Herói de conflito sangrento ganha reconhecimento na Coreia do Sul

Por Choe Sang Hun

Em Seul

  • NYT

    Monumento em Gwangju a Jürgen Hinzpeter

    Monumento em Gwangju a Jürgen Hinzpeter

Quando correspondentes estrangeiros cobrem situações perigosas, eles dependem com frequência de assistentes locais, que em muitos casos correm riscos ainda maiores do que eles. No mês sangrento de maio de 1980 em Gwangju, Coreia do Sul, um desses heróis invisíveis era um taxista cujo nome pode ou não ser Kim Sa-bok.

Enquanto a ditadura militar de Chun Doo-hwan massacrava pessoas em Gwangju que pediam por democracia, Kim, se é que esse é seu nome, teve um papel crucial no relato para o mundo do que estava acontecendo. Ele conseguiu fazer com que um repórter da TV alemã, Jürgen Hinzpeter, passasse pelo cordão militar que cercava a cidade, não apenas uma, mas duas vezes. Hinzpeter foi um dos poucos correspondentes estrangeiros a documentar a carnificina, e suas imagens foram vistas por todo o mundo.

Hinzpeter, que morreu no ano passado aos 78 anos, há muito é celebrado na Coreia do Sul por seu papel na exposição das atrocidades de Chun. Há um memorial ao jornalista em Gwangju.

E nesta semana, é a vez de seu motorista ser reconhecido. Um filme, "A Taxi Driver" (Um taxista, em tradução livre), estreou na quarta-feira em cinemas por todo o país, contando a história do levante pelo ponto de vista de uma versão fictícia de Kim, que apesar dos esforços de Hinzpeter e de outros ao longo dos anos, nunca foi identificado.

"Até agora, eu nunca soube que havia um taxista nessa grande história sobre o sr. Hinzpeter", disse Kim Ju-sung, um estudante colegial, após uma pré-estreia recente do filme. "Eu me orgulho dele tanto quanto do sr. Hinzpeter."

As mortes em Gwangju foram um marco doloroso na longa e tumultuada jornada da Coreia do Sul para a democracia. Chun, um general do exército que tomou o poder em dezembro de 1979, após o assassinato do presidente Park Chung-hee, estava endurecendo seu controle em maio. Ele declarou lei marcial por todo o país, fechou as universidades e o Parlamento, e prendeu líderes da oposição. Em Gwangju, uma cidade de porte médio no sul, manifestantes tomaram as ruas em 18 de maio e os soldados abriram fogo.

Ao tomar conhecimento da situação, Hinzpeter, um correspondente em Tóquio para a emissora alemã "ARD", e seu técnico de som, Henning Rumohr, voaram para Seul. Um conhecido de Hinzpeter arrumou um motorista, um homem de meia-idade que disse que seu nome era Kim Sa-bok, para encontrá-los no aeroporto. Eles então seguiram para o sul.

"Os avisos na saída da via expressa dizendo 'fechada' eram um alerta para nós. Mas eles não impediram nosso motorista Kim de prosseguir pela via vazia", escreveu Hinzpeter em 2006, quando foi pedido a ele que recontasse sua experiência no Clube dos Correspondentes Estrangeiros de Seul. "Após dirigirmos por cerca de uma hora, começamos a encontrar avisos de desvio, mas Kim continuou seguindo em frente na direção de Gwangju."

Posteriormente eles chegaram a barreiras militares, onde soldados os forçaram a dar meia-volta. Kim seguiu para vilarejos próximos; lá, agricultores lhe informaram sobre rotas alternativas para Gwangju, estradas estreitas que serpenteavam por entre as plantações de arroz. (Hinzpeter inventou uma história que os ajudou a passarem por barreiras posteriores, dizendo aos soldados que seu chefe estava retido em Gwangju e que ele tinha vindo retirá-lo.)

Hinzpeter esteve entre os primeiros repórteres estrangeiros a encontrar Gwangju em um estado de levante sangrento. Após as tropas começarem a matar os manifestantes, os moradores começaram a se armar. Um "exército popular" começou a correr pelas ruas em jipes e caminhões militares dos quais se apossaram, carregando armas e munições roubadas de delegacias de polícia, enquanto pessoas nas calçadas cantavam contra a ditadura.

Atrás de um hospital, "parentes e amigos me mostravam seus entes queridos, abrindo muitos dos caixões colocados em fileiras", escreveu Hinzpeter. "Nunca na minha vida, até mesmo filmando no Vietnã, eu tinha visto algo como aquilo."

Com a mídia de notícias coreana calada pela lei marcial, apenas o punhado de correspondentes estrangeiros presentes pôde publicar os relatos do que estava acontecendo em Gwangju, uma tarefa nada fácil, dado o isolamento militar. As linhas telefônicas foram cortadas pelos militares; alguns repórteres andaram quilômetros até vilarejos para fazer fila nos telefones mais próximos que ainda funcionavam.

Levar as imagens para o mundo exterior seria ainda mais difícil. Hinzpeter devolveu seu filme exposto em sua embalagem original, para que os soldados nas barreiras pensassem que ainda não tivesse sido usado. Assim que voltou a Seul, ele o escondeu em um grande pote de cookies, que ele embalou em um papel laminado dourado e fitas verdes para que se passasse por um presente de casamento.

"A embalagem ficou tão impressionante que conseguiu passar pelas revistas de segurança" no aeroporto, escreveu Hinzpeter. Ele voou com o filme para Tóquio em 22 de maio e conseguiu entregá-lo aos seus empregadores.

Naquele mesmo dia, ele voou de volta para Seul. Ele e Kim seguiram de novo para Gwangju, a tempo de realizar a cobertura de um ataque das forças armadas a um prédio do governo onde cidadãos armados montaram sua última barricada condenada.

Quase 200 pessoas, incluindo cerca de 20 soldados, foram mortas em Gwangju, segundo o relato oficial, apesar de grupos cívicos e famílias enlutadas sugerirem que o número foi muito maior. A junta culpou "desordeiros vis" e "agitadores comunistas" pelas mortes, dizendo que os militares estavam lá apenas para proteger as pessoas.

Mas a filmagem de Hinzpeter expôs essas afirmações como mentiras, não apenas para o mundo, como também para os sul-coreanos.

Pelos anos restantes do governo de Chun, gás lacrimogêneo, coquetéis Molotov e gritos por democracia sacudiram os campi universitários, enquanto estudantes entravam em choque com a polícia. O ditador finalmente concordou em promover uma reforma democrática, incluindo eleições livres, em 1987. No final dos anos 90, Chun foi condenado por sedição e motim devido ao golpe de 1979 e pelas mortes em Gwangju.

Nos anos que se seguiram, quando Hinzpeter era homenageado com prêmios pelas associações de jornalismo e grupos cívicos sul-coreanos, ele falava com frequência de Kim. Ele disse que queria andar de novo no táxi de Kim pelas ruas de uma "nova Coreia", uma democracia vibrante. Shin Nan-ja, 75, que trabalhou com Hinzpeter após o levante, disse que ele lhe pedia repetidamente para encontrá-lo. Mas as buscas não deram em nada.

Os relatos por escrito deixados por Hinzpeter fornecem poucos detalhes sobre Kim, e a versão que aparece em "A Taxi Driver" (interpretado por Song Kang-ho, um dos atores mais conhecidos do país) é em grande parte fictícia.

Os produtores do filme dizem que eles, assim como Hinzpeter, tentaram encontrar Kim. Eles disseram que contataram todo sul-coreano mais velho que encontraram chamado Kim Sa-bok, um nome bastante incomum, mas nenhum deles revelou ser o motorista.

O interesse pelo filme transformou o nome em um dos termos mais pesquisados no país, mas ninguém se apresentou.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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