Perda de terras férteis motiva crise agrária, violência e fome em toda a África

Jeffrey Gettleman

Em Laikipia (Quênia)

  • Tyler Hicks/The New York Times

    29.mar.2017 - Pastores dão água para o gado magro em um terreno em Laikipa, no Quênia

    29.mar.2017 - Pastores dão água para o gado magro em um terreno em Laikipa, no Quênia

Os dois idosos, usando chapéus de caubói surrados com o cordão amarrado embaixo do queixo, estavam na borda de uma fazenda vazia e cobriam as bocas com as mãos, incrédulos.

Suas casas --cabanas de madeira bem cuidadas-- tinham sido arrombadas. Todo o seu gado fora roubado, assim como suas galinhas. Todas as casas estavam vazias, sem uma alma por perto. Era como se uma força enorme tivesse invadido a aldeia e levado embora toda a vida.

Sioyia Lesinko Lekisio, um dos idosos, não tinha dúvidas sobre quem havia feito aquilo. Bandos de pastores de outro município tinham invadido, atacando qualquer fazenda ou rancho de gado em seu caminho, grande ou pequeno, roubando animais, saqueando as casas e atirando nas pessoas com rifles de assalto potentes.

"Não há nada que possamos fazer", disse ele. "Eles querem nossa terra."

O Quênia tem um problema agrário. A África tem um problema agrário. O continente parece tão vasto, mas de certa forma é uma ilusão.

O aumento da população, a mudança climática, a degradação do solo, a erosão, a caça ilegal, os preços globais dos alimentos e até os benefícios da riqueza estão exercendo uma incrível pressão sobre a terra africana. Eles estão alimentando conflitos em todo o continente, da Nigéria, no oeste, ao Quênia, no leste, inclusive aqui em Laikipia, um paraíso da vida silvestre.

Grandes grupos de pessoas estão se deslocando, desesperadas atrás de terra útil. Dados de satélite da Nasa revelam uma degradação generalizada da terra agrícola em toda a África, e um estudo recente mostrou que mais de 40 milhões de africanos tentam sobreviver de terras cujo potencial agrícola está em declínio.

Ao mesmo tempo, os altos índices de natalidade e a ampliação da expectativa de vida significam que até o final deste século poderá haver 4 bilhões de pessoas no continente, cerca de dez vezes a população de 40 anos atrás.

É um problema de duas frentes, segundo cientistas e ativistas, e poderá ser um dos maiores desafios que a África enfrenta: a qualidade da terra agrícola em muitas áreas está piorando e o número de pessoas comprimidas nessa terra aumenta depressa.

"É uma crise iminente", disse Odenda Lumumba, diretora da Aliança pela Terra do Quênia, grupo que trabalha pela reforma agrária. "Nós estamos basicamente chegando ao fim do caminho."

Tyler Hicks/The New York Times
Crianças sem teto em uma tenda improvisada no Quênia

Novas pressões

Mais que em qualquer outra região do mundo, as populações da África vivem da terra. Setenta por cento da população africana ganham a vida com a agricultura, mais que em qualquer outro continente, segundo o Banco Mundial. Mas com o aumento da população, com mais irmãos competindo por sua parcela da fazenda familiar, as fatias ficam menores.

A mudança climática torna as coisas ainda mais difíceis. Cientistas dizem que grandes áreas da África estão secando, e eles preveem mais desertificação, mais seca e mais fome. Neste ano, a fome está levando mais de 10 milhões de pessoas na Somália, na Nigéria e no Sudão do Sul à beira da penúria.

Mas grande parte da terra agrícola da África corre perigo por outro motivo, talvez mais simples: o excesso de uso. As populações em rápido crescimento significam que mais famílias africanas não podem esperar que a terra descanse e se recomponha. Elas têm de aproveitar cada centímetro de terra e cultivá-lo ou usar como pasto constantemente, tornando difícil plantar cultivos.

O fato de que várias das maiores economias da África cresceram de modo impressionante nos últimos dez anos pode parecer uma resposta, mas analistas dizem que a nova afluência pode na verdade agravar essas pressões.

Conforme as pessoas adquirem riqueza, elas consomem mais --energia, água e geralmente carne, o que intensifica a pressão sobre o meio ambiente. Nos últimos 15 anos, o número de bois no Quênia disparou mais de 60%, para cerca de 20 milhões, promovendo uma luta por pastagens.

A terra agrícola também está rapidamente desaparecendo em loteamentos habitacionais e shopping centers para atender à população cada vez maior e mais rica.

Depois há a batalha para proteger a vida natural africana. Os hábitats de vida silvestre estão ameaçados em todo o continente, em grande parte por causa de novas fazendas e novas cercas, e os ativistas dizem que algo drástico precisa ser feito para proteger as espécies ameaçadas.

