por cima de montes de entulho e viraram a esquina, sumindo de vista.

Ivor Prickett/The New York Times
Suspeitos de integrarem o Estado Islâmico são mantidos presos em Mossul


Enquanto vasculhavam o pátio de um prédio, soldados encontraram corpos de até 10 homens, que estavam mortos provavelmente há mais de uma semana. Era impossível verificar o que havia acontecido ou mesmo quem eles eram, embora os soldados tenham imediatamente proclamado que eles eram membros do Estado Islâmico.

Pelo menos dois dos corpos pareciam estar com as mãos amarradas para trás. Impossível dizer se eram reféns do Estado Islâmico que morreram em um tiroteio ou se eram prisioneiros do Estado Islâmico que foram executados sumariamente. Mas esse último estágio da batalha, ocorrido em boa parte sob blecaute da mídia, foi pontuado por rumores de assassinatos extrajudiciais cometidos pelas forças de segurança.

Após dias de seguidos combates, os sons de tiros e aviões de guerra finalmente se acalmaram sobre a Cidade Antiga. As últimas saídas de sobreviventes pareciam ter acabado.

Os esqueletos cor de areia das casas haviam se tornado um cemitério para os últimos combatentes do Estado Islâmico, e para qualquer um que tivesse ficado preso junto com eles. Mas todas as casas ainda precisavam ser vasculhadas. As forças de operações especiais iraquianas começaram a remexer montes de entulho pulverizado, às vezes de dois andares, no último bastião do Estado Islâmico.

Um sniper e seu olheiro continuaram procurando por alvos a partir de uma sacada com vista para o Rio Tigre, mas sem achar nada.

O tenente da unidade disse que o sniper havia matado 85 militantes nas duas semanas anteriores, muitos deles enquanto tentavam fugir da área atravessando o rio de oeste a leste. Os restos mortais de alguns deles permaneciam nas margens do rio, mas o fedor persistente de podridão era uma indicação mais segura do que havia acontecido aqui.

Ivor Prickett/The New York Times
Soldado iraquiano dirige carro modificado pelo Estado Islâmico, que poderia se tornar um carro-bomba

Entre os sobreviventes que saíram antes do episódio final da batalha, no começo de julho, estava uma mulher de 30 anos chamada Shayma, juntamente com seus filhos e sua mãe. Eles se instalaram em um acampamento para deslocados em Hamam al-Alil, um vilarejo logo ao sul de Mossul.

Ela havia sido casada com um combatente do Estado Islâmico, para o qual ele entrou logo depois que os militantes assumiram controle de Mossul e de seus entornos em 2014. Segundo ela, eles precisavam do dinheiro para a casa que estavam construindo no vilarejo de Qaiyara.

Quando as forças iraquianas começaram a cercar Mossul no ano passado, os militantes levaram à força a família de Shayma e a de outros combatentes para o oeste de Mossul. Ela disse que seu marido foi morto em um ataque aéreo ali perto durante os combates de março.

Agora viúva, e estigmatizada por ter se casado com um membro conhecido do Estado Islâmico, ela está desesperada para achar um meio de cuidar de seus filhos e de sua mãe.

A operação para liberar a Cidade Antiga de explosivos e buscar quem quer que ainda esteja escondido continua. Os homens que fazem esse trabalho se movem lentamente pelas estreitas vielas de trás, verificando cada casa e cada porão em busca de focos de resistência do Estado Islâmico, embora a probabilidade de encontrar alguém vivo diminua a cada dia.

Nos arredores da cidade, milhares de homens acusados de terem integrado ou ajudado o Estado Islâmico aguardam seus destinos em cadeias lotadas e sufocantes. Eles olhavam fixamente para mim enquanto passávamos pelos corredores.

Ivor Prickett/The New York Times
Soldados procuram por explosivos que possam ter sido deixados por combatentes do Estado Islâmico

Antes disso eu havia encontrado outros sobreviventes da Cidade Antiga. Enquanto os combates ainda aconteciam em meados de julho, encontrei cerca de 20 mulheres e crianças sentadas em uma loja destruída no distrito de Maydan, a poucas centenas de metros do que restara do campo de batalha.

Elas estavam cobertas de poeira, e muitas estavam feridas. Elas haviam fugido naquela mesma manhã, sob fogo de snipers do Estado Islâmico. Os soldados iraquianos disseram que três do grupo haviam sido mortos.

A maioria estava obviamente traumatizada. Elas se sentavam em silêncio, bebendo a água e comendo a comida que os soldados haviam trazido para elas. Algumas das crianças do grupo haviam perdido seus pais e saíram junto com outras famílias.

Ivor Prickett/The New York Times
Soldado iraquiano carrega criança que foi levada por suspeito, em Mossul, Iraque

Uma mulher disse que havia sido casada com quatro combatentes diferentes do Estado Islâmico, e o coronel que comandava as unidades de contraterrorismo a interrogava sobre um deles. Ela foi encontrada carregando uma faca, um tablet e quase US$2 mil (mais de R$6 mil), em dinheiro americano.

O grupo acabou sendo levado para ser interrogado mais a fundo. Quando questionados sobre o lugar para onde as mulheres e as crianças seriam levadas, os soldados responderam simplesmente que seria um acampamento.

Contudo, para esse grupo pode ser que se trate do "acampamento de reabilitação" especial para famílias de membros do Estado Islâmico, descrito em um relatório da Human Rights Watch. O grupo de defesa de direitos disse que a detenção das famílias no local equivalia a uma punição coletiva e violava direitos humanos.

Só agora o resultado da batalha por Mossul em praticamente cada frente --direitos humanos, vidas, propriedade e patrimônio iraquiano-- está começando a ser visto com clareza. Com o encerramento das últimas buscas na Cidade Antiga, há pela frente toda uma tarefa quase incomensurável de reconstruir a cidade e, de alguma forma, conseguir lidar com tudo que aconteceu aqui.

* Ivor Prickett estava em Mossul, Iraque, pelo "The New York Times" para registrar as últimas batalhas contra o Estado islâmico

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos