Em um campo de refugiados rohingyas, o futebol vira esperança

Nathan A. Thompson

Em Cox's Bazar (Bangladesh)

  • Allison Joyce/The New York Times

    Mohammed Ismail, refugiado rohingya de segunda geração, joga em campo de refugiados de Bangladesh

    Mohammed Ismail, refugiado rohingya de segunda geração, joga em campo de refugiados de Bangladesh

Mohammed Ismail era pura adrenalina. Com um zagueiro entre ele e o gol, ele avançou pela esquerda, driblando os buracos no campo de futebol de terra amarela. Ele chutou a bola com a beirada interna do tênis que seu pai lhe comprou e o arremate, como uma chicotada, deixou o goleiro boquiaberto.

Ismail, 24, é um refugiado de segunda geração da etnia rohingya, nascido neste campo decrépito em Cox's Bazar, no extremo sul de Bangladesh, após seus pais fugirem da violência em seu país natal, Mianmar. E este era seu momento, um escape alegre das realidades dolorosas.

"Quando jogo futebol, a tristeza e a revolta ficam distantes", ele disse, sorrindo. "Mas quando termino, isso sempre volta."

O campo de futebol fica em um plano elevado com ampla vista do campo de refugiados de Kutupalong: casebres de paredes de barro e estruturas de bambu entremeados por esgoto a céu aberto. O ar é repleto de som de galos e das buzinas dos carros de uma estrada próxima.

Os rohingyas, um grupo étnico muçulmano, não são reconhecidos como cidadãos em seu país natal, Mianmar, apesar de viverem lá há centenas de anos. Eles sofrem perseguição periódica nas mãos das Forças Armadas de Mianmar e da população de maioria budista, que os veem como imigrantes ilegais que deveriam voltar para seu lar em Bangladesh.

A família de Ismail chegou em 1992 junto com a primeira onda de refugiados, quando cerca de 250 mil rohingyas fugiram de abusos cometidos pelos militares mianmarenses. Cerca de 33 mil deles continuam aqui, vivendo nos campos de refugiados oficiais da ONU em Kutupalong e Nayapara, ao sul de Cox's Bazar, na fronteira com Mianmar.

Bangladesh, um país superpopuloso, parou de registrar novos refugiados depois de 1992, na esperança de que a adoção de uma linha dura dissuadiria os rohingyas de virem, mas não foi o que aconteceu.

Desde 2012, mais 200 mil refugiados chegaram, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), criando um campo não oficial ao lado do oficial. A onda mais recente teve início em outubro, quando os militares mianmarenses começaram uma campanha mortal de contrainsurreição após militantes rohingyas atacarem três postos de fronteira, matando nove policiais.

Os refugiados que fugiram da ação militar, que foi acompanhada por casas incendiadas, assassinatos e estupros ,mais que dobraram o tamanho do campo não oficial, de estimados 34 mil em 2013 para 75 mil, segundo a Organização Internacional para as Migrações.

O governo bengalês nega aos refugiados educação e licenças de trabalho "porque queremos que voltem" para Mianmar, disse Najnin Sarwar Kaberi, a autoridade local do partido do governo, a Liga Awami Bangladesh. "Caso se estabeleçam aqui, o tamanho de nossa população se tornará insustentável."

O futebol é uma diversão prezada, que ajuda jogadores e espectadores a esquecerem sobre seu exílio, ao menos por algumas poucas horas.

Mohammed Farouque, um refugiado que dirige um clube de futebol rohingya na Malásia, outro destino para os refugiados, disse que o futebol é virtualmente proibido para os rohingyas em Mianmar. A maioria não tem como arcar com a propina de cerca de US$ 4 (cerca de R$ 13) necessária para deixarem seus vilarejos, impossibilitando competições.

Na Malásia e em Bangladesh, a maioria dos rohingyas é apátrida, mas ao menos podem realizar competições de futebol. "Essa é uma das poucas liberdades que temos", disse Farouque.

Em Bangladesh, 16 equipes, oito do campo não-oficial e oito do campo oficial, jogam em uma competição anual ao estilo Copa do Mundo.