O condado de Laikipia, a poucas horas de carro ao norte de Nairóbi, a capital do Quênia, é um microcosmo de muitas dessas questões complexas. Neste platô acidentado, pastores pobres, ricos donos de terras, grandes e pequenos agricultores, pecuaristas comerciais, operadores de turismo, ativistas pela vida selvagem, elefantes, leões, hienas, bois, cabras e zebras competem pelo mesmo espaço.

As pessoas sempre lutaram pela terra, e Laikipia não é exceção. Mas muitos moradores dizem que o último ano foi o mais sangrento da história. Pelo menos 80 pessoas foram mortas, e em meados de julho um grande grupo de pastores matou meia dúzia de policiais e roubou suas armas.

"Essas ideias de abundância de terra na África estão cada vez mais defasadas", disse Thomas Jayne, um importante economista agrícola da Universidade Estadual de Michigan. "As disputas pela terra vão ficar cada vez mais comuns e graves."

Tyler Hicks/The New York Times
Matt Evans, fazendeiro branco no rancho de sua família em Laikipa

"Perigoso e perturbado"

No último ano, ondas de jovens pastores de países vizinhos, movendo-se em grupos armados com rifles de assalto AK-47, invadiram dezenas de fazendas e ranchos, trazendo dezenas de milhares de bois magros de áreas assoladas pela seca.

O governo do Quênia mobilizou centenas de policiais e soldados, declarando partes de Laikipia "perigosas e perturbadas", o que é uma espécie de estratégia de emergência local que dá à polícia mais poder para reprimir os invasores.

Mas os agricultores de Laikipia dizem que nunca viram homens tão tímidos de uniforme. Às vezes eles mesmos enfrentam os invasores.

Tristan Voorspuy, um ex-militar britânico, vivia em um rancho que foi invadido em março. As forças de segurança pouco fizeram para ajudá-lo, então ele foi a cavalo até os jovens invasores, esperando lhes pedir para sair.

Os homens lhe deram um tiro no rosto e também mataram seu cavalo.

No mês seguinte, Kuki Gallmann, autora de origem italiana do livro best-seller "I Dreamed of Africa" ['Eu sonhei com a África'], e uma celebridade no Quênia, passeava pela reserva natural de Laikipia, uma das maiores áreas de terra privada do país. Gallmann, 74, reservou essas terras para proteger animais silvestres como elefantes, leopardos, leões e búfalos, assim como espécies raras de árvores e plantas.

Enquanto ela dirigia, com um contingente de patrulheiros armados com rifles atrás dela, ouviram-se tiros. Várias balas perfuraram a porta do carro de Gallmann e atingiram seu estômago. Ela continua em sua casa em Nairóbi, convalescente, com graves danos internos. Ela disse que muitos invasores recentes vieram sem gado e ela os considera uma milícia.

Brancos em um país negro

Nas redes sociais e em pontos de encontro populares, quando alguns quenianos falam sobre a crise, uma palavra continua surgindo: "mzungu", que significa "estrangeiro" ou, mais comumente, "homem branco".

Alguns quenianos consideram os problemas de terra em Laikipia como algo entre negros e brancos, porque a maioria dos grandes ranchos e reservas de vida natural são propriedade de um punhado de famílias de origem europeia. Os quenianos se queixaram do tamanho das fazendas de propriedade branca, dizendo que muitas foram roubadas ou adquiridas de forma injusta dos africanos na época colonial. Algumas pessoas no Quênia, negras e brancas, estão fazendo comparações com o Zimbábue, cujo governo confiscou terras de brancos ricos.

Algumas famílias brancas agora pensam duas vezes se continuarão lá.

"Pela primeira vez na vida senti essa vibração de ser um 'mzungu' --'O que você está fazendo aqui?'", disse Anne Powys, em outra fazenda em Laikipia. "É um pouco exagerado pensar que podemos continuar vivendo assim, quando milhares de pessoas não têm terra nenhuma."

"Parece o Zimbábue", disse ela. "Somos brancos em um país negro. Se não somos bem-vindos, de que adianta?"

Pastores invasores em Laikipia, que estavam abertamente cuidando de seu gado em terra alheia, disseram que não visam necessariamente os brancos. Simplesmente precisam de capim para manter seu gado vivo, afirmaram.

"Sabemos que tomar a terra de outro homem é como tomar sua mulher", disse Parashuno Lekadero, um pastor que estava em uma fazenda recentemente invadida em Laikipia. Não havia policiais em quilômetros, e ele falou com confiança e abertamente, sabendo que tinha pouca probabilidade de ser apanhado em confusão.

"Há uma seca", explicou. "Temos muitos animais e precisamos de terra."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos