Debaixo de forte calor, sudeste texano vira linha de frente contra o aquecimento global

Yamiche Alcindor

Em Galveston (Texas)

  • Alyssa Schukar/The New York Times

    24.jul.2017 - Termômetro marca 43°C (110º Farenheit) em jardim em Galveston, no Texas, onde trabalhadores sofrem com as altas temperaturas

    24.jul.2017 - Termômetro marca 43°C (110º Farenheit) em jardim em Galveston, no Texas, onde trabalhadores sofrem com as altas temperaturas

Adolfo Guerra, um jardineiro da cidade portuária de Galveston, no Golfo do México, se lembra de quando entrou em pânico ao ver seu colega de trabalho vomitando e tendo convulsões após horas cortando grama sob um calor sufocante. Outros colegas correram para cobri-lo com gelo, e o homem se recuperou.

Mas, para Guerra, 24, que passa nove horas por dia, seis dias por semana trabalhando com jardinagem, o episódio foi um lembrete dos perigos que existem para quem trabalha ao ar livre, à medida que o planeta vai se aquecendo.

"Penso no clima todos os dias", disse Guerra, "porque todos os dias trabalhamos, e todos os dias parece que está ficando mais quente".

Para boa parte da classe trabalhadora, a promessa do presidente Donald Trump de devolver a grandiosidade aos Estados Unidos invocava imagens de fábricas reativadas e indústrias renascendo, alimentadas por carvão e outros combustíveis fósseis baratos.

Esses trabalhadores deram mais de seus votos a Trump do que quatro anos antes a Mitt Romney, ajudando-o a conquistar a vitória em novembro com vantagens apertadas em todo o Cinturão da Ferrugem. Os votos latinos também caíram entre os democratas, dos 71% que foram para Barack Obama em 2012 para os 66% que foram para Hillary Clinton no ano passado.

Alyssa Schukar/The New York Times
Jardineiro Adolfo Guerra trabalha sob temperatura escaldante em Galveston

Mas para Robert D. Bullard, professor na Texas Southern University chamado por alguns de "pai da justiça ambiental", o renascimento industrial que Trump prometeu poderia trazer sérias desvantagens para um planeta já em aquecimento.

Bullard está tentando levar essa mensagem para americanos da classe trabalhadora como Guerra, e para organizações ambientais que, na visão dele, têm focado mais no sofrimento de animais do que nos pobres humanos, que foram desproporcionalmente prejudicados pela elevação das temperaturas, pela intensificação das tempestades e pela elevação dos níveis dos mares.

"Durante muito tempo, boa parte dos argumentos sobre mudanças climáticas e aquecimento global focaram em gelo derretendo e ursos polares, e não no lado do sofrimento humano", disse Bullard.

"Eles ainda estão usando o urso polar como ícone da mudança climática. O ícone deveria ser uma criança que está sofrendo com os impactos negativos da mudança climática e do aumento da poluição atmosférica, ou uma família onde a elevação das águas esteja colocando suas vidas em risco."

O "movimento de justiça ambiental", na verdade, se popularizou entre importantes grupos ambientais, mas ele tem um longo caminho pela frente antes de começar a obter progressos nas políticas do país. Bullard prevê que os recrutas de seu movimento virão não somente de cidades universitárias progressistas no nordeste e no centro-oeste, mas também de comunidades da classe trabalhadora sufocadas pelo calor do Cinturão do Sol, que ele vê como a linha de frente das guerras ambientais do país.

Moradores de comunidades da classe trabalhadora no Cinturão do Sol muitas vezes não têm condições de se mudar ou de deixar suas casas durante desastres relacionados ao clima. Eles podem ter de trabalhar ao ar livre, e eles podem ter dificuldades para pagar suas contas de ar condicionado.

A poluição em suas comunidades leva a problemas de saúde que são agravados pela recusa da maior parte dos governos estaduais do Cinturão do Sol de expandir o acesso ao Medicaid sob o Affordable Care Act.

A classe trabalhadora precisa lidar com uma longa lista de problemas, desde conseguir empregos remunerados até encontrar escolas decentes. Mas Bullard está tentando despertar a conscientização sobre o ambiente em torno deles.

Para os pobres, os desafios da mudança climática não são abstratos. John W. Nielsen-Gammon, um professor de ciências atmosféricas na Texas A&M University que é o climatologista do Estado do Texas, diz que na costa sudeste do Texas as temperaturas estão cerca de 1°C mais quentes do que estavam no começo do século 20.

Alyssa Schukar/The New York Times
Refinaria Valero Houston compõe o cenário da cidade de Manchester, no Texas

No Texas, assim como em outras partes do mundo, esse aquecimento médio aparentemente baixo leva a uma chance muito maior de ondas de calor extremo, de acordo com cientistas.

Guerra, que disse que não tinha condições de pagar por um seguro de saúde e temia que este verão pudesse levar a mais episódios de mal-estar, espera conseguir um novo emprego depois que terminar o programa de mecânica industrial na College of Mainland. Até lá, ele pretende usar os US$ 115 (R$ 357) por dia que ganha cortando grama de jardins para pagar a faculdade e o aluguel. Guerra também espera que Trump reconsidere suas políticas ambientais.