Ismail disse que as equipes do campo não oficial seriam mais fortes neste ano, agora que contam com mais jogadores entre os quais escolher, mas que há a sensação de que os refugiados registrados estariam mais bem equipados.

As equipes de registrados já existem há tempo suficiente para receberem distribuições periódicas de material esportivo da ONU ou serem capazes de ganhar dinheiro suficiente para comprarem seu próprio. Os jogadores não registrados com frequência jogam de sandálias de tiras ou descalços.

"A equipe de Ismail nos derrotou da última vez porque tinham tênis e nós não", disse Ziabur Rohaman, 32 anos, que fugiu de Mianmar com sua esposa e três filhos em outubro, e joga pelo campo não-registrado em Kutupalong. "Eles os receberam da Acnur, mas como chegamos recentemente, a maioria dos nossos jogadores não tinha tênis."

O Acnur diz que fornece "apoio limitado independente dos refugiados serem registrados ou não". Vivian Tan, a assessora de imprensa regional da agência, disse que esta fornece bolas, troféus, calças esportivas e refrescos.

Mas a agência está autorizada pelo governo bengalês a fornecer assistência formal apenas aos refugiados registrados. Essa assistência, que inclui abrigo, dinheiro para comida, suprimentos de ajuda, água, instalações sanitárias, atendimento básico de saúde e educação até a sétima série, está proibida aos refugiados não-registrados.

O vencedor da competição em Kutupalong joga contra um time do campo Nayapara, a cerca de 80 km de distância, pelo título de melhor equipe rohingya em Bangladesh.

No ano passado, Kutupalong venceu Nayapara por 3 a 0, um momento de orgulho para Ismail.

"Eu marquei um dos gols e meus companheiros me elegeram o melhor jogador da partida", ele disse, sentado em uma casa de chá rudimentar de madeira, cercado por fãs adolescentes.

Como a maioria das pessoas no campo, ele enfrentou sua cota de tragédia e dificuldades. No ano passado, seu tio foi morto pelo Exército de Mianmar, ele disse, o que forçou sua tia e vários primos a se juntarem a sua família em Bangladesh.

Em dezembro, ele tentou ir ilegalmente para a Malásia, onde, por meio de conexões familiares, ele poderia cursar uma universidade.

Mas o contrabandista que prometeu ajudá-lo a fugir roubou seu dinheiro, cerca de US$ 3.700 (cerca de R$ 11.540) e desapareceu. O pagamento "era todas as minhas economias e mais dinheiro que tomei emprestado e dinheiro que minha mãe me deu após vender suas joias", disse Ismail.

Na casa de chá naquela tarde, alguém pensaria que ele não tem preocupações. Ele é uma daquelas pessoas cujo rosto exibe por padrão um sorriso. Mas seu sorriso nem sempre é alegre: metade do tempo é um sorriso de trabalho, o trabalho de não deixar tudo ruir.

Todas as pessoas reunidas disseram que seu jogador favorito era o argentino Lionel Messi, considerado por alguns o melhor jogador do mundo. "Adoro quando ele sai driblando os zagueiros", disse Ismail, que também é atacante. "Ele é letal."

Ismail provavelmente nunca verá uma partida profissional em pessoa, mas uma grande excursão para ele é jogar pela equipe de Cox's Bazar no campeonato oficial bengalês. Equipes rohingyas não são autorizadas a jogar no campeonato oficial, mas seus melhores jogadores, incluindo Ismail, às vezes são recrutados.

"Não dizemos aos adversários que sou rohingya, porque poderiam alegar que não tenho condições legais de jogar", ele disse.

Mas quando chutou a bola mais tarde naquele dia, a bola balançou as traves enferrujadas e quicou nos telhados abaixo. Ismail correu para sua equipe, que o abraçou e riu.

Vários garotos saíram correndo atrás da bola, trombando no entardecer, ávidos em ser aquele que a devolveria. O time dos refugiados oficiais derrotou a equipe do campo não oficial por 2 a 0.

Depois da partida, ele me pediu para adicionar minha página do Facebook em seu telefone, para que pudesse manter contato. A tela ainda exibia o último termo de busca que ele digitou: "Herói do futebol Messi".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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