Como preparar as crianças de hoje para a economia automatizada

Claire Cain Miller e Jess Bidgood

De Portland e Medford (EUA)

  • Kayana Szymczak/The New York Times

    Da esquerda para a direita, Declan Lewis, 8, Elizabeth Sheldon, 7, e Violet Smith, 7, com o robô Kibo no acampamento de verão DevTec, da Tufts University, em Medford (EUA)

    Da esquerda para a direita, Declan Lewis, 8, Elizabeth Sheldon, 7, e Violet Smith, 7, com o robô Kibo no acampamento de verão DevTec, da Tufts University, em Medford (EUA)

Amory Kahan, 7, perguntou quando seria a hora do lanche. Harvey Borisy, 5, queixou-se de um arranhão no cotovelo. E Declan Lewis, 8, perguntou por que o robô de madeira de duas rodas que ele estava programando para fazer a dança do Hokey Pokey não funcionava. Ele suspirou: "Para a frente, para trás e ele para".

Declan tentou de novo, e desta vez o robô sacudiu para a frente e para trás sobre o tapete cinza. "Ele fez!", gritou o menino. Amanda Sullivan, uma coordenadora do acampamento e pesquisadora de pós-doutorado em tecnologia na primeira infância, sorriu. "Eles estão resolvendo os problemas de seus Hokey Pokeys", disse ela.

As crianças, em um acampamento de verão no mês passado dirigido pelo Grupo de Pesquisa de Tecnologias do Desenvolvimento na Universidade Tufts, estavam aprendendo técnicas típicas de crianças: construir com blocos, fazer revezamento, perseverar após uma frustração. Elas também estavam, segundo os pesquisadores, aprendendo as técnicas necessárias para ter sucesso em uma economia automatizada.

Os avanços tecnológicos tornaram obsoleto um número cada vez maior de empregos na última década, e os pesquisadores dizem que partes da maioria dos empregos um dia serão automatizadas.

Como será o mercado de trabalho quando as crianças de hoje tiverem idade para trabalhar talvez seja mais difícil de prever que em qualquer momento na história recente. Os empregos provavelmente serão muito diferentes, mas não sabemos quais ainda existirão, o que será feito por máquinas e que novos empregos serão criados.

Para se preparar, as crianças precisam começar na pré-escola, dizem os educadores. Habilidades fundamentais que afetam se as pessoas têm sucesso ou não na economia moderna são desenvolvidas cedo, e lacunas no aprendizado aparecem antes do jardim de infância.

Nervosos sobre o futuro, alguns pais estão forçando as crianças a aprender a escrever código de computador com 2 anos de idade, e os defensores disso dizem que é tão importante quanto aprender letras e números.

Mas muitos pesquisadores e educadores dizem que o enfoque na codificação é errado e que as técnicas mais importantes a se ensinar têm a ver com brincar com outras crianças, e nada a ver com máquinas: as técnicas humanas que as máquinas não podem replicar facilmente, como empatia, colaboração e solução de problemas.

"É simplesmente um engano que aprender a codificar é a resposta", disse Ken Goldberg, um presidente em engenharia na Universidade da Califórnia em Berkeley. "Não precisamos que todo mundo seja codificadores Python extremamente capazes. É uma maneira de entender em que as máquinas são boas e em que elas não são --isso é algo que todo mundo precisa aprender."

Não é que a tecnologia deva ser evitada; muitos pesquisadores dizem que as crianças devem ser expostas a ela. Mas não sabemos o que as máquinas serão capazes de fazer daqui a duas décadas, quanto menos as linguagens de programação que os engenheiros de software usarão. E as crianças aprendem melhor, segundo eles, brincando e construindo, em vez de ficar sentadas diante de telas.

"Não queremos todas as crianças sentadas diante de um computador", disse Marina Umaschi Bers, uma professora de ciência da computação e desenvolvimento infantil que dirige o grupo de pesquisa na Tufts. "Queremos que elas se movimentem e trabalhem umas com as outras."

Umaschi Bers desenvolveu o robô Kibo que Declan estava usando e ScratchJr, uma linguagem de programação para o grupo de menos de 7 anos. Mas ela diz que o ponto principal é ensinar o pensamento computacional. Isso significa essencialmente dividir os problemas em partes menores e criar planos para resolvê-los --com protótipos, feedback e revisões-- em todas as partes da vida.

