Contra tradição masculina, mulheres afegãs fazem campanha pelo uso do nome próprio em público

Mujib Mashal*

Em Cabul (Afeganistão)

  • Adam Ferguson/The New York Times

    24.mar.2016 - Mercado das mulheres em Lashkar Gah, província de Helmand, no Afeganistão

    24.mar.2016 - Mercado das mulheres em Lashkar Gah, província de Helmand, no Afeganistão

Há alguns termos que os homens afegãos usam para se referirem a suas esposas em público, em vez de seus nomes, cujo compartilhar consideram uma grave desonra, digna de violência: Mãe dos Filhos, Meu Lar, Meu Lado Fraco ou às vezes, em cantos distantes, Minha Cabra ou Minha Galinha.

As mulheres também podem ser chamadas de Aquela que Compartilha o Leite ou Cabeça Preta. A palavra usada pelos afegãos para chamar uma mulher em público, independente de seu status, é tia.

Mas uma campanha pelas redes sociais para mudar esse costume, iniciada por mulheres jovens, está ganhando cada vez mais força. A campanha vem com um hashtag em línguas locais que tratam da essência da questão e poderia ser traduzido como #OndeEstáMeuNome.

A meta das ativistas é tanto desafiar as mulheres a retomar sua identidade mais básica quanto quebrar o tabu profundamente enraizado que impede os homens de mencionarem os nomes dos parentes da mulher em público.

"Isto é apenas uma fagulha, apresentar a questão principalmente às mulheres afegãs sobre o motivo para sua identidade ser negada", disse Bahar Sohaili, uma das apoiadoras da campanha.

"A realidade é que as mulheres também permanecem em silêncio, elas não protestam contra isso", disse Sohaili, acrescentando que ela e outras ativistas discutem medidas offline para reforçar a discussão na rede social.

Como muitos esforços de redes sociais, este começou pequeno, com várias postagens provenientes da província de Herat, no oeste. De lá para cá, a maioria das ativistas tentou transformá-lo em um tema de conversa ao desafiar celebridades e autoridades do governo a compartilharem os nomes de suas esposas e mães.

A discussão agora chegou à mídia tradicional, com artigos em jornais e conversas na televisão e em programas de rádio.

Membros do Parlamento, autoridades do governo e artistas manifestaram apoio, declarando publicamente as identidades das mulheres de suas famílias.

Farhad Darya, um dos cantores mais famosos do Afeganistão, compartilhou uma mensagem sincera sobre sua luta para assegurar sempre mencionar os nomes de sua mãe e de sua mulher em concertos e entrevistas ao longo de suas décadas como artista.

"Em muitas ocasiões, diante de uma plateia que não tem nenhum parentesco comigo, noto como as testas dos homens ficam franzidas pelo que consideram minha covardia ao mencionar o nome de minha mãe ou minha esposa", escreveu Darya no Facebook. "Eles olham para mim como se eu fosse o líder de todos os covardes do mundo e desconhecesse 'a honra e tradições' afegãs."

A campanha também tem seus detratores. Algumas pessoas nas redes sociais disseram que ela vai contra "os valores afegãos", enquanto outras a consideram pequena demais para fazer alguma diferença.

Modaser Islami, líder de uma organização jovem, escreveu em sua página no Facebook: "Os nomes da minha mãe, irmã e esposa são sagrados para mim assim como seus lenços de cabeça, e é um sinal da honra delas".

Ele então se dirigiu às ativistas: "Os nomes de minha mãe, irmã e esposa serão mencionados onde elas considerarem necessário. Vocês deveriam arrumar para vocês mesmas lenços de cabeça e calças."

Sohaili, a ativista, disse que espera que os homens façam uma introspecção e considerem o motivo para ser tabu escrever o nome de uma mulher, até mesmo em uma receita médica. "É cultural, é religioso?" ela perguntou. "Há alguma raiz lógica nisso tudo?"

A negação da identidade básica das mulheres em público é emblemática de quão profunda é a misoginia nesta sociedade, quando até mesmo os meninos na escola se envolvem em brigas em defesa da honra delas, que aprendem ser manchada caso alguém mencione o nome de sua mãe ou irmã.

Hassan Rizayee, um sociólogo afegão, disse que o hábito está enraizado nos modos de vida tribais.

"Segundo a lógica tribal, o importante é ser proprietário do corpo de uma mulher", disse Rizayee. "O corpo de uma mulher pertence ao homem, e outras pessoas não devem nem mesmo usar o corpo dela indiretamente, como olhando para ela. Com base nessa lógica, o corpo, o rosto e o nome da mulher pertencem ao homem."

Reverter essas tradições profundamente enraizadas demorará, ele disse, incluindo mudar o que é ensinado às crianças.

"Essa é uma questão tradicional e cultural; ela exige uma luta cultural de longo prazo", ele disse. "Por meio do enfraquecimento das culturas tribais e conscientização por meio da mídia, esse tipo de pensamento sobre a mulher pode ser mudado."

Somaia Ramish, uma integrante do conselho provincial de Herat, escreveu recentemente que as mulheres foram "apagadas de forma sistemática" ao longo da história e reduzidas às suas relações com os homens.

"A criança nasce do útero da mulher, mas em nenhum documento da criança, da infância até a velhice, o nome da mãe é registrado", ela disse em um artigo online. "O interessante, entretanto, é que a mãe então passa, por hábito e tradição, a ser identificada pela criança. A mulher cujo nome não tem lugar nas leis, de repente passa a ser 'a mãe de Ahmad' ou 'a mãe de Mahmoud'."

Ramish escreveu que ela notou a gravidade do problema quando o presidente afegão, Ashraf Ghani, em seu discurso de posse há três anos, mencionou sua esposa pelo nome. Houve tamanha surpresa, ela escreveu, "como se ninguém jamais tivesse ouvido um nome de mulher antes".

Naquele discurso, enquanto homens fortes e ex-senhores da guerra sussurravam um ao outro no fundo do salão, Ghani agradeceu sua esposa, Rula (uma ex-jornalista e trabalhadora de ajuda humanitária nascida no Líbano, a quem ele chamou pelo seu nome afegão adotado, Bibi Gul), por seu "contínuo apoio a mim e ao Afeganistão".

Rula Ghani assumiu um papel mais público como primeira-dama do que Zeenat Karzai, a esposa do presidente anterior, Hamid Karzai. Uma médica, Zeenat Karzai tinha pouquíssima presença pública nos primeiros anos da presidência de Karzai, permanecendo quase que completamente no assento traseiro durante grande parte dos anos restantes.

Por sua vez, Rula Ghani acompanha seu marido a reuniões e viagens provinciais.

Islami, o oponente da campanha, disse em uma entrevista que concorda com a ideia de normalização das identidades das mulheres em público, mas considera o esforço pela rede social como obra de "algumas poucas privilegiadas", colocando as mulheres contra os homens.

Outros apontaram quão enganadora uma rede social pode ser para medir a mudança de hábitos offline. Online, os usuários querem fazer parte de uma onda viral sem realmente levar a mensagem a sério. Isso foi mais bem ilustrado pela postagem desdenhosa de um usuário no Facebook.

"Eu me juntei à campanha #OndeEstáMeuNome", escreveu o usuário. "Meu nome é Akram. O nome da Mãe dos Meus Filhos? Não direi nem que façam em pedaços."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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