"Eles não sabem o que está acontecendo e não podem dizer nada porque estão dentro de casas e escritórios fresquinhos", disse Guerra.

Bullard e outros nesse campo realizaram conferências sobre mudanças climáticas e ambientalismo em faculdades historicamente negras, e levaram grupos de alunos negros a reuniões sobre o clima para instrui-los sobre a intersecção entre raça, renda e meio ambiente.

"Faço esse trabalho há 40 anos e vi mudanças; há 25 ou 30 anos, muitas das organizações brancas que estavam fazendo um trabalho ambiental não tinham membros negros, não tinham funcionários negros nem negros no conselho", ele disse. "Elas não tinham nenhum contato com comunidades negras e comunidades mestiças, e isso mudou um pouco".

Freelander Little, 49, de Galveston, entende o trauma de se abandonar uma casa por causa de enchentes. Em 2008, o furacão Ike arrasou a cidade e destruiu quase todos os pertences de sua família. A casa de sua irmã, que era ao lado, desabou sobre a de Little, que foi inundada por dois metros de água. Durante meses ela e seus três filhos moraram em hotéis e usaram cupons para sobreviverem enquanto sua casa era reconstruída, a 2,5 m do chão.

Alyssa Schukar/The New York Times
Casa de Freelander Little, que foi elevada em 2,5 metros quando foi reconstruída. Ela havia sido destruída durante a passagem do furacão Ike, em 2008, Galveston

Quando pessoas como Bullard falam que o clima em elevação produz tempestades mais frequentes e mais fortes, Little estremece. Atribuir a força do Ike ao aquecimento global é arriscado do ponto de vista científico, mas para ela os alertas de cientistas especializados em clima soam como verdade.

"Mudança climática é a minha vida", disse Little.

Bullard disse que parte de sua missão era fazer com que as pessoas entendessem o risco em particular que tempestades como o Ike podem representar à classe trabalhadora.

"Estamos trazendo os caras do Black Lives Matter e falando de justiça climática e das vidas de negros que foram perdidas em Nova Orleans por causa da mudança climática e por causa de quem foi deixado para trás em cima dos telhados", ele disse, referindo-se ao furacão Katrina em 2005. "O racismo os deixou para trás em cima dos telhados."

E a raça está começando a se instilar nas respostas às políticas ambientais de Trump. Quando o presidente começou a transformar a Agência de Proteção Ambiental, Mustafa Ali, que é afroamericano, renunciou após mais de duas décadas ali.

"A ciência deveria estar falando sobre como melhoramos vidas e o que causará impactos sobre a vida", disse Ali, um ex-administrador assistente associado para justiça ambiental na Agência de Proteção Ambiental, que hoje trabalha na Hip Hop Caucus, uma ONG focada em ativismo através do hip-hop. "Então em vez de pensar em esperar o bolo crescer para depois reparti-lo, precisamos pensar em efeitos de crescimento através de melhorias na base".

A liberação do setor de energia fóssil defendida por Trump poderia ter repercussões mais imediatas do que o clima global. Em Houston, bairros predominantemente afroamericanos como Sunnyside e Pleasantville têm lidado com a poluição do setor de energia há anos.

Ana Parras, seu marido Juan e seu enteado Bryan têm ensinado a moradores de Houston sobre os perigos de se viver em comunidades cercadas por refinarias e indústrias químicas. E eles falam por experiência própria. Parras mesmo começou a ter problemas respiratórios recentemente.

"Às vezes consigo até sentir os químicos nos lábios e penso comigo mesma, 'Talvez esse seja o preço a se pagar por trabalhar e fabricar parte dessas coisas'", disse Parras, 51, com os olhos marejados. "Ao mesmo tempo, tenho até mais empatia por essas comunidades porque muitas dessas crianças têm asma e estão doentes."

A família Parras passou boa parte de sua vida em Manchester, uma comunidade em Houston que é um dos lugares mais poluídos do país. Por causa das leis liberais sobre uso de terra de Houston, a comunidade é cercada por uma refinaria de petróleo, uma indústria química, um pátio de compactação de carros, uma usina de tratamento de esgoto e uma interestadual.

Em 2010, a Agência de Proteção Ambiental encontrou níveis tóxicos de sete poluentes carcinogênicos atmosféricos na vizinhança.

"Você não pode ter liberdade e justiça neste país se você não consegue respirar seu ar, se você não pode abrir sua janela por causa dos cheiros tóxicos", disse o senador Cory Booker (democrata, Nova Jersey). "Pode não ser um cassetete batendo em você ou um cachorro arrancando sua pele—como nas imagens do movimento de Direitos Civis—mas é uma violência contra o corpo."

Eva Morales, 44, que vive em Manchester há mais de três décadas, disse que gostaria de vender sua casa, mas não recebeu ofertas altas o suficiente que lhe permitissem comprar uma casa nova em outro lugar. Ela conta que ainda que a mudança climática possa não ser prioridade para ela, o cheiro químico no ar é.

"Estamos meio que encurralados. Não temos dinheiro para simplesmente sair andando. Não temos alternativas", disse Morales. "Quem sabe como isso vai me afetar depois? Não sei. Como vai afetar meus filhos? Não sei."

Tradutor: UOL

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