"Isso é chave para a programação e é chave para a vida", disse ela. Seu currículo, usado em escolas de todo o país e no exterior, ensina técnicas como compartilhar e perseverar, e está entremeada a todas as disciplinas no dia escolar: as crianças programam robôs para encenar uma história que elas estão lendo, por exemplo.

Essas ideias surgiram há cinco décadas, com Seymour Papert, um matemático e teórico da educação. As crianças aprendem melhor não quando um professor ou computador as alimenta com conhecimento, disse ele, mas quando seguem sua curiosidade e fazem coisas, seja um castelo de areia ou um robô. Como os programadores de computador, as crianças fazem erros e resolvem problemas durante o percurso.

Em 2006, Jeannette Wing, uma cientista da computação na Universidade Columbia, reviu a ideia do pensamento computacional como uma técnica que todos deveriam aprender e usar.

"O pensamento computacional é um modo de os humanos resolverem problemas", escreveu ela. Wing deu exemplos cotidianos: "Quando sua filha vai para a escola de manhã, ela coloca na mochila as coisas de que vai precisar no dia; isso é 'prefetching' e 'caching'."

No acampamento de verão da Tufts, as crianças estavam programando o robô --que não tem tela, mas usa blocos de madeira coloridos e um leitor de código de barras-- construindo uma sequência de blocos rotulados com comandos como "vire à direita" ou "gire".

Elas já tinham aprendido uma parte importante da sintaxe; o programa deve começar com um bloco verde "começo" e terminar com um vermelho "fim". Nico Luker, 6, decidiu testar o que aconteceria se ele escaneasse um programa sem o bloco "fim". "Não vai funcionar sem um fim", previu Noam Webber, 6. Com certeza, o robô não andou.

Kayana Szymczak/The New York Times
Amanda Sullivan (centro), pesquisadora da Tufts University, ouve Elizabeth Sheldon, 7, que segura o robô Kibo no acampamento de verão DevTech em Medford (EUA)

Enquanto isso, as crianças aprendiam trabalho em equipe, fracasso e compartilhamento. "A tecnologia pode ser um veículo para ajudar as pessoas a criar e colaborar melhor, mas no fim das contas elas precisam aprender a trabalhar com pessoas", disse Umaschi Bers.

Para começar, os professores colocam todos os materiais sobre mesas, e as crianças pegam o que elas precisam. Algumas tentam pegar tudo, provocando uma conversa sobre compartilhamento e opções éticas.

Há uma área de testes, onde as crianças recebem pontos por quantas vezes experimentam algo que falha. "Não criamos um ambiente artificial onde tudo dá certo", disse Umaschi Bers. "Nós as deixamos sentir frustração porque elas só vão aprender a administrar a frustração se a conhecerem."

Ensinar técnicas sociais e emocionais está na moda na educação hoje, mas já faz parte do ensino de alta qualidade há décadas, e testes aleatórios mostraram com o tempo que é importante para o sucesso dos adultos, segundo Stephanie Jones, uma professora de educação na Universidade Harvard que estuda desenvolvimento social e emocional.

"Se você criar e educar as crianças para serem flexíveis, solucionadoras de problemas e boas comunicadoras, elas podem se adaptar a um mundo que é novo", disse ela.

Isso é natural no modo como os pré-escolares aprendem, disse David Deming, um professor de política pública, educação e economia em Harvard. Eles se movem com flexibilidade da área de arte à área de blocos durante o recreio; eles constroem estruturas e fazem colagens; compartilham brinquedos e experimentam de novo quando fazem confusão.

Um grande desafio --e que segundo ele é essencial para preparar as crianças para um mercado de trabalho em que tarefas rotineiras e individualizadas estão sendo automatizadas-- é garantir que esse estilo de educação não se perca nas séries mais avançadas, quando os professores usam palestras e currículos padronizados.

Assim como os pré-escolares aprendem matemática operando uma loja de brincadeira, em vez de fazer planilhas, disse ele, os estudantes mais avançados devem aprender técnicas de governo encenando um Congresso, em vez de lendo um livro.

"Você está aprendendo a trabalhar em grupos e a ser criativo, e que esse problema que você enfrenta hoje parece um problema que você enfrentou em um contexto diferente um ano atrás", explicou ele. "Esse é um processo muito difícil para a inteligência artificial replicar."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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