Telefonemas mencionados por Trump nunca ocorreram, admite a Casa Branca

Julie Hirschfeld Davis

Em Washington (EUA)

  • Mandel Ngan/ AFP

    28.jan.2017 - O presidente dos EUA Donald Trump fala ao telefone com o presidente russo Vladimir Putin, na Casa Branca

    28.jan.2017 - O presidente dos EUA Donald Trump fala ao telefone com o presidente russo Vladimir Putin, na Casa Branca

O presidente Donald Trump já lhe contou sobre a vez em que o chefe dos Escoteiros telefonou para lhe dizer que o discurso dele foi o melhor já feito para a organização mais que centenária? E sobre quando o presidente do México pegou o telefone para informá-lo que seus rigorosos esforços de vigilância da fronteira estavam surtindo efeito?

Os casos, ambos contados por Trump na semana passada, foram semelhantes no sentido de esforços para demonstrar amplo apoio ao presidente, em um momento em que a Casa Branca está atolada em turbulência. Mas eles também têm outra coisa em comum, como a Casa Branca reconheceu na quarta-feira: nenhum deles é verdadeiro.

Sarah Huckabee Sanders, a secretária de imprensa da Casa Branca, confirmou em sua coletiva de imprensa diária o que tanto os Escoteiros quanto o governo mexicano já afirmaram publicamente, que nenhum dos telefonemas mencionados por Trump ocorreu.

As histórias não foram invenções, insistiu Sanders. "Múltiplos membros da liderança dos Escoteiros" elogiaram o discurso de Trump em Glen Jean, Virgínia Ocidental, após ele conclui-lo na semana passada, ela disse. E Trump e o presidente Enrique Peña Nieto do México discutiram a vigilância da fronteira no mês passado, às margens da cúpula do G-20 em Hamburgo, Alemanha, ela acrescentou.

"Eu não diria que se trata de uma mentira, essa seria uma acusação forte demais", disse Sanders. "As conversas ocorreram, apenas não ocorreram em um telefonema, elas aconteceram pessoalmente."

Os telefonemas inexistentes colocam ainda mais em dúvida a credibilidade de Trump, assim como de sua Casa Branca, já em dúvida devido a mudanças de explicações em assuntos grandes e pequenos, incluindo o tamanho do público na posse do presidente e seu envolvimento na redação da declaração sobre o motivo de seu filho, Donald J. Trump Jr., ter se encontrado com um advogado ligado ao Kremlin durante a campanha.

Os telefonemas parecem ser a mais recente evidência de que o presidente, que prefere contar histórias improvisadas em vez de seguir um roteiro com fatos checados, está disposto a distorcer ou até mesmo inventar eventos para que se enquadrem em sua narrativa preferida, mesmo quando a história pode ser facilmente comprovada como sendo falsa ou de pouca consequência.

"Ele mentiu durante toda sua vida, quase por reflexo, e é quase como se achasse mais satisfatório e mais fácil do que falar com exatidão", disse Michael D'Antonio, um jornalista ganhador do prêmio Pulitzer que posteriormente escreveu uma biografia de Trump, "The Truth About Trump" (A verdade sobre Trump, em tradução livre, não lançado no Brasil).

"Quando era garoto, ele mentia sobre ter feito um home run [jogada máxima do beisebol], e quando era um homem jovem, mentia sobre a altura da Trump Tower, quantos andares tem e a altura dos andares, e mentia sobre quais mulheres bonitas estavam interessadas nele."

Trump já escreveu sobre como distorce a verdade quando serve a seus interesses, afirmando em seu livro de 1987, "A Arte da Negociação", que "um pouco de hipérbole nunca faz mal".

"As pessoas querem acreditar que algo é o maior, o melhor, o mais espetacular", escreveu Trump na época. "Eu chamo de hipérbole verdadeira. É uma forma inocente de exagero e uma forma muito eficaz de promoção."

A grande diferença agora, disse D'Antonio, é que, na condição de presidente, os fatos mencionados por Trump são checados assiduamente.

O mais recente enrosco de Trump com a verdade teve início na segunda-feira, quando Trump anunciou em uma reunião do Gabinete que Peña Nieto conversou por telefone com ele.

"Até mesmo o presidente do México me ligou", disse Trump, promovendo seu sucesso na repressão à imigração ilegal. "Eles disseram que em sua fronteira sul, muito poucas pessoas estão vindo, porque sabem que não passarão pela nossa fronteira, o que é o elogio supremo."

O governo mexicano disse na quarta-feira que tal telefonema nunca ocorreu. Em uma declaração, o ministro das Relações Exteriores do México disse que Peña Nieto disse a Trump, durante a cúpula do G-20, que as deportações de mexicanos dos Estados Unidos caíram 31% nos primeiros seis meses do ano, em comparação ao mesmo período em 2016.

Na terça-feira, foi a vez dos Escoteiros: uma transcrição vazada de uma entrevista dada pelo presidente ao "Wall Street Journal" o citava dizendo que o chefe dos Escoteiros telefonou para ele cheio de elogios por um discurso altamente político feito por Trump no Encontro Nacional dos Escoteiros.

"Eu recebi um telefonema do chefe dos Escoteiros dizendo que foi o maior discurso já feito para eles e que ficaram muito agradecidos", disse Trump ao "Wall Street Journal".

Na quarta-feira, a Escoteiros da América disse não estar ciente de qualquer telefonema por parte de sua liderança nacional para Trump. Em uma declaração, a organização disse que uma declaração anterior de Michael Surbaugh, o chefe da organização, pedindo desculpas aos escoteiros pelo discurso de Trump, "já diz tudo". Surbaugh expressou pesar a aqueles que se "ofenderam com a retórica política inserida no encontro nacional".

Está longe de ser sem precedente um presidente usar uma história para inspirar ou motivar, ou enfeitar uma história visando pontuar uma mensagem tocante. O presidente Lyndon B. Johnson era um contador de histórias frequente e animado, e Ronald Reagan era tão parcial ao contar uma história comovente que chegava a levantar suspeita sobre se era real ou tirada de um filme estrelado por ele.

Em seu primeiro discurso de posse, o primeiro feito no lado oeste do Capitólio, voltado ao Cemitério Nacional de Arlington, Reagan quis contar a história de um soldado da Primeira Guerra Mundial, enterrado em Arlington, que escreveu em seu diário sobre sua promessa de dar tudo por seu país e que morreu em combate no dia seguinte.

O único problema, seu redator de discursos lhe disse, era que o soldado morto foi enterrado em sua cidade natal, não em Arlington, segundo H.W, Brands, um historiador da Universidade do Texas e biógrafo de Reagan.

Mas o presidente, apaixonado pela história, optou por deixá-la no discurso assim mesmo e disse que o soldado estava enterrado "sob uma lápide daquelas", deixando vago seu local de descanso final real. A Casa Branca foi posteriormente forçada a reconhecer que o homem em questão não estava de fato enterrado em Arlington.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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